Por que você odeia a arquitetura contemporânea

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E, se você não odeia, por que deveria…

Por Brianna Renix e Nathan J. Robinson
Traduzido por Christian Rocha[1]
Publicado originalmente em Current Affairs, em Outubro de 2017
https://www.currentaffairs.org/2017/10/why-you-hate-contemporary-architecture

 

O escritor britânico Douglas Adams costumava dizer sobre aeroportos: «Aeroportos são feios. Alguns são muito feios. Alguns têm um nível de feiúra que só pode resultar de um esforço especial.» Tristemente, esta verdade não se aplica apenas a aeroportos: pode-se afirmar isso sobre a maior parte da arquitetura contemporânea.

Veja a Tour Montparnasse, um arranha-céu negro com painéis de vidro liso, emergindo sobre a bela paisagem de Paris como uma peça de dominó prestes a cair. Os parisienses odiaram tanto esse edifício que a prefeitura foi logo em seguida obrigada a lançar um decreto proibindo a construção de arranha-céus com mais de 36 metros. Continuar lendo

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O Mito da Gentrificação

É extremamente raro e não tão mau para os pobres como você pensa.
por John Buntin

Artigo publicado no site Slate, em Janeiro de 2015. Link original do artigo aqui.
Traduzido por Christian Rocha, mestre em Arquitetura e Urbanismo pela FAUUSP, docente do curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário do Sul de Minas.

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Começou no Soho, em seguida estendeu-se a Chelsea e depois a East Village. Alguns tumultos em Tompkins Square em 1988 renderam-lhe algumas manchetes, mas não interromperam seu assustador avanço. Estendeu-se para o Baixo Harlem e depois atravessou o rio até Park Slope. Williamsburg e Fort Greene vieram em seguida; atualmente, ameaça até mesmo Bedford-Stuyvesant. Nova York não é a única cidade em que ela ocorre. São Francisco, Washington e Boston têm sido indiscutivelmente afetadas por ela. Seattle, Atlanta e Chicago também a vivenciam em larga escala.

«Ela», como você pode imaginar, é a gentrificação. Se você vive em uma dessas cidades, você provavelmente acha que sabe como ela funciona. Artistas, boêmios e casais gays vêm primeiro. Eles se mudam para edifícios decrépitos – mas charmosos e históricos – próximos do centro da cidade. Casas são restauradas. Cafés descolados aparecem. A segurança pública é melhorada. Então os preços dos aluguéis e dos imóveis começam a subir. Os tipos liberais, criativos e amantes da diversidade que compuseram a primeira onda de gentrificadores dão lugar a advogados, homens de negócios e profissionais da área de tecnologia. À medida que os preços dos aluguéis e dos imóveis continuam a subir, os primeiros moradores – com freqüência pessoas negras de baixa renda – são forçadas a se mudar desses lugares.

Essa é a história, pelo menos. Leia o City Lab da revista The Atlantic e você encontrará com freqüência artigos como «Por que a gentrificação é tão difícil de parar» e «Basicamente não há nenhum jeito de não ser um gentrificador». Esquerdistas e conservadores concordam que se trata de algo ruim (embora esquerdistas culpem os empreendedores e os conservadores culpem as legislações que limitam o desenvolvimento). Até a Jezebel [revista online sobre celebridades e cultura pop] entrou nessa. Recentemente o site criticou Taylor Swift (que no início deste ano trocou seu relativamente acessível apartamento de US$ 2 milhões em Nashville por uma cobertura de US$ 20 milhões em Tribeca) por incluir um «obtuso» «hino à gentrificação» em seu último disco.

Que a gentrificação consiste na mudança de pessoas negras e pobres causada por pessoas brancas ricas, trata-se de uma afirmação tão comum que a maioria das pessoas aceita como um fato amplamente difundido da vida urbana. Não é. A gentrificação desse tipo é na verdade muito rara. O status sócio-econômico da maioria dos bairros é surpreendentemente estável ao longo do tempo. Quando a composição étnica de bairros onde predominam pessoas negras de baixo poder aquisitivo muda, isto ocorre geralmente porque latinos e outros imigrantes mudam-se para estes bairros – e tal imigração provavelmente é mais benéfica do que danosa. Sobre o deslocamento de pessoas desses bairros – a característica mais questionada da gentrificação – na verdade há pouquíssima evidência de que isso ocorra. De fato, nos assim chamados bairros gentrificados parece haver menos pessoas saindo para outros bairros do que em bairros não-gentrificados.

Está na hora de aposentar o termo gentrificação de uma vez por todas. Catorze anos atrás, Maureen Kennedy e Paul Leonard, do Brookings Institute, escreveram que a gentrificação «é um conceito politicamente carregado que em geral não tem sido útil nos debates sobre o crescimento e sobre a mudança das comunidades porque seu significado não é claro». Isto é ainda mais verdadeiro hoje em dia. Algumas cidades norte-americanas têm sérios problemas econômicos, mas eles não são do tipo que os críticos da gentrificação pensam que eles são. Pior, o foco da mídia sobre a gentrificação tem obscurecido os problemas realmente sérios: o isolamento crescente de bairros pobres, constituídos por minorias, e a surpreendente expansão da pobreza extrema.

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A gentrificação, como é comumente compreendida, consiste em muito mais do que aumento de preços das moradias. Trata-se de bairros com populações de baixa renda, predominantemente negros e latinos, que passam a ser ocupados por populações de alta renda, geralmente brancos. Demógrafos e sociólogos identificaram bairros em que esse tipo de mudança têm ocorrido. Wicker Park em Chicago, Harlem e Chelsea em Manhattam, Williamsburg no Brooklyn – estes lugares realmente foram gentrificados. Sociólogos e demógrafos observaram estas mudanças em estudos de caso e etnografias. Mas uma década atrás economistas começaram a fazer perguntas mais abrangentes sobre essas mudanças do que outras ciências sociais vinham fazendo. Eles observaram que o simples registro de que pessoas de baixa renda estavam sendo forçadas a se mudar de bairros cujos preços das moradias estavam subindo não significava em si mesmo que a gentrificação estava causando essas mudanças. Pessoas pobres com freqüência também se mudam de bairros não-gentrificados. Com efeito, pessoas com baixo poder aquisitivo mudam-se freqüentemente por diversas razões. A verdadeira questão é se moradores de baixo poder aquisitivo mudam-se de bairros gentrificados a uma taxa maior do que ocorre em bairros não-gentrificados.

Uma das primeiras pessoas a analisar essa questão de um modo mais aprofundado foi Jacob Vigdor, da Universidade de Washington. Em 2002, Vigdor analisou o que aconteceu em Boston entre 1974 e 1997, um período que se supôs de intensa gentrificação. Mas Vigdor não encontrou qualquer evidência de que pessoas pobres tenham se mudado de bairros gentrificados a uma taxa acima do normal. Ao contrário, as taxas de mudança [saída] de bairros gentrificados foram na verdade menores.

Isto não ocorreu apenas em Boston. Em 2004, os economistas Lance Freeman e Frank Braconi, da Columbia University, coordenaram um estudo similar sobre gentrificação em Nova York nos anos 90. Eles também descobriram que os moradores de baixo poder aquisitivo de bairros gentrificados eram menos propensos a se mudar do que moradores de baixo poder aquisitivo de bairros desprovidos dos sinais típicos da gentrificação.

É claro que a mudança não é o único meio pelo qual a gentrificação pode prejudicar os mais pobres. Moradores de bairros em processo de gentrificação podem permanecer nestes bairros, mas sofrer com aluguéis cada vez mais caros. Freeman e Braconi descobriu que os preços aluguéis realmente sobem em bairros gentrificados. Mas esse aumento teve um efeito inesperado: à medida que os valores dos aluguéis subiam, os moradores mudavam-se menos.

«A interpretação mais plausível», os autores concluíram, «pode ser a mais simples: à medida que os bairros são gentrificados, eles também melhoram de várias formas que são apreciadas tanto pelos moradores menos privilegiados como pelos mais privilegiados.»

Em 2010, a economista Terra McKinnish, da Universidade do Colorado, em Boulder, em parceria com Randall Walsh e Kirk White, analisaram a gentrificação em várias partes do país ao longo da década de 1990. McKinnish e seus colegas descobriram que a gentrificação criou bairros que eram atraentes para grupos familiares minoritários, particularmente aqueles com crianças e proprietários idosos. Eles não descobriram quaisquer evidências de mudanças ou prejuízos. Ainda que a maior parte do aumento de renda nesses bairros fosse para homens brancos com menos de 40 anos de idade e com formação superior completa (os gentrificadores arquetípicos), homens negros sem formação superior também viram sua renda aumentar. Eles também eram mais propensos a permanecer onde estavam. Em suma, famílias negras cujos membros não tinham formação superior também se beneficiavam da gentrificação.

McKinnish, White e Walsh não são os únicos pesquisadores cujos trabalhos sugerem que negros com freqüência se beneficiam da gentrificação. Em seu livro «Stuck in Place: Urban Neighborhoods and the End of Progress Toward Racial Equality» [não traduzido no Brasil], o sociólogo Patrick Sharkey analisou com profundidade os bairros negros que tiveram sua constituição étnica significativamente alterada entre 1970 e 1990. Ele descobriu que quando a composição de bairros negros mudou, não foi por causa da chegada de brancos nesses bairros. Isso raramente acontece. Em comunidades negras, as mudanças nos bairros ocorrem quando os latinos começam a chegar. Às vezes estas mudanças podem ser difíceis, como quando ocorrem mudanças nas lideranças políticas ou quando há mudanças nas principais características da comunidade. Mas a pesquisa de Sharkey sugere que essas mudanças também trazem benefícios reais. Moradores negros, particularmente os mais jovens, vivendo em bairros com maior diversidade encontram empregos significativamente melhores do que jovens negros com as mesmas habilidades, mas que vivem em bairros com menor diversidade. Em suma, diz Sharkey: «há fortes evidências de que, quando se reduzem os problemas de um bairro, a renda de jovens negros aumenta, e aumenta substancialmente.»

Em outras palavras, o problema não é tanto que a gentrificação prejudica os bairros negros; o problema é que a gentrificação com freqüência os ignora. Robert Sampson e Jackelyn Hwang, de Harvard, mostraram que o bairros com mais de 40% de negros são gentrificados muito mais lentamente do que outros bairros. A aparente falta de interesse de outros grupos étnicos em se mudar para esses bairros predominantemente negros e de investir neles é um fator de perpetuação da segregação e da desigualdade na sociedade norte-americana.

Enquanto os críticos da gentrificação censuram um processo que é sobretudo imaginário, eles têm ignorado um problema muito mais sério – a expansão da pobreza extrema. No ano passado, os economistas Joseph Cortright, de Portland, e Dillon Mahmoudi, da Universidade Estadual de Portland, analisaram as mudanças pelas quais têm passado os bairros mais pobres dos Estados Unidos nas últimas décadas. Eles começaram a partir de 1970,  analisando 1100 áreas censitárias – sub-regiões de municípios que os demógrafos usavam como unidades básicas para suas análises – localizadas num raio de até 10 milhas do centro comercial das 51 maiores cidades com altos níveis de pobreza. Então eles propuseram uma questão simples: como o padrão sócio-econômico mudou ao longo dos 40 anos seguintes nesses lugares?

A resposta: a maioria não mudou. Dois terços dos bairros mais pobres em 1970 ainda eram bairros muito pobres em 2010. Apenas cerca de 100 bairros viram seus níveis de pobreza reduzir para níveis menores do que a média nacional. Nesses casos, a área metropolitana típica tinha um ou dois bairros que poderiam ser descritos como gentrificados. Entretanto, Cortright e Mahmoudi notaram uma mudança ainda mais significativa. Se em 1970 havia 1100 áreas censitárias nas proximidades dos centros comerciais com taxas de pobreza de 30% ou maiores, em 2010 o número de áreas pobres havia subido para 3100. Em outras palavras, o número de áreas com altos níveis de pobreza nos arredores dos centros urbanos havia praticamente triplicado. Para piorar as coisas, o número de pessoas vivendo em extrema pobreza nessas áreas havia dobrado. Os moradores desses bairros eram majoritariamente negros.

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Se a gentrificação ocorre com tanta freqüência – e se ela pode mais ajudar do que prejudicar os moradores que vivem nos lugares antes da gentrificação – por que tantas pessoas se incomodam com isso? Há algumas razões para isso. A primeira tem a ver com os lugares em que a gentrificação acontece. De acordo com Cortright e Mahmoudi, apenas três cidades – Nova York, Chicago e Washington – responderam por um terço das áreas cujas taxas de pobreza caíram de mais de 30% em 1970 para menos de 15% em 2010. Metade das áreas dos EUA que passaram pelo processo de «gentrificação» (se ainda podemos chamar assim) estavam localizadas nessas três cidades. Não surpreende que os moradores de Nova York e de Washington achem que a gentrificação é um tema importante.

A outra razão pela qual nós continuamos a falar da gentrificação provavelmente tem mais a ver com os medos da classe média. Os preços das moradias nas cidades litorâneas mais caras dos EUA têm subido drasticamente desde a Grande Depressão. Expressar preocupação sobre a «gentrificação» nessas cidades podem ser simplesmente um outro modo de expressar preocupação com o aumento dos preços. Mas, de fato, diferentes tipos de cidades têm diferentes tipos de problemas econômicos. Em cidades litorâneas, o custo da moradia é com freqüência maior do que o custo da construção. Isto ocorre sobretudo porque a oferta de imóveis é limitada. Construtores em Washington não podem transformar as casas geminadas de Adams Morgan [bairro antigo da capital norte-americana] em grandes edifícios verticais – por isso o preço das casas geminadas sobe. A alta demanda também é um fator importante, é claro. Parte dessa demanda reflete uma preferência por bairros mais antigos e com moradias bem localizadas. Mas o fato de que muitas cidades globais oferecem altos salários aos melhores profissionais é certamente um fator mais importante. A gentrificação não é a causa dos altos preços das habitações nessas cidades. É um sintoma. Há inúmeras cidades com outros tipos de problemas relacionados aos preços das moradias. Há, por exemplo, cidades do Rust Belt [zona industrial no nordeste dos Estados Unidos] como Detroit, em que muitas casas são vendidas a um preço inferior ao de construção. Estas cidades têm problemas de renda. Cidades em que o preço das moradias é muito maior do que o preço da construção exigem políticas diferentes daquelas em que a situação é inversa. Cidades litorâneas podem se beneficiar de exigências de que os empreendedores reservem uma parte das novas unidades para populações de baixa renda, embora alguns economistas argumentem que tais exigências podem na verdade aumentar o problema que pretendem combater, elevando ainda mais o custo das novas moradias, e todos concordam que os efeitos dessa reserva serão mínimos. Certamente não reverterá a transformação dessas cidades em áreas exclusivas para pessoas ricas.

Em contrapartida, muitos moradores das cidades do Rust Belt se beneficiariam com subsídios para aluguéis (ou subsídios financeiros, ponto), não de reservas de imóveis. No entanto, os responsáveis pelas políticas habitacionais com freqüência não conseguem adequar os remédios às circunstâncias. Assim como as cidades do Rust Belt, São Francisco também necessita de reservas imobiliárias; enquanto isso, as instituições da Bay Area [região de São Francisco], como Stanford, concedem generosos subsídios para moradia aos novos professores, uma medida que só serve para aumentar os preços, em vez de buscar meios de aumentar a oferta de imóveis.

Excluir o termo gentrificação não terá qualquer influência na resolução desses problemas, é claro. Mas eliminará uma distração. Vamos examinar como os bairros realmente mudam e por que alguns não mudam. Vamos debater os fatores que restringem a oferta de imóveis (e, mais especificamente, aqueles que podem aumentar a oferta de imóveis a preços acessíveis) nas inúmeras «São Franciscos» nos Estados Unidos e como oferecer subsídios para aluguéis no Rust Belt. Estas coisas não serão tão divertidas quanto criticar ou defender a gentrificação, mas pelo menos esse esforço será direcionado para problemas reais.

Julho

rainy day

Gosto muito de dias frios, mas a combinação entre baixas temperaturas e chuva constante e fina acaba com qualquer um que dependa do sol para encontrar algum calor — entendido aqui de todas as formas possíveis. O corpo fica lento, o humor vacila e a mente os acompanha, sem encontrar forças para conseguir assumir o comando de todo o conjunto. Tem sido útil lembrar a máxima yogi que diz que a respiração é a corda que se usa para descer ao poço da mente.

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Insular is no more. Talvez não seja o fim, pois ainda não sei se meus dias longe da ilha são permanentes ou provisórios, mas não há mais sentido em manter um blog que trata de um lugar onde não estou, sobretudo porque, como eu disse aqui, não se trata de um blog de ficção.

Talvez o Insular volte. O blog continuará lá, assim como todos os posts e artigos. Quem sabe um dia eu volte a escrever sobre Ilhabela.

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Arquitetura is no more — para mim, claro. Tenho intenção de escrever longamente sobre isso noutro momento, inclusive como forma de compreender o que houve. O fato, falando mais brevemente, é que decidi deixar a arquitetura de lado, encerrá-la como parte de um período particular de minha vida, já concluído.

A arquitetura — graduação e mestrado — trouxe pelo menos um efeito colateral positivo, em algum momento no início do segundo ano de faculdade. Esse efeito consistiu em desenvolver a consciência sobre o que meus
professores pensavam, sobre o que me era exigido, sobre o que se esperava de um estudante e de um profissional. Tudo isso ficou muito claro para mim a partir desse momento. Não era nenhum poder extra-sensorial, era apenas a capacidade de saber o que me era exigido e saber o que fazer.

Eu acredito que todos desenvolvam essa consciência em algum momento da vida — geralmente no final da juventude, o que pode coincidir com os anos de faculdade. O problema é que a maioria finge que não possui essa consciência. O sujeito sabe que o rei está nu, mas prefere elogiar o traje do monarca — e assim sua consciência só é usada na manifestação dessa preferência.

Não me vi em condições de denunciar a nudez real, mas em 12 anos como arquiteto também não encontrei condições de me alinhar à massa que elogiava as roupas do rei. Simplesmente saio de cena, confiante de ter feito a escolha certa, aliviado por não ter mais qualquer obrigação de súdito, mas consciente dos riscos a que me exponho — as pessoas toleram muito pouco quem não esteja disposto a alinhar-se com elas.

Pergunte-se e responda sinceramente se o mundo precisa de arquitetos. Eu fiz essa pergunta e decidi estudar a tradição do yoga.

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Educação é um troço muito chato. Falo da educação tal como é discutida em mesas redondas na TV, em programas políticos, em jornais e artigos. O problema é encarar a educação como aquilo que acontece em escolas, diante de um professor.

Logicamente há valor nesse formato de ensino, mas não há evidências de que as aulas de citologia e de termodinâmica que tive no colegial serviram ou servirão para alguma coisa. Pura perda de tempo — esteja à vontade para provar que não é.

Minhas parcas experiências com outras formas de ensino em áreas incomuns do conhecimento demonstram que boa parte da essência e do sucesso do ensino está na relação entre professor e aluno. Pessoas são muito mais importantes para o ensino do que costumamos acreditar. Gasta-se muito tempo e muito dinheiro com livros ruins e métodos capengas e pouco tempo e suor olhando a pessoa que ensina e a pessoa que aprende.

Não sugiro nada além de buscar saber como funciona a rotina de estudos num dojo tradicional (seja ele de zendo, de artes marciais, de uma arte tradicional japonesa) e por que o ensino nesses moldes costuma ser bem-sucedido. “É pequeno”, dirão alguns, aludindo ao fato de que as melhores escolas são aquelas com poucos alunos e que, afinal, artes como o chado não são para qualquer aluno. Mas quem disse que o ensino convencional é para qualquer um? Quem disse que ele deve ser para qualquer um?

Talvez esteja aí o erro crasso dos métodos, ações e políticas modernas: a massificação do estudo, a idéia de que o estudo é uma obrigação universal — tanto para quem deve oferecê-lo como para quem supostamente se beneficia com ele. É realmente ruim que o filho de um alfaiate decida largar os estudos para dedicar-se ao ofício do pai? Não é maravilhoso que uma pessoa decida assumir a responsabilidade pela própria vida dessa forma? O que é mais necessário para um país, pessoas educadas ou pessoas responsáveis?

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Owari

clavin thesis
Imagem meramente ilustrativa

Fim.

Depois de três anos no mestrado da FAU-USP, a dissertação foi entregue, avaliada, apresentada e discutida com três professores. Falta apenas pegar o certificado ou diploma — não sei como chamam isso na pós-graduação.

Quem tiver muito, mas muito interesse em saber mais sobre minha dissertação ou até baixá-la e lê-la na íntegra, vá até o Insular. Como muitos notarão, eu a disponibilizei por lá porque toda a pesquisa é sobre a cidade de Ilhabela.

Tetris

weinfeld 360

O talento de Weinfeld é indiscutível. O partido adotado pelo arquiteto em seu Edifício 360° é genial; a integração entre áreas livres e áreas construídas é solução muito criativa, que com alguma sorte influenciará outros projetos. Os espaços propostos são ricos, a modulação nas unidades é simples e funcional sem ser medíocre.

Seria um projeto tão bonito quanto genial se tivesse sido interrompido no terceiro ou no quarto pavimento. Erguido até o limite do insuportável e colocado no Alto da Lapa, tornou-se o que é: uma pilha de caixas.

A premiação do projeto não surpreende. O que surpreende é o argumento do “diferente”, como se isto bastasse para mudar o fato simples e óbvio de que — mesmo que os espaços sejam interessantes, os apartamentos bem resolvidos e o uso do lote original — para o resto da cidade trata-se, afinal, de uma pilha de caixas.

A ausência deste óbvio nos comentários ao projeto pode revelar coisas interessantes a respeito da crítica de arquitetura atual. Para mim, revela que a crítica de arquitetura subiu no telhado — ou, neste caso, no caixote.

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Mais imagens do projeto, aqui.