Miséria do jornalismo

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Atualmente, a melhor forma de manter-se atualizado é desatualizar-se, isto é, desistir dos jornais, revistas e portais de notícias.

Digo isso por motivos simples.

Você abre um site e vê, na mesma página, um link para uma notícia sobre um gato que ficou com a cabeça presa num jarro e um outro, para uma notícia sobre o aumento dos gastos do Governo Federal. Você pode achar que a diferença é pequena — de gato para gastos, são só dois S –, mas é claro que não é.

Você sabe que as coisas vão mal quando videocacetadas e fatos que decidem o destino de um país são reunidos no mesmo espaço, separados apenas por alguns pixels. Ou, pior, quando uma coisa é confundida com a outra.

A agilidade do jornalismo aumentou em proporção inversa à capacidade dos editores de selecionar o que realmente vale a pena ser noticiado.

Se eles não são seletivos, eu sou.

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Para quem ainda acreditava na imprensa

Um dos fatos mais importantes da história dos EUA foi sumariamente ignorado pela imprensa brasileira: cerca de um milhão de pessoas (números oficiais) marcharam em Washington contra o governo de Obama, contra os impostos e contra os políticos em geral.

Leia sobre isso aqui, aqui (com fotos) e aqui — porque se depender dos jornais brasileiros tudo que você vai saber sobre o mundo é que saiu da prisão o jornalista iraquiano que arremessou o sapato em Bush.

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A propósito, Jimmy Carter declarou ontem que as críticas a Obama são racistas. Até que a empulhação demorou.

Graduação em babaquice II

tamofu
Há remédio contra o mau jornalismo?

Aqui não se trata propriamente de babaquice, mas de outra coisa igualmente comum e grave no jornalismo brasileiro: falta de isenção. A diferença é que desta vez a coisa é assumida e descarada.

Ouvindo a rádio CBN terça passada tomo conhecimento de um evento que aconteceu na Basiléia (Suiça), promovido pela Roche, a respeito do Tamiflu e do combate à gripe suína. No evento foram apresentadas estatísticas da produção e da distribuição do medicamento e basicamente a reportagem da CBN girou em torno disso. No final da matéria a repórter encerra a transmissão direta da Suiça e o âncora do jornal conclui com o seguinte comentário: Continuar lendo

Graduação em babaquice

notícias populares

Que me perdoem os jornalistas por este post. Os mais sensatos saberão recusar a carapuça.

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Meses atrás ouve uma grita geral entre os jornalistas porque o STF decidiu derrubar a exigência de diploma para o exercício da profissão de jornalismo.

Ligo a TV para assistir a um telejornal. Vejo repórteres que definitivamente não estrearam esta semana na TV. Uma dessas pessoas estende o microfone para um pai de família cuja casa foi levada pela enxurrada e pergunta a ele:

    Sentimento de desolação, não é?

Em outro telejornal vejo um repórter cuja locução é temperada com uma pontuação absolutamente bizarra. Não lembro exatamente a frase, mas tome qualquer frase de qualquer reportagem de qualquer telejornal. Por exemplo:

    As bulas dos remédios genéricos e similares deverão conter informações semelhantes às apresentadas nas dos medicamentos de referência.

Conforme a técnica de locução atualmente utilizada pelos repórteres, a frase deve ser lida assim:

    As bulas dos remédios genéricos e similares deverão conter informações semelhantes às apresentadas nas dos medicamentos. De referência.

De duas uma: ou todos os repórteres são asmáticos e não conseguem sustentar frases longas sem pausas esdrúxulas ou as faculdades de jornalismo estão desenvolvendo técnicas revolucionárias de pontuação…

O exemplo mais evidente desse estado de coisas é o G1, o portal de jornalismo da Rede Globo. Nele as matérias dos telejornais da Rede são repetidas ad nauseam e a enxurrada de textos ruins, manchetes ruins e enfoques ruins é regra áurea. O G1 já foi objeto deste post do Saboya. Outra amostra recente da incompetência do G1 está na cobertura dada ao caso do italiano acusado de assediar a própria filha. O texto é modificado aparentemente sem critério algum — por mais delicado que seja o fato (grifos meus):

    Italiano é preso por beijar a filha na boca em barraca de praia no CE. (título da matéria do dia 3/9/2009)

    O advogado do italiano preso desde terça-feira (1º) sob a suspeita de ter estuprado a filha de 8 anos, na Praia do Futuro, em Fortaleza. (início da matéria do dia 4/9/2009)

Há ainda exemplos hilariantes, como este, do Ego (que faz parte da Globo.com, que engloba o G1).

É evidente que pessoas que falam errado, publicam fotos (mal) alteradas ou fazem perguntas absolutamente boçais têm diploma, porque começaram a trabalhar antes de junho deste ano, isto é, quando ainda era obrigatório ter diploma para atuar na área. Para estar num telejornal de uma rede de TV importante, certamente não tiveram uma formação acadêmica ruim.

Isto me faz crer que a babaquice é uma regra do jornalismo dito sério. Algumas pessoas se esforçam para argumentar que as redações estão recheadas de estagiários, o que é bem provável. Há também a antiga e notória necrofilia do jornalismo — que muitos associam à própria condição humana. Há ainda, a exemplo do que fazem os autores teatrais, a necessidade de criar tensão e expectativa com o texto jornalístico, porque a notícia precisa receber tempero para tornar-se atraente. E há também a velocidade que a Internet impôs às redações, que obviamente é inimiga da perfeição.

Seja qual for o motivo, alguns podem explicar, mas nenhum justifica o limbo das redações e nenhum explica os protestos pró-diploma entre estudantes e graduados do jornalismo. Na dúvida, mantenho distância segura dos noticiários e divirto-me com o Probably Bad News, sem me surpreender ao descobrir que babaquice não é exclusividade do jornalismo brasileiro.

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O fundamentalismo da imprensa

camisa de força
Eu sabia que essa imagem seria útil um dia…

Então, né, todo mundo revoltadinho porque o arcebispo excomungou os médicos que fizeram o aborto na menina. Donde a surpresa? Queriam que o arcebispo fizesse sinal de jóinha para eles? Aborto é aborto, sem nuances, sem talvez ou discussão. A regra é clara: fez, tá fora da Igreja, seu projeto de cristão.

Acusar o arcebispo de fundamentalismo — entre outras coisas piores — é fácil pacas. Difícil mesmo é a imprensa admitir o fundamentalismo de sua própria reação.

Na prática a excomunhão impede que o excomungado receba alguns sacramentos da Igreja: batismo, comunhão, crisma e casamento. Ele não terá a porta de sua casa caiada; não terá um emblema costurado em sua roupa; não será alvo de piadinhas na rua; não será vítima de homens-bomba; não será atacado por uma praga de gafanhotos. Por que a histeria? Essa turma realmente se importa com batismo, comunhão, crisma e casamento? Me poupem.

Pegou mal

tamô de volta
O âncora do telejornal não se conteve…
(link da imagem)

Então, né, eu ligo a TV e estão lá os dois âncoras do telejornal à espera da correspondente nos EUA. Os três eram só sorrisos.

Conta pra gente como foi o primeiro dia do presidente eleito.
— E a promessa de dar um cachorrinho para as filhas?

Não, não era possível.

Sim, era possível. E pegou mal pacas.

Se Hussein entra para a história como o primeiro presidente muçulmano e antiamericano dos EUA e por mais uma dezena de motivos que não vem ao caso repetir, a imprensa brasileira — toda ela, juntinha — entra para a história por ter assumido abertamente sua condição de lambe-botas, de torcida organizada, de legião. A imprensa brasileira saiu do armário, foi pra galera, gritou “é campeão” até ficar rouca.

Se liga: o tópico que interessa é a turba que ocupa as redações dos jornais brasileiros, não o democrata recém-eleito e a euforia por lá. O tópico é a euforia aqui. Eles podem ter algum motivo lá; nós aqui, não.

Jogando as mãos para o alto e gritando e pulando mais do que todos, eis que surge Arnaldo Jabor — forte candidato à presidência do fã-clube. Ninguém desceu tão fundo quanto ele. Jabor chegou a um nível abissal, onde não há mais luz, apenas uma batalha permanente de peixes cegos e famintos.

Essa é a vantagem da liberdade de expressão. Deixa a imprensa falar. Deixa o Galvão Bueno torcer em vez de narrar. Deixa a TV apoiar a política grandiloqüente e paternalista do Governo Federal. Deixa a mídia falar abobrinha à vontade.

Se a gente fica reclamando de miudezas desse tipo corre o risco de perder os grandes momentos da imprensa brasileira, aqueles em que os jornalistas orgulhosamente rasgam o diploma e eliminam qualquer dúvida que a gente possa ter: a imprensa brasileira odeia democracia, a imprensa brasileira está se lichando para a festa da democracia, a imprensa brasileira quer é rosetar, a imprensa brasileira quer é estar em Wóchito no dia da posse. Afinal, a democracia só interessa quando eles ganham.