Realidade for dummies

Como muitos devem saber, inclusive porque a informação aparece nos rodapés de alguns artigos meus, sou professor de yoga e de aikido. Para a maioria das pessoas estas duas disciplinas têm uma aura de serenidade e gentileza e são reconhecidos como caminhos de paz, harmonia e autoconhecimento.

Muitos devem saber também que, embora eu ensine tais coisas e pareça ser um sujeito «calminho», escrevo com relativa freqüência sobre política e atualidades, áreas de interesse em que tenho lá minhas preferências. Isto já foi motivo de espanto para pessoas que acreditam que estes temas são incompatíveis com as disciplinas que ensino.

Eu realmente não vejo qualquer incompatibilidade nisso. Não creio que a dedicação às questões «deste mundo» invalide o esforço dedicado às questões «do outro mundo» (aliás, dou cada vez menos valor a esta divisão, mas prosseguirei com ela neste texto por razões didáticas). Do mesmo modo, a dedicação a um caminho espiritual como o aikido ou o yoga não torna ninguém incapaz de compreender e resolver as questões deste mundo. Ao contrário, um traço relativamente comum à maioria das pessoas que atingem um certo grau nestas disciplinas é o aumento da compreensão que elas têm da realidade, o que no mais das vezes as torna mais habilitadas a lidar com as questões mais práticas do dia-a-dia. No mínimo, aprender a usar o próprio corpo e exercitar a auto-observação são coisas indiscutivelmente boas e úteis.

É claro que nem todos os mestres de yoga e de aikido são especialistas em administrar as próprias vidas e não é raro nos depararmos com alguns que têm dificuldades para cumprir as obrigações «deste mundo» — sem falar que eu não sou um mestre, é claro. O mesmo ocorre com sábios, santos e mestres de outras tradições. A vantagem destas pessoas é que elas conhecem a Verdade.

Todos aqui concordam que conhecer a Verdade é algo bom, não? Se concordam, concordam também que é bom colocar-se na direção dela. Se isto estiver claro e bem estabelecido, prossigamos.

O que foi dito até aqui permite dividir as pessoas em cinco tipos:

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O que ando fazendo II

Esta foto deve resumir tudo:


(ela e eu — atrás da câmera)

…mas posso prosseguir dizendo que:

1) Passei duas semanas em Gonçalves, no sul de Minas. Em breve retorno para lá para mais duas semanas por lá. Por hora, tudo que posso dizer é que foram dias muito bons — só não foram melhores porque a patroa não estava por lá comigo — e que aquela região é adorável em vários aspectos.

2) Apaguei-me do Facebook, provavelmente porque, lerdo que sou, não o compreendi muito bem e porque o CafeWorld tende a tornar-se o centro de sua vida.

3) Ilhabela realmente pode ser um lugar encantador, principalmente nos dias de semana dos meses de baixa temporada. Caminhar de mãos dadas à noite pela avenida principal e perceber que o trânsito local se resume a um carro a cada meia hora é algo que não tem preço. O turista típico é uma besta quadrada.

4) Eu sei que Millôr acertou quando disse que “xadrez desenvolve a inteligência… para jogar xadrez”, mas voltei a estudar o jogo. Ainda não a sério como na adolescência, mas com bastante satisfação ao me perceber menos enferrujado do que imaginava. Para quem gosta do jogo e passa algumas horas viajando de ônibus todos os meses, há poucas coisas mais divertidas do que Chessmaster no celular.

5) Mais informações aqui e aqui — espaços que também têm recebido poucas atualizações, mas que podem dar mais pistas do que ando fazendo nestas últimas semanas.

6) Depois de nove meses longe do tatame, é ótimo poder voltar ao aikido com meus melhores companheiros de treino — o aikido de Ilhabela ainda está vivo, graças a eles — e, como no xadrez, perceber-me menos enferrujado do que eu receava estar.

7) Na TV/DVD, Glee, Up in the air e El metodo — todos muito bons.

Notas sobre o Aikido


— O Aikido é firme, de modo que o oponente não pense em escapar de seu movimento e de sua técnica. O Aikido também é leve, para que o oponente não reaja e não recorra à raiva ou ao medo. A maioria dos problemas que os praticantes enfrentam na prática desta arte marcial deve-se à aparente contradição entre firmeza e leveza.

— Aikido é amor, mas primeiro você precisa sobreviver àqueles que tentarão demonstrar que o Aikido e todo o resto não são amor. Por isso é importante tornar-se forte, saber lutar (e não lutar), estar atento — mas, obviamente, o Aikido é apenas um caminho entre tantos outros possíveis.

“Aiki is love. It is the path that brings our hearts into oneness with the spirit of the universe to complete our mission in life by instilling in us a love and reverence for all of nature. Aiki overcomes self. It not only takes hostility from our hearts but in making those who appear as enemies, enemies no more, it leads to absolute perfection of self. This martial art, therefore, is the supreme way and call to unite our body and spirit under the laws of the universe” (link). A paz surge quando os inimigos desaparecem.

O melhor vídeo de Aikido dos últimos tempos.

— O que há no início de um caminho espiritual? O conhecimento do caminho. Você entra em contato com ele, o experimenta e por ver seu valor decide permanecer nele. Sua dedicação é proporcional ao bem que ele traz a você e você nota que o esforço necessário para manter-se nele é menor do que os benefícios conquistados. Tudo muito simples e claro. Disto decorre a seguinte idéia: quem realmente se preocupa com o mundo, com a sociedade, com os fracos e oprimidos, deve preocupar-se antes em oferecer as melhores parcelas de si — isto é, aquilo que você conhece e vivencia. Com opções à mão, as pessoas naturalmente tomarão as melhores direções, isto é, aquelas direções que efetivamente lhes servem e que lhes tornarão melhores. O crime e o vício predominam onde o Bem não se manifesta. O Bem não se manifesta por fraqueza e indiferença dos bons.

— O exercício interior deve pautar a ação exterior. A maldade suprema consiste em ordenar uma ação que você desconhece ou que não se dispõe a conhecer. A maioria das ideologias peca neste ponto: invertem a ordem das coisas — colocam as ações acima do Bem e as idéias acima das ações.

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Por que praticar Aikido?

aikido
Não, não serve apenas para manter o marido na linha.

A vida não é feita de respostas prontas, mas de perguntas fundamentais e sérias que nos colocam num caminho ou que nos afastam definitivamente dele. O que todos buscam é a Verdade e o Bem. A possibilidade de obter estes valores em sua própria vida está mais ligada às perguntas do que às respostas. No entanto, a determinação na busca por respostas evita que você se perca na névoa densa das perguntas.

Praticar Aikido é uma das formas mais interessantes de se expor a perguntas profundas e fundamentais e dedicar-se seriamente à busca de respostas. A simplicidade e a sinceridade de um ataque direto e a necessidade de se defender com rapidez e eficiência não deixam espaço para respostas ambíguas ou hesitantes. Você não pode parar para pensar, não pode ter dúvidas do que vai fazer e raramente pode evitar a situação que foi colocada diante de você. No Aikido, você não precisa ter uma resposta definitiva, basta que ela seja válida, basta que você encare com sinceridade e determinação a questão que lhe foi proposta.

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Tá tudo dominado

obama yoga
Obamasana — ou a postura do herói.

Makoto é um dos princípios basilares do aikido. Makoto significa sinceridade ou honestidade, mas também pode ser entendido como verdade ou coerência entre palavra e ação. No yoga, o princípio que mais se aproxima de makoto é satya — verdade.

Nos dois casos, seja o praticante um aikidoka ou um yogue, o compromisso com a verdade é um pressuposto ao trilhar um caminho espiritual como uma arte hindu ou uma arte marcial japonesa.

Praticantes do aikido e do yoga têm — talvez mais do que outras pessoas — um compromisso com a verdade que deve ultrapassar suas vidas, suas disposições e pretensões. Há nessas artes a obrigação de desenvolver a capacidade de ver através da névoa espessa da mentira e da falsidade, ainda que essa visão implique a destruição de ilusões que sustentavam a vida do praticante; daí que makoto e satya podem causar frustração e desencanto. Em alguns casos, makoto ou satya podem fazer o praticante abandonar sua arte, caso ele seja incapaz de encarar a verdade que lhe é revelada.

Qual não foi minha surpresa quando vi que nessas duas artes há pessoas capazes e gabaritadas e ao mesmo tempo crédulas, desligadas da mais mínima consciência sobre makoto ou satya?

O boletim de yoga que recebo quase todos os dias começou hoje falando da posse do novo presidente:

Obama and Yoga — Regardless of what politics you may practice, today is a day of change and renewal. (…) Before he began his presidential campaign, he was asked why he wanted to become president. Obama answered that he wanted to be of service.

Como não encontro um link para o texto deste boletim, talvez o leitor queira ver outras referências a Obama no site da revista Yoga Journal. Não são poucas.

Dias atrás descobri um vídeo no YouTube intitulado Aikidoists for Obama, que mostrava um treino especial para levantar fundos para a campanha do democrata.

Eu entendo o que uma eleição presidencial pode significar para um país e mesmo quem deveria não se envolver com política de forma alguma acaba se envolvendo com ela até o pescoço. Mas é especialmente surpreendente e assustador quando esse envolvimento contraria princípios que sustentam as artes que essas pessoas praticam, o que significa que, ao menos em potência, essas pessoas estão dispostas a sacrificar essas artes em nome de… nada, em nome de uma imagem, em nome de algo meticulosamente construído para assumir o poder de um país e tornar-se símbolo de esperança e mudança, a despeito da abundância de evidências em contrário.

Eu não espero que essas pessoas leiam isto ou que conheçam as fontes citadas neste texto, mas o mínimo que espero delas — por uma questão simples de fidelidade àquilo que praticam e por autoproteção — é makoto e satya, um compromisso irrestrito com a verdade, mesmo que ela mostre, no fim, que mudança e esperança não constróem nações.

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Porque sim

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A imagem acima é um genial fluxograma para resolver problemas. Quando os meios ortodoxos não funcionarem e quando o Chapolin não aparecer, talvez isso possa ajudá-lo. (obrigado à Tamara, meu amor, sempre atenta ao meu interesse por coisas das quais só eu morro de rir)

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Compre já o sensacional Kit Left-Revolution.

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Uma campanha discreta que vale a pena: militância wireless.

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Aprenda a cair (e levantar) com o Aikido. Um vídeo mais, digamos, heterodoxo, você encontra aqui.

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“Toda compreensão de fatos políticos, sociais, culturais, psicológicos e econômicos tem como pressuposto o enquadramento imaginativo da situação. Só sobre essa base é possível o trabalho crítico da inteligência. O raciocínio mais exato do mundo, exercido sobre uma base imaginativa estreita, deformada ou doente, só pode levar a erros terrivelmente persuasivos.” — o restante deste texto você lê aqui.

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Eu realmente tenho tido pouco tempo e disposição para atualizações. Tenho coisas anotadas no caderno, mas elas ficarão de molho um pouco mais, enquanto sigo com o mestrado.

Considerem este post um passatempo e um lembrete de que há algumas centenas de posts à disposição neste Gropius neste site.

Quer ler um livro? Quer mudar o papel de parede de seu PC? Quer filosofia? Quer atualidade? Quer transpirar um pouco e alongar o corpo? Arte? Música? Downloads? Tem de tudo aqui, basta procurar. Sejam bem-vindos.

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