Rei

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No final dos anos 90 passei uns meses no Japão. Antes de ir para lá eu já imaginava as diferenças culturais, mas não imaginava o que eu presenciaria por lá. Um dos eventos que mais me impressionaram foi o seguinte.

Eu e um amigo havíamos acabado de entrar numa estação de metrô de Nagoya quando vimos uma moça sentada, passando mal, amparada por uma amiga. Havia vômito no chão. A situação era obviamente preocupante. Eu e meu amigo nos aproximamos oferecendo ajuda; tudo indicava a necessidade de chamar uma ambulância.

De forma abrupta, a amiga voltou-se para nós com expressão irritada, fazendo gestos negativos com a mão. Eu e meu amigo ainda não entendíamos o idioma, mas entendemos claramente a mensagem que nos era transmitida naquele momento. Surpresos com a reação da moça, decidimos nos afastar.

No dia seguinte relatei o fato a uma amiga japonesa. Ela explicou que nós havíamos ultrapassado uma das barreiras da etiqueta japonesa: oferecemos ajuda a quem não a havia pedido, o que, para os japoneses, constitui uma enorme e inaceitável falta de respeito.

Lembro-me destas coisas quando circulo por certas partes de São Paulo. Com freqüência circulam carros que espalham sons de péssima qualidade pelo bairro — alguns fazem janelas tremer. Em duas esquinas próximas há dois bares que se alternam fazendo algo parecido. Os sons de péssima qualidade são um problema menor se comparado com a absoluta falta de respeito, que é o desvio moral que faz com que os sons cheguem aos meus ouvidos — estou numa sala, praticamente no fundo da casa. Poderia ser Mozart e mesmo assim continuaria sendo desrespeito.

Lembro-me destas coisas também quando ouço certas conversas. As pessoas dizem coisas que não são da conta alheia e perguntam coisas que não lhes dizem respeito. Às vezes se assustam quando são lembradas a respeito da existência de limites.

A forma como o vírus da criminalidade se espalhou pelo país também é um sintoma monstruoso dessa falta de respeito: se o outro não é visto como uma pessoa, se não há respeito pela existência de outras pessoas, não pode haver respeito em mais nada. Puxar ou não puxar o gatilho por causa do trocado do ônibus é questão de logística.

Todas essas coisas somadas — pequenas ou grandes, banais ou mortais — me fazem crer que o Brasil precisa ser recriado desde o começo, desde o zero. Quase tudo aqui é muito óbvio, mas há quem coloque todas as fichas em campanhas políticas e midiáticas e em ações de reeducação ao estilo «sou da paz», «jogue sua arma fora» ou «eu não mereço ser estuprada». Mas só pode haver reeducação onde já houve alguma educação.

(Na imagem, um funcionário do metrô de Tokyo realiza o ‘rei’ em respeito aos passageiros que ele atende e orienta)

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Para quem sofre

Sede? Beba água.


Todos os meus sofrimentos sérios terminaram no dia em que passei um longo tempo deitado olhando o teto, digerindo aquilo que eu considerava ser a maior angústia pela qual passei.

Naquela época eu tentava encontrar um lugar neste mundo, tornar-me independente e ser bem-sucedido. A história de fracassos e o futuro sem perspectivas pareciam me deixar como única opção um presente absolutamente miserável.

Então algo surgiu. Vamos chamar isto de percepções. Como estas percepções surgiram é mais importante do que as percepções propriamente ditas.

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Desabafos

«Desabafe». Cresci ouvindo essa recomendação tola. Perdi um tempo precioso acreditando que o que eu sentia devia ser colocado numa mesa, à vista de todos, aberto para discussão. Caí na armadilha do sentimentalismo. Cheguei a achar que depressão era algo bom (embora irônica e felizmente nunca tenha sido atacado por ela) e que atrair a compaixão alheia com essa exposição seria vantajoso. E no entanto não produzi uma única poesia nesse período. Na verdade não produzi nada que pudesse atestar que a recomendação fosse realmente boa. Porque não era.

Continuei sendo solipsista e misantropo. Embora irreais em grande medida, tais atitudes me ajudaram a perceber que quem realmente se sente bem com o desabafo é a pessoa que está perto, não quem desabafou. A sensação de alívio de quem desabafa não se compara com a sensação vitoriosa de quem acabou de ouvir um desabafo.

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Sempiternidade

A idade vem, a tolerância se esvai. Começo a entender meus avós. Realmente não há o que tolerar.

Se uma pessoa repete erros durante 10 anos e neste período os avisos foram abundantes, o que resta é rezar pela alma dessa pessoa e pedir que a Lux Æterna a faça ver o que os avisos humanos não lhe tornaram visível.

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Vejo filas de carros novos e só consigo pensar numa coisa: impermanência. A linguagem da TV, as letras miúdas dos comerciais e o design irresistível pretendem contrariar um fato recorrente há muitas décadas: o «lançamento do ano» tornar-se-á o «elefante branco do ano» tão logo surja o próximo «lançamento do ano».

Vendem-se e compram-se carros como se eles fossem diamantes, o que não altera em nada dois fatos bastante simples: 1) o destino de todos eles é virar sucata e 2) qualquer montadora sabe disto.

E o mais irônico é ver o discurso das montadoras invadir áreas da vida humana cujos objetos raramente se desmancham. E eis que vemos imóveis, canetas tinteiro e relacionamentos vendidos com o mesmo discurso vanguardista. Não há território livre da babaquice.

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Axioma 1: ninguém quer morrer. Axioma 2: todos vamos morrer. No vão que existe entre estes dois axiomas peleja a maioria das pessoas.

Tal situação, no entanto, não basta para que se dê à questão da permanência a mais mínima atenção. Muitas deixarão cinzas e dívidas, no máximo. Algumas deixarão um apartamento ou uma casa de campo. Poucas deixarão uma biblioteca pessoal, uma obra magistral, um legado irresistível — um talismã, que seja.

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Do silêncio

Talvez um dos dramas interiores mais peculiares pelos quais uma pessoa pode passar seja o de perceber certas verdades e não conseguir explicá-las às outras pessoas. Embora as palavras às vezes possam amenizar o problema, isto tem pouco a ver com a oratória ou a habilidade literária (ou a falta destas coisas), porque há também momentos (não raros) em que as palavras agravam o problema e mais confundem do que esclarecem.

Há um frase célebre de Wittgenstein que diz «onde não se pode falar, aí é preciso calar». Seria um conselho supimpa se o diálogo interior não fizesse parte da natureza mesma da mente: tão logo a percepção da realidade se conclui, a mente começa a se desdobrar num jogo dialético interminável, em busca de frases, fórmulas, julgamentos, slogans. Querer falar, mesmo quando não se pode, é algo genuinamente humano.

Onde não se pode falar, oras, buscam-se palavras adequadas (conforme ensina Olavo de Carvalho).

Místicos, mesmo os que não conhecem Wittgenstein, dirão que o silêncio a que o filósofo austríaco se refere é contemplativo. Ok. Mas eis que em algum momento você precisará olhar nos olhos de outra pessoa e dizer coisas sérias — suponhamos, coisas que não aconteceram, mas que você sentiu e que, portanto, não são menos verdadeiras apenas porque não se manifestaram como sons de sininhos ou como uma fome devastadora ou como uma topada num móvel num quarto escuro.

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Quando Pôncio Pilatos perguntou a Jesus «quid est veritas?», o Nazareno silenciou. A verdade estava ali, encarnada, inteira e plena diante de Pilatos, que, ao invés de reconhecê-la, me vem com um «posso ver o cardápio?».

Eu também peço o cardápio. A maioria das pessoas pede. Mas no fundo todos queremos ver a verdade encarnada diante de nós, mesmo que isso signifique ajoelhar, silenciar e chorar.

Júbilo


Se a vida é feita de momentos, ontem houve um deles. Não que houvesse trombetas ao meu redor, anunciando a segunda vinda do Messias — o que seria motivo de grande júbilo, claro, mas infelizmente não foi este o caso — ou que eu tivesse quebrado um recorde importante, acertado na loteria ou, finalmente, eliminado todas as dúvidas sobre o sentido desta vida. Nada disso. A verdade é que não houve nada realmente extraordinário. Fiz as coisas habituais, com diferenças mínimas em relação ao dia anterior. Caminhei em vez de pedalar, pensei e falei coisas importantes.

Houve júbilo, no entanto. Efêmero ainda, mas houve. Durou o tempo necessário para cumprir longa caminhada. Ainda que houvesse um destino necessário, havia uma estranha sintonia entre todos os elementos que normalmente considero «meus» a um ponto tal que esta posse, realmente, não fazia a menor diferença. Eu estava ali e não estava ali. Caminhava com direção, mas seria indiferente se estivesse deitado sobre a areia com siris beliscando meu rosto ou se estivesse caminhando até agora.

É irônico que eu busque compreender o que houve. É humanamente impossível compreender tal coisa e, portanto, compartilho o fato pelo simples prazer de falar com pessoas sobre isso, de anotá-lo e de, mais tarde, ler sobre ele e manusear porções mais sólidas de memória. Apesar do tom enigmático, sei que há uma chance — mínima que seja — de que esse compartilhamento constitua uma luz na escuridão alheia ou — chances maiores — em minha própria escuridão.

O que quero dizer é que há verdadeiramente coisas muito maiores do que nós mesmos, há júbilo verdadeiro, há substâncias eternas e há Deus. A minha percepção hesitante destas «coisas» não depõe contra elas: depõe contra mim, contra minha própria visão e contra minha própria jornada. É por isto, não por qualquer outro motivo, que estou aqui neste momento fazendo estas anotações: para dizer a mim mesmo que existem coisas boas e eternas, mesmo que não as percebamos como boas, muito menos como eternas. Imperfeita e efêmera é nossa percepção, por sua própria natureza.

***

Se eu desaparecesse neste exato momento, quantas pessoas perceberiam minha ausência, quem seriam essas pessoas e quanto tempo cada uma delas levaria até perceber que eu fui embora?

Perguntas necessárias, inclusive porque revelam meu apego e a extensão de minha própria utilidade.

Cada segundo é uma vida.

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«O que é bom, Fedro, e o que não é bom — será preciso pedir a alguém que nos ensine isso?» — de Zen e a Arte da Manutenção das Motocicletas, de Robert Pirsig.