Música para o domingo

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cello

Violoncelo

Mischa Maisky interpreta a Suite para violoncelo nº 1, BWV 1007, de Bach. Pense em violoncelo e invariavelmente esta música virá à cabeça.

Uma inusitada versão para violoncelo do Capricho nº 24, de Paganini, originalmente composto para violino. A partir da metade do vídeo, o solista está visivelmente esgotado…

Rodrigo é mais conhecido pelo Concierto de Aranjuez, para violão e orquestra. Aqui você pode ver e ouvir um trecho de seu quase desconhecido Concerto para violoncelo, com Julian Lloyd Webber como solista. O espírito alvissareiro deste concerto é muito parecido com o do Concierto de Aranjuez.

Quase burocraticamente obrigatório no repertório do instrumento, o concerto para violoncelo de Elgar (aquele da “Pompa e Circunstância”), com a interpretação majestosa de Jacqueline Du Pré.

A sonata para violoncelo e piano de Beethoven (não consegui identificar qual delas) é interpretada aqui por Leonard Rose e ninguém menos que Glenn Gould ao piano. O violoncelo é correto. O piano, bem…, vejam e tirem suas próprias conclusões. Gould é o rei dos trejeitos.

Dois mestres interpretam o primeiro movimento da sonata nº5 para violoncelo e piano de Beethoven — Richter e Rostropovich.

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Bonus:

Cello Song, de Nick Drake, não é propriamente uma música para violoncelo, mas o instrumento está lá, adicionando doçura e substância à poesia e à voz sussurrada do genial anglo-birmanês.

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Música para o domingo

Semana passada não teve Música para o domingo. Não neste site. Espero que na sua casa tenha havido — domingo ou todos os dias.

Hoje tem.

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Concertos para piano de Bach

bach glenn gould

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Mateus 10,34

– É possível que este site fique chato daqui para frente. Eu decidi me dedicar ao Cristianismo. Não sei quando nem como, apenas sei que isso acontecerá. Voltei de minha viagem com uma edição de bolso do Novo Testamento e com Confissões, de Santo Agostinho, e por enquanto estudo estes dois livros. Muitas pessoas consideram o o Cristianismo chato porque você não pode ser cristão e ligar seriamente para a qualidade da pasta, para o que um petista diz ou para a última rodada do brasileirão. Em outras palavras, é possível que as coisas aqui fiquem chatas não porque esses assuntos menores desaparacerão, mas porque talvez eu não consiga mentir ao tentar dar a eles uma atenção que eles não merecem.

– Aliás, eu começo a entender os críticos da Bíblia — o que está longe de justificar-lhes alguma coisa; esta iniciativa tem que vir deles. O problema, todo ele, é que essas pessoas lêem a Bíblia e imaginam a complexa estrutura da Igreja diante delas: igrejas, padres e pastores, bispos, hóstias, batinas, cânticos e corais, hierarquias, missas, sermões etc. Estas coisas se baseiam na Bíblia, não o contrário. Além disso, as lições ali contidas são simples e, embora possam ser encaradas como algo gigantesco demais para uma simples ovelha, são coisas que o Pai diz para o filho. E assim elas devem ser recebidas: como dizem os zen-budistas, de “xícara vazia”. Pense nos grupos, nas seitas e nos templos se você sentir uma necessidade muito grande de se sociabilizar. Até lá, estude. Depois disso, continue estudando. Se você é um ateu incurável, ao menos siga o conselho de Pascal: conheça aquilo que pretende criticar ou negar.

– Nesta semana que fiquei distante de casa, vi — juro que vi — pixado num muro do Butantã: “Fuck USA”. Oh, yes. Noutras palavras: “eu uso o idioma daquele país, reproduzo o tipo de rebeldia típico de grupos nova-iorquinos, uso tintas e grafias em formatos inventados por norte-americanos e eu provavelmente uso os tênis daquela marca norte-americana, mas, enfim, fuck USA“. Porca miséria.

– Estive no cinema duas vezes, com minha namorada. Na primeira vimos A vida secreta das palavras, um dos filmes mais tristes e sutis dos últimos tempos. Depois vimos Lady Vingança, que é cruel e sanguinolento. Os dois merecem ser vistos. Mas não no mesmo dia, como eu e minha namorada fizemos. Filme bom é para saborear.

– Meu irmão me presenteou com a obra completa de J.S. Bach. São ao todo cinco DVDs com arquivos em MP3. Ele conseguiu os arquivos num desses programas P2P (tipo Kazaa, eMule etc.). Olavo de Carvalho disse uma vez que toda a música popular brasileira não chega aos pés de um compasso de qualquer obra de Bach. E é claro que ele não estava exagerando.

– Vi numa revista uma retrospectiva de Oscar Niemeyer. O arquiteto completa o centenário este ano — ainda vivo e ativo, isto é, falando bobagens e fazendo a mesma arquitetura que fazia antes de Brasília. A julgar pela idade, pela panfletagem pró-comunismo (suficientemente imbecil para fazer totalmente grátis um projeto de um monumento ao chavismo) e pela persistência nas esculturas inventadas seis décadas atrás, conclui-se que Niemeyer parou no tempo. Eis a receita para a longevidade: aferrar-se a um tempo e só sair dele quando nada nem ninguém lhe der mais qualquer tipo de atenção. Como fóssil vivo, o arquiteto comunista cumpre bem seu papel. Se ele fosse apenas arquiteto, apenas comunista ou apenas ancião, já teria virado pó. E depois dizem que ser conservador não é bom: Niemeyer prova que até quem conserva porcarias acaba sendo bem-sucedido.

– A literatura é uma prova de que a esquizofrenia pode ser rentável e divertida. Talvez não seja esta a justificativa para todos os livros, mas é a causa original de todos os escritores. Somos uns esquizofrênicos. Eu anotei mais algumas coisas a respeito disso; mais adiante talvez eu me estenda a respeito disso. Ou não. Vai saber.

A cura para todos os males

A cura para todos os males do espírito está em ouvir Bach. Quinze minutos diários são suficientes; basta apenas que a audição seja atenta, livre de interferências. Tenha à mão a integral das cantatas (224 ao todo; um bom começo é este site), a obra para violoncelo (Pablo Casals, Yo-Yo Ma, Mstislav Rostropovich) e para violino (Yehudi Menuhin, Gidon Kramer). Desnecessário mencionar as Paixões (de São João e de São Mateus) e a obra para teclado, que deve incluir as versões de Glenn Gould para as Variações Goldberg e para os concertos para cravo (transcritos para o piano). Tendo à disposição esse repertório mínimo, ouça-o diariamente, com atenção. Um bom headphone é útil, embora cause algum desconforto; prefira instalar-se num cômodo silencioso e fresco e ouça Bach. Se você é do tipo que não faz a menor idéia do que é música erudita, esvazie a xícara e seja bem-vindo ou mantenha essas mãos sujas longe do gênio de Eisenach. E é sempre saudável procurar saber do que tratam a Paixão Segundo São Mateus e a Paixão Segundo São João ao ouvir estas jóias, o que será apenas o começo.

A cura para todos os males do corpo está no yoga clássico, tal como praticado e transmitido por Bellur Krishnamachar Sundararaja Iyengar (ou simplesmente B. K. S. Iyengar). Um bom começo é ler Light on Yoga, sem o afobamento de ir direto aos asanas. Leia com calma, dedique tempo suficiente à leitura dos preceitos e ao aprendizado dos oito estágios do yoga, que demonstrarão que os asanas são apenas uma parte do que o yoga é e que outras partes incluem alimentação e respiração. Ter à mão o Bhagavad Gita também é bom. A orientação de um guru é importante  (e esqueça o significado que o ocidente deu à palavra guru). Trinta minutos por dia são suficientes, embora uma hora dedicada à prática do yoga seja o ideal. O caminho do budo também deve ser aqui mencionado; sempre adequado lembrar que ele, como o yoga, vai além dos assuntos do corpo.

A cura para todos os males da mente está na leitura da obra de Olavo de Carvalho. Passe direto pelos artigos, vá às apostilas e aos livros, onde o filósofo dispõe do tempo e do espaço necessários ao que realmente interessa. Comece com Educação Liberal. Siga adiante com Inteligência e Verdade e O Abandono dos Ideais. São estes, de longe, os três melhores escritos. É claro que a cura para todos os males da mente não se reduz à leitura de um único autor. O que quero dizer ao sugerir a leitura de um único autor é que esta leitura conduz a outras leituras. É inevitável ser conduzido, a partir daí, a Aristóteles, Confúcio, Tomás de Aquino, Mortimer Adler, Ortega y Gasset, Mário Ferreira dos Santos, apenas para citar alguns autores que merecem ser conhecidos. Aqui, novamente, trinta minutos por dia são suficientes, mas o ideal inclui uma ou duas horas diárias de estudo. E quem sente nojinho só de ouvir o nome de Olavo de Carvalho sem ao menos ter lido O Jardim das Aflições (as esquerdas e mais uma patota que não merece ser nomeada neste site) é ruim da cabeça, para ficar naquele mínimo necessário à preservação do bom-tom deste post.