Natal

Natividade mística (c.1500), Botticelli (1445-1510)

O Natal é a celebração do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Comemore — sem esquecer que o aniversário é dele, não seu.

Que a data seja festejada como aquilo que de fato ela representa. Que a luz de Cristo ilumine corações e mentes. E que todos tenham um feliz Natal, com muita saúde e paz.

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Voz divina

monk praying

As pessoas têm medo de si mesmas. O consumo, o barulho, a sociabilidade excessiva — todas estas coisas são formas de dissolver a atenção e de desviá-la da única coisa realmente importante: você mesmo. Nem mesmo as religiões mais antropocêntricas são capazes de ampliar a compreensão que o indivíduo tem sobre si mesmo. O diálogo entre Deus e o homem fica reduzido a uma gritaria sem sentido, em que se assume que os dois são plenamente conhecidos.

Oras, se parece razoável perguntar quem ou o que é Deus, é ainda mais razoável e necessário perguntar-se quem você é e se a voz que se dirige a Deus é a sua própria. Deus não se importa com a sua desonestidade. Ele sabe quando você mente ou diz a verdade. A sua mentira não faz a menor diferença para Deus, mas faz alguma para você. Não existe código moral que o obrigue a dizer a verdade, mas não há dúvidas da importância de saber intimamente se o que você diz é verdade ou mentira. Saber o que se sabe e saber o que não se sabe — a sabedoria constitui-se, em grande parte, da consciência sobre a extensão do próprio conhecimento. Seja o sim sim e o não não.

Em outras palavras, a pior forma de dirigir-se a Deus é aquela em que não reconhecemos nossa própria voz. O primeiro passo é, portanto, reconhecê-la. Não é algo simples.

Se faz frio e você pensa “estou com frio”, é relativamente fácil saber até que ponto trata-se de uma reação autêntica. Pode-se admitir que seu corpo é algo que você pode controlar razoavelmente bem (a rigor, as coisas não são bem assim, mas isto fica para outra ocasião). Problemas começam a surgir quando começamos a falar de emoções, desejos e aversões. Pensar “estou com frio” é algo bem diferente de pensar “vou comprar um paletó” ou “não gosto desta blusa”. Sentir frio e pensar em como está frio são reações bastante naturais e espontâneas. Atenuar a sensação de frio com uma blusa de lã ou uma xícara de chá são ações decorrentes de várias outras coisas além do frio e do efeito do frio em seu corpo. Seu corpo sente frio, mas não é só seu corpo ou só sua mente que decidem vestir uma blusa quente ou beber chá. O que quero dizer é que a autenticidade de um gesto é diretamente proporcional à “distância” percorrida desde o objeto ou fenômeno observado até o gesto propriamente dito — e não é difícil perceber que quando a voz é a nossa própria, essa distância costuma ser bem pequena.

Se você consegue distinguir a própria voz, terá mais condições de distinguir cada voz do mundo e, conseqüentemente, saberá reconhecer a voz de Deus quando Ele se dirigir a você.

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O Natal venceu

nativity

É preciso ser muito míope para ver como mera expressão de consumismo rasteiro toda a movimentação das semanas que antecedem o Natal.

Aos olhos dos detratores do Cristianismo — ateus, na maioria, porque qualquer pessoa com uma dose mínima de de religiosidade não perde tempo com acusações tolas — o Natal é apenas uma festa de consumo. As luzes que enfeitam ruas, casas e edifícios não passam de meios de ampliar as vendas de vários tipos de quinquilharias chinesas. A correria nas lojas e nos mercados são arrogância burguesa, que não liga a mínima para a massa de miseráveis que mal consegue comprar um panetone de padaria. A febre de consumo leva algumas pessoas a gastar num bibelô dinheiro suficiente para a ceia de uma família inteira. Papai Noel é uma mentira sádica. Etc.

O que essas pessoas não conseguem ocultar é o fato simples de que as luzes quase sempre são um desejo sincero de tornar os lugares mais luminosos e belos. A maioria das pessoas não compra presentes para si, mas para pais, filhos e outros parentes próximos, além de amigos. Pode-se até dizer que a maioria dá presentes para “praticar a generosidade”, para causar boa impressão e conquistar a aprovação e a gratidão de outrem, mas mesmo que isso seja uma manifestação egocêntrica e pouco espontânea, ela não esconde o fato simples de que algo bom está sendo oferecido sem que, na maioria dos casos, haja expectativas realmente sérias e censuráveis de que haja um retorno. Histórias infantis e mentiras não são a mesma coisa; logo, Papai Noel está desculpado.

O que não se pode ocultar é que, afinal, o Natal venceu. Certamente ainda estamos distantes do ideal cristão — expresso, por exemplo, no Sermão da Montanha; todo o espírito do Cristianismo está contido nele; o Natal deveria ser uma celebração do nascimento e também da mensagem de Jesus. Mesmo assim, mesmo com pessoas imperfeitas e que “confundem o dedo com a Lua”, é inspirador que todos anos, num mundo cada vez mais confuso e caótico, as pessoas ainda encontrem tempo, disposição e recursos para se reunir com parentes e amigos ao redor de um presépio, de uma árvore iluminada, de uma mesa cuidadosamente organizada e celebrem, ainda que de forma discreta, aquele que trouxe Luz Divina ao mundo.

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Neste Natal, que sejamos dignos de celebrar o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo e que sua luz continue nos iluminando e nos indicando os melhores caminhos.

Natal é uma data para agradecer e retribuir. O maior presente de todos já nos foi dado mais de dois mil anos atrás.

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A todos vocês, um Feliz Natal e um Ano Novo próspero, com dias cada vez melhores.

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Cogito

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A morte é evidência suficiente do valor superior das obras, das idéias e das ações, das realizações e dos princípios. Diante deles, os instrumentos, o corpo, a força e os objetos têm pouca importância além daquilo que representam por si mesmos. Quando o corpo se vai, permanecem suas realizações. Neste sentido, a força, a beleza e a perfeição física são admiráveis apenas na medida em que são reflexos de uma vida pura, equilibrada, justa e correta. A busca pela perfeição física torna-se digna quando ela visa a perfeição moral e espiritual.

De forma análoga, a negligência para com o próprio corpo deve ser tratada com a severidade necessária para fazer ver sua importância na disseminação de boas obras, boas idéias e de bons valores.

O corpo se vai, as obras ficam.

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Idéias como esta bastam para demonstrar a banalidade dos luxos, das coisas supérfluas, das coisas absolutamente desnecessárias.

Vive-se com muito pouco e um dos problemas de nosso tempo é não ter noção desse mínimo necessário. Por menos que nos fixemos ao mínimo — porque coisas fundamentais hoje eram supérfluas ou inexistentes até bem pouco tempo atrás –, a percepção do que é genuinamente necessário nos ajuda a prevenir a miopia que tenta justificar o luxo ou que o coloca no topo de uma escala que inclui a própria vida e seus valores morais.

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Na noção de adequação está implicita a noção de medida e de proporção. Não é possível chegar à noção de medida e de proporção sem consciência, visão, localização — sem saber o que se é e onde se está. Este é o começo de tudo.

Se você é incapaz de olhar para fora, não verá nada ao olhar para dentro.

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O abandono dos ideais

luz tunel
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“(…) Numa sociedade empobrecida, fortemente empenhada em reduzir à proletarização a totalidade dos seus membros e na qual, ademais, todos os instrumentos de defesa espiritual e religiosa foram substituídos pelas multinacionais da pseudomística e todos os instrumentos de defesa cultural pelo vozerio onipresente e obsedante das comunicações de massa, nesta sociedade, o drama acima descrito atinge um máximo de intensidade que deixa entrever nada menos que um desenlace trágico, com a desumanização brutal da população e a redução da vida social a um jogo cego de interesses mesquinhos em disputa, ocultamente orquestrado e dirigido, desde o topo, por um sinistro grupo de planejadores sociais.

“Por todos os meios, esta sociedade espremerá como entre os dois dentes de um alicate todos os talentos e ideais nascentes, até esmagá-los e subjugá-los à bestialidade dominante.

“No entanto, apesar das pressões maciças e de todos os atrativos corruptores, a inteligência humana, por sua natureza mesma, continua essencialmente livre e capaz de objetividade e universalidade. E se é fato que ‘chegará o momento em que cada um, sozinho, privado de todo contato material que possa ajudá-lo em sua resistência interior, terá de encontrar em si mesmo, e só nele mesmo, o meio de aderir firmemente, pelo centro de sua existência, ao Senhor de toda Verdade’ (Guénon), não é menos verdade que está somente nas mãos de cada qual dizer a este mundo sedutor e ameaçador: Latrare potest, mordere non potest, nisi volentem: ‘Podes latir, mas não podes morder, a não ser que eu o deseje’. Mesmo as pressões mais formidáveis que o universo concentracionário impõe à alma humana, na mais temível das tiranias já conhecidas, não eximem o homem de sua responsabilidade individual.

“Todos aqueles em quem ainda reste um grão de consciência das metas reais e superiores da existência humana têm o dever imediato e indeclinável de estudar, conhecer e desmascarar os mecanismos do processo corruptor aqui descrito, para escapar aos falsos conflitos em que ele nos joga e às falsas alternativas que ele nos oferece.”

Trecho de O Abandono dos Ideais, de Olavo de Carvalho.

Razões para praticar

aikido
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O principal problema de seguir artes ou caminhos espirituais é também sua principal qualidade e o que leva muitas pessoas a procurá-los: a falta de compromisso com a realidade. Não quero dizer com isso que essas artes — como por exemplo o aikido, o yoga ou o kung-fu — sejam alienantes; é fácil reconhecer um praticante alienado: normalmente ele é aquele sujeito que fala o tempo todo da arte que pratica, e fala como se nada mais importasse para sua vida e para vida dos outros. Estes casos são excepcionais e, geralmente, patológicos. O que importa aqui são as pessoas normais, sensatas e atentas à realidade, pessoas às quais não associamos desvios como alienação e arrogância. O que quero dizer é que mesmo nestes casos, mesmo para estas pessoas, essas artes trazem alguma dose de alienação e de deslocamento da realidade.

A maioria dessas artes surgiu numa época em que elas eram necessárias. As artes marciais, por exemplo, surgiram como uma resposta a uma questão de sobrevivência e seu valor residia justamente no fato de que eram uma boa resposta. Esse valor ainda existe, mas a importância de uma arte marcial para a sobrevivência de uma pessoa mudou bastante ao longo dos séculos. Continuar lendo