Cidade e natureza

ilhabela

Eu já havia divulgado isso antes, mas retorno ao assunto para dizer que minha dissertação foi adicionada ao acervo virtual da USP. Quem quiser dar uma olhada nela, clica aqui:

Cidade e natureza: mercado imobiliário, turismo e desenvolvimento urbano em Ilhabela

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Julho

rainy day

Gosto muito de dias frios, mas a combinação entre baixas temperaturas e chuva constante e fina acaba com qualquer um que dependa do sol para encontrar algum calor — entendido aqui de todas as formas possíveis. O corpo fica lento, o humor vacila e a mente os acompanha, sem encontrar forças para conseguir assumir o comando de todo o conjunto. Tem sido útil lembrar a máxima yogi que diz que a respiração é a corda que se usa para descer ao poço da mente.

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Insular is no more. Talvez não seja o fim, pois ainda não sei se meus dias longe da ilha são permanentes ou provisórios, mas não há mais sentido em manter um blog que trata de um lugar onde não estou, sobretudo porque, como eu disse aqui, não se trata de um blog de ficção.

Talvez o Insular volte. O blog continuará lá, assim como todos os posts e artigos. Quem sabe um dia eu volte a escrever sobre Ilhabela.

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Arquitetura is no more — para mim, claro. Tenho intenção de escrever longamente sobre isso noutro momento, inclusive como forma de compreender o que houve. O fato, falando mais brevemente, é que decidi deixar a arquitetura de lado, encerrá-la como parte de um período particular de minha vida, já concluído.

A arquitetura — graduação e mestrado — trouxe pelo menos um efeito colateral positivo, em algum momento no início do segundo ano de faculdade. Esse efeito consistiu em desenvolver a consciência sobre o que meus
professores pensavam, sobre o que me era exigido, sobre o que se esperava de um estudante e de um profissional. Tudo isso ficou muito claro para mim a partir desse momento. Não era nenhum poder extra-sensorial, era apenas a capacidade de saber o que me era exigido e saber o que fazer.

Eu acredito que todos desenvolvam essa consciência em algum momento da vida — geralmente no final da juventude, o que pode coincidir com os anos de faculdade. O problema é que a maioria finge que não possui essa consciência. O sujeito sabe que o rei está nu, mas prefere elogiar o traje do monarca — e assim sua consciência só é usada na manifestação dessa preferência.

Não me vi em condições de denunciar a nudez real, mas em 12 anos como arquiteto também não encontrei condições de me alinhar à massa que elogiava as roupas do rei. Simplesmente saio de cena, confiante de ter feito a escolha certa, aliviado por não ter mais qualquer obrigação de súdito, mas consciente dos riscos a que me exponho — as pessoas toleram muito pouco quem não esteja disposto a alinhar-se com elas.

Pergunte-se e responda sinceramente se o mundo precisa de arquitetos. Eu fiz essa pergunta e decidi estudar a tradição do yoga.

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Educação é um troço muito chato. Falo da educação tal como é discutida em mesas redondas na TV, em programas políticos, em jornais e artigos. O problema é encarar a educação como aquilo que acontece em escolas, diante de um professor.

Logicamente há valor nesse formato de ensino, mas não há evidências de que as aulas de citologia e de termodinâmica que tive no colegial serviram ou servirão para alguma coisa. Pura perda de tempo — esteja à vontade para provar que não é.

Minhas parcas experiências com outras formas de ensino em áreas incomuns do conhecimento demonstram que boa parte da essência e do sucesso do ensino está na relação entre professor e aluno. Pessoas são muito mais importantes para o ensino do que costumamos acreditar. Gasta-se muito tempo e muito dinheiro com livros ruins e métodos capengas e pouco tempo e suor olhando a pessoa que ensina e a pessoa que aprende.

Não sugiro nada além de buscar saber como funciona a rotina de estudos num dojo tradicional (seja ele de zendo, de artes marciais, de uma arte tradicional japonesa) e por que o ensino nesses moldes costuma ser bem-sucedido. “É pequeno”, dirão alguns, aludindo ao fato de que as melhores escolas são aquelas com poucos alunos e que, afinal, artes como o chado não são para qualquer aluno. Mas quem disse que o ensino convencional é para qualquer um? Quem disse que ele deve ser para qualquer um?

Talvez esteja aí o erro crasso dos métodos, ações e políticas modernas: a massificação do estudo, a idéia de que o estudo é uma obrigação universal — tanto para quem deve oferecê-lo como para quem supostamente se beneficia com ele. É realmente ruim que o filho de um alfaiate decida largar os estudos para dedicar-se ao ofício do pai? Não é maravilhoso que uma pessoa decida assumir a responsabilidade pela própria vida dessa forma? O que é mais necessário para um país, pessoas educadas ou pessoas responsáveis?

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link da imagem

Owari

clavin thesis
Imagem meramente ilustrativa

Fim.

Depois de três anos no mestrado da FAU-USP, a dissertação foi entregue, avaliada, apresentada e discutida com três professores. Falta apenas pegar o certificado ou diploma — não sei como chamam isso na pós-graduação.

Quem tiver muito, mas muito interesse em saber mais sobre minha dissertação ou até baixá-la e lê-la na íntegra, vá até o Insular. Como muitos notarão, eu a disponibilizei por lá porque toda a pesquisa é sobre a cidade de Ilhabela.

Tetris

weinfeld 360

O talento de Weinfeld é indiscutível. O partido adotado pelo arquiteto em seu Edifício 360° é genial; a integração entre áreas livres e áreas construídas é solução muito criativa, que com alguma sorte influenciará outros projetos. Os espaços propostos são ricos, a modulação nas unidades é simples e funcional sem ser medíocre.

Seria um projeto tão bonito quanto genial se tivesse sido interrompido no terceiro ou no quarto pavimento. Erguido até o limite do insuportável e colocado no Alto da Lapa, tornou-se o que é: uma pilha de caixas.

A premiação do projeto não surpreende. O que surpreende é o argumento do “diferente”, como se isto bastasse para mudar o fato simples e óbvio de que — mesmo que os espaços sejam interessantes, os apartamentos bem resolvidos e o uso do lote original — para o resto da cidade trata-se, afinal, de uma pilha de caixas.

A ausência deste óbvio nos comentários ao projeto pode revelar coisas interessantes a respeito da crítica de arquitetura atual. Para mim, revela que a crítica de arquitetura subiu no telhado — ou, neste caso, no caixote.

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Mais imagens do projeto, aqui.

O espírito da coisa

itaguassu
Se essa imagem pudesse ser cheirada…

A verdade é que esta cidade não produz nada. As pessoas vêm para cá, divertem-se, consomem, produzem lixo e esgoto e vão embora — ou permanecem, para continuar fazendo essas coisas pelo tempo que seu apreço por este lugar perdurar. Tudo se resume a isso. Quase todas as pessoas que aqui vivem dedicam-se a tornar esse processo cada vez mais fácil: quanto mais pessoas vierem, maior será o faturamento, maior será a prosperidade superficial que nada devolve de positivo para o arquipélago. A verdade é que este lugar estaria melhor sem nós, sem o turismo, sem ruas rasgando-lhe o tecido, sem construções que demandam desmatamento, sem o esgoto que polui o solo e as águas, sem ocupações ordenadas ou desordenadas, sem a pressão sobre os limites de áreas preservadas e frágeis.

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Arquitetura e mau humor

casa costeira
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— O bom arquiteto é aquele que ao menos vislumbra a possibilidade de não construir. Ainda que ele sempre conclua que é melhor construir — por razões que não vêm ao caso discutir agora —, ajuda muito se ele considerar a opção contrária. Explicações a seguir.

— O provérbio alemão diz: “Cala-te ou diz qualquer coisa melhor que o silêncio”. Analogamente, em arquitetura é interessante que haja sempre a chance de não construir se a obra ou projeto não se mostram melhores do que a área que se pretende modificar. Se sua arquitetura não é capaz de tornar o lugar melhor, por que construir?

— A qualidade da arquitetura deve ser avaliada com base não apenas naquilo que ela é — porque um quarto sempre será melhor do que o relento para quem o habita —, mas também naquilo que ela propõe, modifica e ocupa. Um lugar nunca será o mesmo depois que recebeu uma nova casa; ela o modifica tanto quando é influenciada por ele.

— Com base no que foi dito até agora, não é heresia alguma dizer que a Casa Kaufmann (vulga Casa da Cascata) é uma obra de gosto duvidoso, beirando o cafona. É preciso ser muito cafona para olhar uma cachoeira e concluir que ela ficará melhor com algumas lajes de concreto e umas colunas de pedra. Alguém aí tem uma foto da cascata sem a Casa da Cascata?

— Uma casa deve tornar o entorno melhor e não apenas tornar-se melhor por causa dele. Apesar disso, o umbiguismo de arquitetos e engenheiros não leva em consideração o impacto de suas obras na paisagem; via de regra, toda casa com vista para o mar exige que o mar tenha vista para ela, na expressão muito precisa de um amigo atento aos micos construídos na cidade em que vivo.

— Séculos se passaram e boa parte da arquitetura continua se resumindo em fincar bandeiras e marcar territórios. Pode não ser um problema se pensarmos em lugares tenebrosos, como certos recantos da Grande São Paulo (à parte a discussão sobre os fatores que os tornaram tenebrosos), mas vendo isto começo a pensar que nem todos lugares precisam de bandeiras, construções ou gente.