Por que praticar Aikido?

aikido
Não, não serve apenas para manter o marido na linha.

A vida não é feita de respostas prontas, mas de perguntas fundamentais e sérias que nos colocam num caminho ou que nos afastam definitivamente dele. O que todos buscam é a Verdade e o Bem. A possibilidade de obter estes valores em sua própria vida está mais ligada às perguntas do que às respostas. No entanto, a determinação na busca por respostas evita que você se perca na névoa densa das perguntas.

Praticar Aikido é uma das formas mais interessantes de se expor a perguntas profundas e fundamentais e dedicar-se seriamente à busca de respostas. A simplicidade e a sinceridade de um ataque direto e a necessidade de se defender com rapidez e eficiência não deixam espaço para respostas ambíguas ou hesitantes. Você não pode parar para pensar, não pode ter dúvidas do que vai fazer e raramente pode evitar a situação que foi colocada diante de você. No Aikido, você não precisa ter uma resposta definitiva, basta que ela seja válida, basta que você encare com sinceridade e determinação a questão que lhe foi proposta.

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O que é o Aikido?

aikido shioda
Não se preocupe. O cara vai levantar e continuar atacando o mestre, com total segurança para ambos. (link da imagem)

Perguntam-me com alguma freqüência o que é o Aikido. Esta foi uma das melhores explicações que encontrei.

“Aikidô é uma arte marcial com uma proposta diferente. No tatami, não há perdedores nem vencedores.”

Sobre a violência

Numa entrevista em um programa de TV, um mestre de artes marciais recebeu a seguinte pergunta: “o que você faria se um bandido lhe ameaçasse com um rev?lver e tentasse lhe tomar sua carteira?”. O mestre pensou por uns instantes na pergunta, olhou para o entrevistador e respondeu: “Bem, eu a entregaria”. O entrevistador não conseguiu esconder sua decepção, logo pulando para a pergunta seguinte. Decerto esperava ele uma descrição frenética de alguma técnica marcial devastadora.

O episódio, que já deve ter acontecido mais vezes com mestres de artes marciais, revela ignorância em relação ao que são as artes marciais e o que é a violência, sobretudo a urbana, que nos influencia diretamente.

Artes marciais são caminhos espirituais. Por caminho espiritual quero dizer caminho de vida e a vida deve ser compreendida de maneira ampla e completa. Um caminho espiritual compreende, desta forma, corpo, mente e espírito, preferencialmente conjugados e equilibrados. A ausência dessa explicação permite que se pense num caminho espiritual como algo místico, algo que praticamente inexiste na maioria das artes marciais. Caminho espiritual significa que a prática conduz à elevação espiritual e que ela inclui, necessária e inevitavelmente, o desenvolvimento do corpo e da mente. Não existe, portanto, arte marcial genuína sem aperfeiçoamento corporal e mental.

Desenvolver corpo, mente e espírito é o objetivo de toda arte marcial, mas não o único, pois este objetivo é por demais individual. Outro objetivo das artes marciais é tornar o mundo melhor. À parte o idealismo que isso possa representar, também este objetivo é conseguido através da prática, em que pessoas diferentes se reúnem num espaço usualmente bastante despojado, vestem-se com roupas simples e discretas e praticam silenciosamente o mesmo exercício de lapidação do corpo, da mente e do espírito. Diferentemente da maioria das religiões, essas pessoas não são convidadas a cantar, a rezar ou a estudar textos sagrados, mas a treinar técnicas marciais e a interagir umas com as outras com sinceridade e respeito. Em japonês, este lugar chama-se dojo (pronuncia-se dojô). A interação é uma das principais maneiras de se aperfeiçoar o corpo, a mente e o espírito, e parte do pressuposto de que só a vida em sociedade é digna de ser vivida. É neste ponto em que podemos começar a falar da violência.

O mestre de artes marciais que tem sua caminhada interrompida por um assaltante com arma em punho não vê outra alternativa senão a de entregar seu dinheiro. Várias artes marciais ensinam técnicas eficientes para defesa em diversas situações; algumas podem ser usadas num assalto, seja para dominar o assaltante, seja para matá-lo. Poucas ensinam que não se deve arriscar a vida num assalto. Poucas ensinam que não se deve arriscar um bem divino por causa de um bem material, mostrando, desta forma, qual a verdadeira ordem das coisas.

Diante de uma situação de violência, várias atitudes podem ser tomadas. Uma delas é o contra-ataque, que invariavelmente aumenta o grau de violência da situação pois coloca as duas pessoas em combate franco, aberto e, em geral, sangrento. Quase sempre uma das duas sairá ferida ou morta. Outra opção é a defesa inconsciente e instintiva, que também pode causar ferimentos ou morte. A defesa inconsciente pressupõe consciência em relação à própria integridade, mas dispensa o defensor de considerações maiores sobre a integridade do atacante. Uma terceira opção é a defesa consciente, aquela em que o defensor evita um ataque sem recorrer ao uso de violência, sem causar danos ao atacante. É uma forma mais eficaz e mais difícil de defesa.

Enquanto as duas primeiras formas alimentam a violência ao reproduzi-la (seja na forma de ataque ou de defesa), a terceira forma de defesa busca eliminá-la desde sua origem. A defesa consciente recusa-se a falar o mesmo idioma do atacante, evitando não apenas o ataque, mas também a defesa que possa levar às mesma conseqüências de um ataque. A diferença entre a terceira forma de defesa e as duas formas anteriores não se resume apenas às técnicas que cada defensor usará, mas inclui a consideração das causas do ataque e das conseqüências da defesa.

Alguns podem argumentar que é impossível ponderar numa situação de violência. Para isso o praticante de artes marciais treina, desenvolve corpo e mente para poder responder um ataque com eficiência, rapidez e civilidade.

Há, no entanto, uma quarta forma de defesa. É aquela que se antecipa ao ataque e não dá espaço nem razões para que ele aconteça. É a forma mais difícil de defesa, pois pressupõe uma percepção apurada, não apenas do ambiente e das pessoas, mas das situações que dão origem à violência.

Isto dito, não surpreende que a violência urbana seja comum em muitas cidades brasileiras. A violência é a confluência de fatores diversos: ambiente, falta de cultura e de bases morais, presença de vítimas potenciais e indisponibilidade de meios para defesa, disponibilidade de meios para o ataque, ineficiência dos instrumentos oficiais de coibição e punição a criminosos etc. A violência nasce por uma razão muito pessoal — é o indivíduo que decide se atacará ou não outra pessoa — e espalha-se por razões sociais — pela cultura de violência que impregnou um grupo, presença de armas, pela ausência de meios de defesa, pela falta de policiamento e pela Justiça ineficaz. Perceber estes fatores e o modo como eles interagem entre si é necessário para se antecipar a um ataque, prevendo as condições em que ele poderá acontecer e, desta forma, evitando até mesmo a intenção violenta do agressor ou criminoso.

Esta quarta forma de defesa, ideal e perfeita, implica tirar do agressor ou do criminoso sua vontade de agredir ou de cometer um crime. Em termos ainda mais utópicos, isso significaria transformar a sociedade definitiva e profundamente, impregnando-a de bons exemplos e de boas ações. Claro que não há como causar essas transformações senão iniciando-as em nós mesmos.

Mesmo assim, as principais dificuldades dessa quarta opção residem no fato de que muitas pessoas justas, decentes e respeitáveis são vítimas de violência. Este fato deixa dúvidas quanto à importância de se polir o caráter, de se tornar uma pessoa justa e de se desenvolver para evitar praticar a violência e outros atos que nós censuraríamos em outras pessoas. A ética cristã — “tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós” — raramente sobrevive ao exame humano, invariavelmente superficial e egoísta. Se os bons recebem como recompensa a mesma violência que vitima os maus, por que ser bom? Por que polir o caráter? Por que tratar outras pessoas com justiça e respeito? Por que se educar, estudar, aprimorar-se constantemente e evitar a reprodução da violência? Movidos por estas perguntas, pessoas que não têm caráter saem às ruas cometendo crimes e pessoas que têm algum buscam meios irracionais de defesa, tornam-se neuróticas.

Mas é por excesso de humanidade que a violência se forma. Não se pode falar em humanidade sem pensar em imperfeição e incompletude. A violência é, antes, uma forma abominável de arrogância, um modo que uma pessoa agressiva escolhe para expressar aquilo que deseja ou pensa. Disto, uma forma de eliminar a violência é perceber qualquer traço de arrogância dentro de si mesmo, revestir-se de humildade e transformar-se em aprendiz.

Por esta razão compreende-se a verdadeira vocação das artes marciais. Não o ensino de técnicas de defesa e do espírito combativo, mas o ensino da humildade, da bondade e do respeito. Todo estudante de artes marciais compreende desde cedo que a violência num dojo é inútil e inaceitável. Com o tempo ele percebe que o que se pratica no dojo não é diferente do que se vive diariamente fora dele. O espaço é diferente, as roupas e as pessoas são diferentes, mas a arte marcial lhe diz, às vezes metaforicamente, às vezes diretamente, aquilo que ele deve aprender como pessoa e qual deve ser sua atitude para com outras pessoas.

A violência é um fenômeno bastante complexo para ser compreendido e solucionado rapidamente. Lidar com ela pressupõe recusar a linguagem do mal e falar a linguagem do bem. Pressupõe, em outras palavras, dispensar a agressividade, o rancor e o ódio, e ao mesmo tempo ter caráter, humildade e respeito pelas outras pessoas, mesmo um criminoso. Diante de um crime, um homem de bem não recorre à violência, mas à justiça, que pressupõe que o criminoso seja punido e a vítima seja compensada, sem pusilanimidade e sem espírito vingativo.

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Escrito originalmente em 1º de maio de 2005.

Terapia marcial

“Os milenares ensinamentos do ninjutsu podem ser aplicados ao dia-a-dia para se ter mais qualidade de vida”.

Ah, a qualidade de vida… Quando leio essas coisas ainda me surpreendo pelo fato das artes marciais não terem sido formalmente incluídas nos cursos de Terapia Ocupacional.

Lamentavelmente, as artes marciais modernas podem ser resumidas assim: existem as competitivas e existem as terapêuticas. Que no passado elas tenham servido para matar, não altera em nada sua situação atual.

Sobre as competitivas não pretendo me pronunciar. Questão de higiene.

Sobre as terapêuticas, duas ou três palavras.

Pratico Aikido há alguns anos. Iniciei meu treinamento porque queria me aproximar dos conceitos difundidos pela arte. As idéias de não-violência, de harmonia e de aproveitar a força do oponente, embora ambíguas aos olhos mais atentos, me pareciam muito interessantes num mundo inclinado em direção oposta.

Ao longo destes anos percebi que eu não poderia obter nada com a prática do Aikido. E, assim, não fazia sentido algum falar em melhorar a qualidade de vida através do treinamento. É claro que obtive algumas coisas com o Aikido; provavelmente não criei uma barriga ridícula até hoje porque transpirei muito sobre o tatame. Mas quando digo que não obtive nada, quero dizer algo como “Ganhar é sofrimento, perder é iluminação?”. E só treina verdadeiramente uma arte marcial quem percebe que o ego, a satisfação pessoal, a qualidade de vida são despojos dos quais temos que nos livrar, são cascas se comparados com a profundidade do caminho espiritual. Buda não se tornou um andarilho para se sentir bem. Lao Tsé não compôs os versos do Tao Te King para melhorar a autoconfiança do leitor chinês. Morihei Ueshiba não criou o Aikido com objetivos ginásticos.

A quem sobe no tatame com o objetivo de melhorar sua qualidade de vida, uma dica: vá jogar bola com a rapaziada. É melhor para você — que aprenderá mais sobre como gerenciar pessoas e tornar-se um executivo de sucesso — e, principalmente, é melhor para a arte.

Se arte marcial fosse terapia, a psicanálise teria nascido na China ou no Japão feudal, não no divã do Dr. Freud, na Áustria.