As lágrimas do mestre zen

O mestre chorava bastante a morte de seu pai, e um de seus discípulos prediletos lhe disse: «Mestre, não fica bem chorar tanto. As pessoas vão pensar que você não é um iluminado, não tem consciência da dimensão espiritual, não tem consciência de que seu pai realmente não morreu».

O mestre continuou chorando sem nada responder.

Algum tempo depois, o discípulo voltou e lhe disse: «Mestre, não chore. Você sabe, seu pai foi para um espaço de luz e amor. Pare de chorar. Seus discípulos não vão mais confiar em você».

O mestre então respondeu: «Eu sei que ele foi para um espaço de luz. Mas não é esse o motivo de minhas lágrimas. Meus olhos choram de dor por saber que não verão mais sua presença bonita. Minhas mãos choram porque não vão poder mais tocar sua pele tão suave. Meus ouvidos choram porque ouvirão mais sua voz amiga. Isso não tem a menor relação com o fato de saber que ele está em um espaço melhor. Eu posso entender que não é preciso chorar, mas não consigo impedir que meus olhos derramem suas lágrimas».

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Júbilo.

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Escrevinhando o futuro

…é o título do ótimo artigo de Diogo Costa no Ordem Livre.

    “(…) o resultado da equação cidadão consciente + espírito crítico – conhecimento básico = sujeito que sabe desenhar o bigodinho de Hitler na foto do George Bush, mas não consegue apontar Berlim nem Washington no mapa.

    “Tratamos os estudantes como se todos estivessem se preparando para uma mesma carreira, a de professor universitário (com consciência crítica). Depois queremos que os professores com consciência crítica se tornem engenheiros, empresários, médicos, pilotos, padeiros e açougueiros. Não é de se espantar que um número exagerado deles acabem tentando ser professores, e muitos mais estejam dispostos a desistir de qualquer vocação para se tornarem funcionários públicos.”

O que é bom para mim, é bom para mim

nisargadatta

P: Tudo está bem em seu próprio nível. Mas como funciona na vida diária?

M: A vida diária é uma vida de ação. Goste dela ou não, você deve funcionar. Tudo o que fizer para si mesmo se acumula e se torna explosivo, e um dia explodirá e destruirá você e seu mundo. Quando você enganar a si mesmo crendo que trabalha para o bem dos outros, ainda o piora mais, já que não deverá ser guiado por suas idéias do que é bom para os outros. Uma pessoa que declara saber o que é bom para os demais é uma pessoa perigosa.

P: Como se deve trabalhar então?

M: Nem para você nem para os demais, mas pelo próprio trabalho. Uma coisa que valha a pena fazer é seu próprio propósito e significado. Não converta nada em um meio para alcançar alguma coisa. Não limite. Deus não cria uma coisa para servir outra. Cada uma é feita para si mesma. Tendo sido feita para si mesma, não interfere. Você está usando coisas e pessoas para propósitos estranhos a elas mesmas e está causando destruição no mundo e em você mesmo.

Trecho do livro “Eu sou aquilo — conversações com Sri Nisargadatta Maharaj”. Colhido aqui.

O espectro da consciência

ken wilber

O espectro da consciência, de Ken Wilber, adicionado à seção de ebooks deste site.

“Não existe uma ciência da alma sem uma base metafísica e sem remédios espirituais à disposição”. Poder-se-ia dizer que todo o propósito deste volume consiste simplesmente em apoiar e documentar esta proposição de Frithjof Schuon, proposição que os siddhas, sábios e mestres em toda parte e em todos os tempos incorporaram eloqüentemente. Pois, de um modo geral, nossa própria ciência da alma nos dias que correm foi reduzida a nada mais significativo que a resposta de ratos em labirintos de aprendizagem, o complexo individual de Édipo, ou o desenvolvimento no nível básico da raiz do ego, redução essa que não somente nos obliterou a visão das profundezas da alma, mas também ajudou a devastar nossos entendimentos espirituais tradicionais e levá-los a uma conformidade monótona com uma visão unidimensional do homem. O que está Acima foi negado; o que está Abaixo, ignorado — e solicitam-nos que permaneçamos — no meio — paralisados. Esperando ver, talvez, o que um rato faria nas mesmas circunstâncias ou, num nível um pouco mais profundo, buscando inspiração nas fezes do id.

Lemas

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sabedoria

— Encontrar algo que lhe faça bem e que lhe proporcione prazer, que faça bem às outras pessoas e que você possa e queira fazer por toda a vida.

— Pensar em qualquer coisa, desde que a mente saiba quem manda em quem. Falar apenas coisas boas. Pensar é filosofia, meditação e autoconhecimento. Falar é sociabilizar-se, interagir, conquistar, compartilhar e oferecer.

— Não é necessário começar pelo corpo, desde que se reconheça sempre e em tudo que se faz a dimensão física presente em todas as coisas. “De dentro vem o que por fora se revela” (Lao Tzu).

— Prazer é um indicador, não a base de um código moral. Quando uma pessoa defende as benesses do hedonismo, tente descobrir nela as seqüelas de uma vida de excessos — invariavelmente você as encontrará.

— Não há problemas em não estudar. Nem todos precisam entender de filosofia ou geopolítica. O problema está em não evoluir. O problema está em não conhecer um pouco mais a própria natureza a cada dia e não se reconhecer hoje como alguém menos burro do que ontem. Para isso honestidade e a consciência das vantagens de evoluir — isto é, a certeza de que ser bom é bom e de que você está longe de ser suficientemente bom.

— A sabedoria se expressa de diversas formas. Mas há muito mais formas pelas quais ela se cala.

Lição de casa

Ler esta entrevista com o filósofo, jornalista e escritor Olavo de Carvalho no JB de hoje.

Você tem que primeiro formar uma elite intelectual capaz de educar o restante do país. O governo vem com essa história de educar todo mundo, mas isso não funciona. Não é possível. (…) Se você não cria uma tradição de educação, a educação não pega. Se você não tem essa tradição, não tem o amor à cultura, ao conhecimento. A educação deve ser muito séria e começar por uma elite, que vai irradiando esse valor. Quem vai dar a educação para todos? A educação que se dá ao povo hoje não deveria ser dada a ninguém. Oferecer essa educação para meia dúzia de pessoas é um insulto. Para milhares, é um crime.