Realidade for dummies II

Encontro problemas toda vez que tento discutir um tema com alguém, sobretudo quando a discussão não é iniciada pessoalmente, mas filtrada pelas distâncias da Internet.

O principal problema que encontro é a total ausência de noção de como uma discussão deve funcionar. Refiro-me àquela dose mínima de racionalidade para que a discussão não apenas funcione e renda frutos para as pessoas envolvidas na discussão, mas também para que a discussão mereça este nome. Quando, por exemplo, você expõe um fato ou um argumento e a outra pessoa responde acusando você de grosseria ou arrogância, realmente não se trata de uma discussão, trata-se de um encontro casual entre duas entidades que não pertencem à mesma espécie.

Você mesmo, caro leitor, movido pela leitura de minha última frase acima, poderá pensar que um comentário desse tipo constitui grosseria pura e simples. Para que não pense assim, lembre-se dos atributos que costumam ser usados para definir o que é um ser humano: Continuar lendo

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Realidade for dummies

Como muitos devem saber, inclusive porque a informação aparece nos rodapés de alguns artigos meus, sou professor de yoga e de aikido. Para a maioria das pessoas estas duas disciplinas têm uma aura de serenidade e gentileza e são reconhecidos como caminhos de paz, harmonia e autoconhecimento.

Muitos devem saber também que, embora eu ensine tais coisas e pareça ser um sujeito «calminho», escrevo com relativa freqüência sobre política e atualidades, áreas de interesse em que tenho lá minhas preferências. Isto já foi motivo de espanto para pessoas que acreditam que estes temas são incompatíveis com as disciplinas que ensino.

Eu realmente não vejo qualquer incompatibilidade nisso. Não creio que a dedicação às questões «deste mundo» invalide o esforço dedicado às questões «do outro mundo» (aliás, dou cada vez menos valor a esta divisão, mas prosseguirei com ela neste texto por razões didáticas). Do mesmo modo, a dedicação a um caminho espiritual como o aikido ou o yoga não torna ninguém incapaz de compreender e resolver as questões deste mundo. Ao contrário, um traço relativamente comum à maioria das pessoas que atingem um certo grau nestas disciplinas é o aumento da compreensão que elas têm da realidade, o que no mais das vezes as torna mais habilitadas a lidar com as questões mais práticas do dia-a-dia. No mínimo, aprender a usar o próprio corpo e exercitar a auto-observação são coisas indiscutivelmente boas e úteis.

É claro que nem todos os mestres de yoga e de aikido são especialistas em administrar as próprias vidas e não é raro nos depararmos com alguns que têm dificuldades para cumprir as obrigações «deste mundo» — sem falar que eu não sou um mestre, é claro. O mesmo ocorre com sábios, santos e mestres de outras tradições. A vantagem destas pessoas é que elas conhecem a Verdade.

Todos aqui concordam que conhecer a Verdade é algo bom, não? Se concordam, concordam também que é bom colocar-se na direção dela. Se isto estiver claro e bem estabelecido, prossigamos.

O que foi dito até aqui permite dividir as pessoas em cinco tipos:

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Verdade e moral

Confesso, já me abstive de analisar os conteúdos alheios porque o sujeito que os expunha participava de um clube que eu abominava. Àquela altura, se um Hitler me dissesse que 2+2=4 eu consideraria avaliar seriamente se 2+2=5.

Exemplos como esse são sintomas de duas características bastante humanas:

1) Para a maioria de nós, verdade e moral se equivalem: fazer o bem significa estar do lado da verdade e o exercício da verdade é necessariamente bom.

2) Como conseqüência disso, a maioria de nós não concebe que pessoas inerentemente más possam às vezes estar do lado da verdade e acertar ao descrever a realidade. Isto nos leva a dispensar os conteúdos antes de avaliá-los, o que é um passo firme para faltar com a verdade e sustentar um estado de coisas que permite que o mal atue com liberdade cada vez maior.

Um exemplo comum entre filósofos sobre a relação entre verdade e moral é aquele que nos coloca como dono de uma casa onde se escondem judeus em plena Alemanha nazista. Um soldado nos pergunta se estamos escondendo judeus. Dizer a verdade, é claro, significa condenar aqueles judeus à morte.

Dizer a verdade não é o mesmo que reconhecê-la. A expressão da verdade estabelece uma relação entre duas pessoas — emissor e receptor. O reconhecimento da verdade é ato solitário por sua própria definição.

A verdade não se altera, alteram-se seus usos. A moral começa onde o silêncio e a contemplação terminam.

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Eu, eu, eu

cows

O problema não está no apego, mas no apego às coisas erradas. Ligamo-nos às coisas que mudam constantemente e isso nos faz mudar também e nos torna cegos para as leis eternas. Se pensarmos estritamente, o apego permite a continuidade da vida.

Não é uma grande ajuda jogar todas nossas roupas fora, amanhã elas ainda serão necessárias. Vivemos e temos fé na vida, nos valores morais, no maior valor do bem sobre o mal porque acreditamos na existência do futuro. Mas ter fé na vida é uma coisa, ter fé na vida porque estamos usando Armani é outra coisa. Não confunda unda com…

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Filosofias orientais insistem no tema da dissolução do ego e algumas até o aproveitam para causar uma embriaguez que de fato trará essa dissolução — como quando oramos ou entoamos um mantra até um ponto em que não reconhecemos mais nossa própria voz, embora ela ainda esteja ali, orando ou entoando o mantra. Mas o que me permite viver é saber que não sou aquilo que não sou. Eu digo algo que você não diz, sinto dores ou prazeres que você não sente. Assim, de que forma é possível dissolver o ego e por que isso é importante?

A maioria das pessoas se satisfaz sendo o que é. As pessoas não querem ter aquele corpo ou ser aquele sujeito rico; as pessoas querem ter aquele corpo ou ser ricas como aquele sujeito e continuar sendo exatamente aquilo que são. O sujeito quer melhorar sua vida, mas não quer deixar de ser o asno que faz brincadeiras de mau gosto com os colegas no trabalho — «eu não vou mudar por causa deles». Não há a menor percepção de que há princípios de vida subjacentes a uma vida rica ou saudável (ou simplesmente melhor).

A chave da mudança consiste em encarar sinceramente os princípios que o tornaram aquilo que você é.

Wabi

Eu gosto de historinhas zen. Até disponibilizei um ebook com uma boa coletânea aqui em meu site. O problema é que muitas dessas histórias não fazem sentido ou, quando não fazer sentido é o objetivo expresso da história (originando assim um koan), ela já está resolvida de tão conhecida que é. Há o problema do deslocamento, da quantidade de poeira acumulada sobre essas histórias, do preconceito, dos clichês.

Muitas dessas histórias tornaram-se exatamente aquilo que pretendiam criticar ou evitar. Cristais bonitos, mas com pouca utilidade — a não ser que o indivíduo tenha aprendido antes da leitura aquilo que a história pretende ensinar.

Eu penso com freqüência em finais alternativos para histórias conhecidas na tradição zen. E vejo, aos poucos, que esse exercício tem alguma relação com aquilo que o conjunto dessas histórias pretende ensinar. A idéia é precisamente transcender aquilo que já foi dito — não porque inovar é bacana, mas porque é interessante exercitar aquilo que achamos que aprendemos.

    Nan-In, um mestre japonês durante a era Meiji (1868-1912), recebeu um professor de universidade que veio lhe inquirir sobre Zen. Este iniciou um longo discurso intelectual sobre suas dúvidas.

    Nan-In, enquanto isso, serviu o chá. Ele encheu completamente a xícara de seu visitante, e continuou a enchê-la, derramando chá pela borda.

    O professor, vendo o excesso se derramando, não pode mais se conter e disse:
    «Está muito cheio. Não cabe mais chá!»

    «Como esta xícara,» Nan-in disse, «você está cheio de suas próprias opiniões e especulações. Como posso eu lhe…»

    Antes que o mestre pudesse terminar a frase, o professor pegou a xícara e a lançou no chão, que ficou coberto de chá e cacos de louça rústica. O mestre sorriu suavemente.


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Gita

Existe a idéia solidificada de que todas as ações afirmam algo — e que elas devem afirmar algo. É possível não afirmar nada? Talvez não seja. A respiração é a reafirmação constante da própria vida e do desejo de viver. Atenhamo-nos então às afirmações mais essenciais, mais elementares, mais necessárias.

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A lição definitiva do exercício de conscientização é dissolver a consciência, porque conscientizar-se profundamente significa perceber que não há o que perceber, que não há o agente e o objeto da percepção. Perguntar sobre métodos para tornar-se mais consciente é a reação mental típica, a armadilha de Jñana, que em muitos casos conduz ao fracasso. Sua utilidade está em cansar a mente a um ponto tal que ela pare de fazer perguntas, pare de querer saber, pare de tentar controlar e perceba verdadeiramente.

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A razão nos coloca nesta ou naquela direção e há diferenças entre lançar-se de um penhasco e caminhar com segurança numa praça. Naquilo que é elementar é bom dar ouvidos ao que a razão diz — débil e claudicante, mas nos economiza o tempo de reinventar rodas. Mas e depois? Como se escolhe uma direção quando se está parado em silêncio e repouso? Como e por que escolher uma direção quando não há bifurcações ou quando elas só existem na mente?

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