Resumo

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— Retorno, finalmente.

— A rotina a dois experimentada durante as festas pode não ser o test-drive ideal para o futuro casamento — porque nenhuma rotina inclui preguiça e diversão ininterruptas —, mas que foi excelente, foi. Em verdade, poucas coisas poderiam ter sido melhores. Ela estava comigo.

— Apesar da boa companhia, sair da rotina não é tão bom quanto estar nela. Decerto trata-se de uma dificuldade muito minha, a de lidar com a alteridade. Começo o novo ano fazendo exatamente as mesmas coisas que fazia quando o ano passado se encerrou. Felizmente.

— Cidades grandes podem ser um bom lugar para viver, a despeito das maldições que já lancei contra elas. Condição necessária para isso é encontrar um modo de vida que dispense todas as atividades, hábitos e posses que nos expõem a esses problemas. Por exemplo, viver perto do trabalho permite andar a pé, que permitirá apreciar o lugar em que se vive e notar suas vantagens e desvantagens. Quem vive dentro de um carro obviamente não tem olhos para a cidade.

— De forma análoga, pouco adianta viver numa cidade pequena e manter exatamente os mesmos hábitos de uma cidade grande — incluindo o carro, a ignorância (i.e. o hábito de ignorar o que há ao redor) e o vício frenético do consumo. Turistas não compreendem isso, claro, e são a fonte de inspiração para quase todas as coisas ruins que afetam as cidades pequenas.

— Digo estas coisas porque ainda não fixei raízes onde quer que seja. Passo meus dias numa cidade grande, em caráter provisório. Olho com certa nostalgia e interesse as cidades pequenas, mas sei que a realidade desses lugares é menos deslumbrante do que parece. No fundo, sei que o problema maior é a brasilidade e que a qualidade de um lugar depende da capacidade que seus habitantes de levar uma vida positivamente alienada — isto é, com olhos voltados ao que realmente importa, àquilo que está ao redor, não nos telejornais.

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Aniversário

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Hoje a mulher que eu amo faz aniversário.

Sabe aqueles clichês, “o Carrefour faz aniversário, mas quem ganha o presente é você”? Eu me sinto assim hoje.

A ela, toda felicidade deste mundo — o que talvez não seja metade da felicidade que ela me proporcionou todos estes anos.

Tamara, amo você.

Miyazaki e o amor

Christian Rocha

O valor do cinema não se mede apenas por aquilo que se vê na tela, mas também pelas idéias e sentimentos que ressoam no indivíduo quando ele já deixou a sala de projeção. Seria injusto para muitos filmes julgá-los apenas por aquilo que eles falam e mostram. Apreciá-los adequadamente exige atenção àquilo que é dito e sugerido e sobretudo àquilo que resulta da soma entre a imagem real do filme e a imagem mental e sentimental que fazemos dele. De algum modo, o filme continua sendo exibido em nossas mentes depois que o vemos.

São exemplos de filmes desse tipo as animações feitas por Hayao Miyazaki. Fundador do Studio Ghibli, Miyazaki é considerado o maior mestre do cinema de animação da atualidade.

A obra de Miyazaki possui três características muito fortes, que podem ser vistas em quase todas as suas animações: (1) o visual deslumbrante, de cores vivas e traços bem-definidos; (2) as histórias cheias de fantasia e originalidade, (3) que falam de forma quase mitológica sobre os sentimentos, experiências e problemas humanos. A soma dessas três características — exuberância, fantasia e humanidade — rendeu-lhe Oscar em 2003 com A Viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no Kamikakushi; aqui também, um artigo interessante sobre este desenho). A fórmula — se é que se trata de uma fórmula — foi repetida em Castelo Animado (Hauru no Ugoku Shiro), produção mais recente do Studio Ghibli, e já podia ser vista em seus primeiros longa-metragens, como Laputa e Tonari no Totoro, e também em Mononoke Hime, grande sucesso de 1997, que chegou a bater Titanic nas bilheterias japonesas.

Castelo Animado conta a história da jovem Sophie, uma chapeleira muito dedicada que se envolve com o mago Howl (Hauru), cujas intenções são misteriosas. Seu envolvimento com o mago atrai a antipatia e inveja da Bruxa do Pântano, que joga um feitiço em Sophie, que a transforma numa velha de 90 anos. Para desfazer o feitiço, ela deixa a cidade em que vive e acaba indo trabalhar no castelo ambulante de Howl, um lugar mágico que se desloca no tempo e no espaço. A magia do castelo é mantida por Calcifer, o fogo mágico, que é quem ajuda Sophie a se adaptar à sua nova vida.

Todas as noites Howl assume a forma de um pássaro e luta contra dois exércitos que se enfrentam numa guerra de razões desconhecidas. A força destrutiva da guerra contrasta com a delicadeza vitoriana e a vivacidade do lugar em que Sophie vivia. Calcifer revela a Sophie que pode desfazer o feitiço que a atingiu, desde que ela descubra a ligação dele com Howl.

Embora seja um mago experiente, Howl demonstra ser um homem imaturo. Sua vida noturna oferece o risco de aprisioná-lo na forma de pássaro. Quando Sophie é aceita para viver e trabalhar no Castelo, ela encontra um lugar sujo e desorganizado — trabalho árduo para uma jovem senhora de 90 anos. Sophie adapta-se bem à sua nova condição. A seriedade e o solipsismo de sua juventude eram na verdade características de uma pessoa idosa.

Seria apenas mais uma história de fantasia não fosse por alguns sinais de humanidade em personagens aparentemente pouco humanos. Howl e Sophie foram enfeitiçados. O feitiço lançado em Sophie transformou-a em velha; o feitiço lançado sobre Howl deu-lhe poderes mágicos, entre eles a capacidade de se transformar em pássaro. Sophie apaixona-se por Howl, que é um solteiro típico: desleixado com a própria casa, vaidoso, egocêntrico, aventureiro, forte e viril. Sophie serve como contraponto a Howl: ela é frágil e delicada, apaixonada e idealista, decidida e batalhadora.

Para Miyazaki, o feitiço é um símbolo da resistência ao processo de amadurecimento. Em A Viagem de Chihiro, o feitiço era a prisão num universo desconhecido, como em Alice no País das Maravilhas, e para quebrá-lo Chihiro conheceu o amor e ultrapassou a linha que separa a infância da pré-adolescência. Em Castelo Animado, o feitiço de Sophie faz com que ela ultrapasse a linha que separa a adolescência da idade adulta. Não me refiro aqui às ações e expectativas típicas dessas fases da vida; refiro-me antes às emoções, à maturidade sentimental a que as experiências nos conduzem.

O feitiço da Bruxa do Pântano não transforma Sophie em velha, apenas faz com que ela tenha a aparência que corresponde aos seus sentimentos. Sophie tem 18 anos, mas por dentro é uma velha de 90 anos; o feitiço apenas revela sua velhice. A chave para compreendê-lo é oferecida com muita sutileza. Em determinado momento da história Sophie aparece dormindo, novamente com sua aparência jovem, cabelos escuros; dorme delicadamente, sem guardar nenhum traço da idade que aparentava durante o primeiro dia de trabalho no Castelo de Howl. A aparência de Sophie varia entre a juventude e a velhice conforme o seu estado de espírito. Quando sua atitude é decidida e vibrante, Sophie rejuvenesce e alinha a postura. Quando Sophie está triste e desanimada, seus traços envelhecem e sua postura se torna recolhida e encurvada.

Sophie não consegue desfazer o feitiço que a transformou em velha, embora ela termine a história novamente como a jovem de 18 anos que era no início. Ela apenas reencontra a juventude dentro de si — através do amor que sente por Howl e das experiências pelas quais passou enquanto trabalhava no Castelo.

Sophie e Howl personificam arquétipos muito conhecidos. Howl não é diferente de Peter Pan, o menino que nunca cresce, aprisionado na eterna juventude e imaturidade. Sophie não é diferente de Wendy, a menina que, movida pelo amor que sente por Peter Pan, pretende ajudá-lo a crescer e amadurecer. O mal de que Sophie e Howl padecem é o mal do tempo. Sophie tem o corpo jovem e a alma de uma velha. Howl é um mago poderoso, mas por dentro é ainda um menino frágil.

A mensagem que Miyazaki pretende transmitir em Castelo Animado não é diferente daquela presente em A Viagem de Chihiro. Os males — os feitiços — de que padecem as pessoas são males auto-infligidos. Causas e curas estão na alma do próprio doente. E o maior mal é a inadequação diante da própria realidade. Em mundos de pura fantasia, Miyazaki fala de como lidar com a realidade e dos problemas que encontramos quando a ignoramos.

Chihiro é a criança que aprende a amar, e é através do amor que ela aprende a crescer, a deixar a infância para trás. Ao contrário de muitos contadores de história, Miyazaki não é cruel. Enquanto muitos preferem associar o amadurecimento ao endurecimento que o sofrimento causa, Miyazaki sugere um caminho diferente: a maturidade para o mestre japonês é o reconhecimento dos próprios sentimentos e do modo como eles nos conduzem, às vezes por caminhos obscuros e difíceis. Mas não há pessimismo nisso, não há traços do sentimentalismo tal como ele é mostrado por cineastas ocidentais, sempre como algo dramático demais ou eufórico demais. Miyazaki pede apenas que se observem os sentimentos, que se lhes respeitem — eis o realismo mais importante.

Que o amor seja mostrado como o sentimento que desfaz todos os feitiços, é algo que torna os desenhos de Miyazaki ainda mais fascinantes. O romantismo de suas histórias é, contudo, muito sutil. Em Mononoke Hime, ele é a lágrima de Ashitaka quando este recebe alimento da boca de San (Mononoke). Sen lhe dá vida, o que não é diferente de oferecer ou fazer amor. Isso é simbolizado por esse beijo estranho mas pleno de amor e ternura. Em A Viagem de Chihiro, o amor é a súbita percepção de que Haku — por quem ela tem sentimentos dos quais ainda não tem plena consciência — na verdade era o rio em que Chihiro caiu em sua primeira infância. Ela esteve envolvida por ele, e o amor de alguma forma é uma espécie de simbiose. Outrora Haku e Chihiro estiveram intimamente juntos — e o amor é conhecimento e intimidade.

Em Castelo Animado, o amor é mostrado de forma mais evidente e linear, mas as metáforas visuais foram mantidas, o que sempre proporcionou bons resultados no cinema. O final feliz do jovem casal — Sophie e Howl — é simbolizado pelo vôo do Castelo, antes preso ao movimento desengonçado e terreno. Se a incompreensão sobre as próprias emoções prende-nos em labirintos obscuros e assustadores (como era o Castelo quando Sophie chega), o amor é a força que nos conduz através deles e faz com que a vida se eleve. Talvez o amor não rejuvenesça, como aconteceu com Sophie, mas certamente renova a vida e nos faz perceber realidades que nossa condição terrena insiste em ignorar.

Por que se arruinam os relacionamentos


Dante e Beatriz

A ruína dos relacionamentos está no seguinte fato.

As pessoas se unem para atingir um determinado fim, elas criam objetivos que pretendem atingir ou resolver através do relacionamento amoroso. Um relacionamento desse tipo não é, assim, a conseqüência inevitável de sentimentos mútuos, mas algo que pretende ser a causa desses sentimentos e de uma vida resolvida. Não se ama porque, ama-se para, exatamente como disse Eliphas Levi:

“Todos os sofrimentos de nosso coração provém de que amamos para receber e não para dar, para possuir e não para melhorar, para absorver e não para imortalizar.”

Amor: como e por quê

Eu digo que o amor não deve ser usado como desculpa para a irracionalidade e logo surgem os zeladores dos sentimentos me acusando de ser racional demais. Mas eu só proponho clareza, discernimento, o uso constante da inteligência e do senso de justiça. Uns dirão que essas coisas tornam impossível amar; eu respondo que o amor verdadeiro é uma forma superior de conhecimento e de justiça.

Refiro-me aqui, é claro, ao amor romântico, o amor que une duas pessoas e que, às vezes, as leva ao matrimônio. Neste caso, talvez mais do que em outros, não há chances de sucesso sem conhecimento.

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