Por que você odeia a arquitetura contemporânea

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E, se você não odeia, por que deveria…

Por Brianna Renix e Nathan J. Robinson
Traduzido por Christian Rocha[1]
Publicado originalmente em Current Affairs, em Outubro de 2017
https://www.currentaffairs.org/2017/10/why-you-hate-contemporary-architecture

 

O escritor britânico Douglas Adams costumava dizer sobre aeroportos: «Aeroportos são feios. Alguns são muito feios. Alguns têm um nível de feiúra que só pode resultar de um esforço especial.» Tristemente, esta verdade não se aplica apenas a aeroportos: pode-se afirmar isso sobre a maior parte da arquitetura contemporânea.

Veja a Tour Montparnasse, um arranha-céu negro com painéis de vidro liso, emergindo sobre a bela paisagem de Paris como uma peça de dominó prestes a cair. Os parisienses odiaram tanto esse edifício que a prefeitura foi logo em seguida obrigada a lançar um decreto proibindo a construção de arranha-céus com mais de 36 metros. Continuar lendo

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Sêneca, Da glória

    A glória é a sombra da virtude e a acompanhará sempre, mesmo que ela não queira. Mas como a sombra ora precede, ora segue os corpos, assim a gloria por vezes se mostra visível diante de nós, por outras vem por trás de nós; e é tanto maior quanto mais tarde chega, uma vez desaparecida a inveja. Por quanto tempo Demócrito foi tomado por louco! Com quantas penas afligiu-se Sócrates! Por quanto tempo os concidadãos ignoraram Catão! Rechaçaram-no e não o compreenderam senão depois que o haviam perdido. Se Rutílio não tivesse sofrido a condenação injusta, sua honestidade e sua virtude teriam permanecido escondidas: estas brilharam no ultraje. Não teria sido grato à sua sorte, abraçando o exílio? Falo daqueles que se tornaram famosos graças ao destino, enquanto eram perseguidos por ele; mas quantos não tiveram o reconhecimento de seus méritos apenas depois de mortos? Quantos não são os que a fama retirou de um longo esquecimento?

    Nenhuma virtude permanece escondida por muito tempo, nem lhe provoca nenhum dano ter sido escondida: chegará o dia em que será revelada, saindo do olvido para o qual havia sido banida pela inveja dos contemporâneos. Aquele que pensa nos homens da sua geração não viverá para os pósteros. Seguir-se-ão milhares e milhares de anos, milhares e milhares de homens: é para estes que se deve olhar. Ainda que a inveja imponha a todos os teus contemporâneos o silêncio sobre ti, virão os pósteros para julgar-te com o espírito sereno, sem aversão nem simpatia. Se da fama provém algum prêmio para a virtude, nem mesmo este estará perdido. Não nos tocará — é verdade — aquilo que os pósteros dirão de nós; todavia, não cessarão de honrar-nos, mesmo que não possamos ouvi-los. A cada um de nós a virtude dará sua recompensa, seja em vida, seja depois da morte, contanto que a sigamos com sinceridade, sem nos servirmos dela como ornamento exterior, mas permanecendo sempre os mesmos, quer porque sabemos que somos observados, quer sendo surpreendidos. A simulação não nos favorece. Um rosto embelezado só faz efeito para poucos. A verdade é sempre a mesma em todas as partes. As falsas aparências não possuem nenhuma consistência: através do véu sutil da mentira, aos olhos de um observador atento, transparece a verdade.

Sêneca, Cartas a Lucílio, IX, 79, 13.

O ornitorrinco

A inabilidade da metafísica convencional, a de sujeitos e objetos, em clarificar os valores é um exemplo do que Fedro chamou de um «ornitorrinco». Os primeiros zoólogos classificaram como mamíferos aqueles que amamentam seus filhos e como répteis aqueles que põem ovos. Eis que foi descoberto na Austrália um ornitorrinco, com bico de pato, que botava ovos como perfeito réptil e, depois de chocá-los, amamentava os ornitorrincozinhos como um perfeito mamífero.

A descoberta provocou uma sensação e tanto. Que enigma! — exclamou-se. Que mistério! Que maravilha da Natureza! Quando os primeiros exemplares empalhados chegaram à Inglaterra, provenientes da Austrália, no final do século XVIII, foram considerados falsificações feitas colando-se pedaços de diversos animais. Ainda hoje encontramos ocasionalmente artigos em revistas sobre a Natureza indagando: «Por que existe esse paradoxo na Natureza?».

A resposta é: não existe. O ornitorrinco não faz absolutamente nada de paradoxal. Ele não tem qualquer problema. Os ornitorrincos vinham botando ovos e amamentando seus filhotes há milhões de anos, antes que chegasse um zoólogo e declarasse isso ilegal. O verdadeiro mistério, o verdadeiro enigma, é como podem esses observadores científicos maduros, objetivos e treinados responsabilizar por seu erro crasso um pobre e inocente ornitorrinco.

Os zoólogos, para encobrir seu problema, tiveram que fazer um remendo. Inventaram uma ordem nova, a dos monotremados, para incluir o ornitorrinco e a équidna, e pronto. Isso é o mesmo que uma nação consistindo de duas pessoas.

Trecho do livro «Lila», de Robert M. Pirsig, mais conhecido pelo livro «Zen e a arte da manutenção das motocicletas».

Testemunho

Há na vida momentos privilegiados em que parece que o Universo se ilumina, que a nossa vida nos revela sua significação, que queremos o destino mesmo que nos coube como se nós mesmos o tivéssemos escolhido; depois o Universo volta a fechar-se, tornamo-nos novamente solitários e miseráveis, já não caminhamos senão tateando num caminho obscuro onde tudo se torna obstáculo aos nossos passos. A sabedoria consiste em salvaguardar a lembrança desses momentos fugidios, em saber fazê-los reviver e fazer deles a trama da nossa existência cotidiana e, por assim dizer, a morada habitual do nosso espírito.

Não há homem que não tenha conhecido tais momentos, mas ele os esquece depressa como um sonho frágil, pois ele se deixa captar quase imediatamente por preocupações materiais ou egoístas que ele não consegue atravessar ou ultrapassar, porque ele pensa reencontrar nelas o solo duro e resistente da realidade. Mas aquilo que é próprio de uma grande filosofia é reter e reunir esses momentos privilegiados, mostrar como são janelas abertas para um mundo de luz cujo horizonte é infinito, do qual todas as partes são solidárias e que está sempre oferecido ao nosso pensamento e que, sem jamais dissipar as sombras da caverna, nos ensina a reconhecer em cada uma delas o corpo luminoso do qual ela é a sombra.

«Témoignage» (Testemunho), apêndice do livro De l’Intimité Spirituelle (Da Intimidade Espiritual), de Louis Lavelle (1883-1951).

D. T. Suzuki, o intelectual «não-mental»

Por Alan Watts. Extraído do livro «Tabu».

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Jamais tive, na vida espiritual, mestre oficial (guru ou roshio) — apenas um modelo, do qual jamais verdadeiramente segui o exemplo, posto que uma pessoa sensível não gosta que se a macaqueie. Este modelo foi Suzuki Daisetsu, pessoa ao mesmo tempo mais sutil e mais simples que jamais conheci. Eu estava à vontade na ambiência intelectual e espiritual que criava em torno de si, ainda que jamais o tivesse conhecido intimamente e que eu seja de um temperamento completamente outro. Foi Suzuki que me fez conhecer o zen assim que, adolescente, li pela primeira vez seus Ensaios Acerca do Zen-Budismo. Nos anos seguintes li com prazer e admiração tudo que escreveu. Pois seus assuntos sempre surpreendiam, suas conclusões levavam sempre, em si mesmas, o começo de outra coisa. Abandonava os sulcos profundos do pensamento filosófico e religioso. Falava por subentendidos, abria parênteses, deixava entrever, abandonava a frase em meio, espantava por sua ciência (que era enorme) e encantava pela maneira leve e despretensiosa com que se servia de sua erudição. É assim que nessa encantandora desordem, nesse dédalo, que é sua obra, descobri a via para um jardim dos contrários reconciliados.

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Walden, Henry David Thoreau

    Por simples ignorância e equívoco, muita gente, mesmo neste país relativamente livre, se deixa absorver de tal modo por preocupações artificiais e tarefas superfluamente ásperas, que não pode colher os frutos mais saborosos da vida. A excessiva lida torna-lhe os dedos demasiado trêmulos e desajeitados para isso. Na realidade, o trabalhador não dispõe de lazer para uma genuína integridade dia a dia, nem se pode permitir a manutenção de relações mais humanas com outros homens, pois seu trabalho seria depreciado no mercado. Não há condições para que seja outra coisa senão uma máquina. Como pode ele ter em mente a sua ignorância — atitude indispensável ao crescimento interior — quando tem de usar seus conhecimentos com tanta freqüência? Às vezes, antes de julgá-lo, deveríamos dar-lhe roupa e comida, além de chamá-lo para beber conosco. As qualidades mais requintadas de nossa natureza, feito a pelúcia de certos frutos, só podem ser preservadas pelo manuseio delicado. E contudo, não nos tratamos assim ternamente, nem a nós mesmos, nem aos outros.

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