Resumo

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— Retorno, finalmente.

— A rotina a dois experimentada durante as festas pode não ser o test-drive ideal para o futuro casamento — porque nenhuma rotina inclui preguiça e diversão ininterruptas —, mas que foi excelente, foi. Em verdade, poucas coisas poderiam ter sido melhores. Ela estava comigo.

— Apesar da boa companhia, sair da rotina não é tão bom quanto estar nela. Decerto trata-se de uma dificuldade muito minha, a de lidar com a alteridade. Começo o novo ano fazendo exatamente as mesmas coisas que fazia quando o ano passado se encerrou. Felizmente.

— Cidades grandes podem ser um bom lugar para viver, a despeito das maldições que já lancei contra elas. Condição necessária para isso é encontrar um modo de vida que dispense todas as atividades, hábitos e posses que nos expõem a esses problemas. Por exemplo, viver perto do trabalho permite andar a pé, que permitirá apreciar o lugar em que se vive e notar suas vantagens e desvantagens. Quem vive dentro de um carro obviamente não tem olhos para a cidade.

— De forma análoga, pouco adianta viver numa cidade pequena e manter exatamente os mesmos hábitos de uma cidade grande — incluindo o carro, a ignorância (i.e. o hábito de ignorar o que há ao redor) e o vício frenético do consumo. Turistas não compreendem isso, claro, e são a fonte de inspiração para quase todas as coisas ruins que afetam as cidades pequenas.

— Digo estas coisas porque ainda não fixei raízes onde quer que seja. Passo meus dias numa cidade grande, em caráter provisório. Olho com certa nostalgia e interesse as cidades pequenas, mas sei que a realidade desses lugares é menos deslumbrante do que parece. No fundo, sei que o problema maior é a brasilidade e que a qualidade de um lugar depende da capacidade que seus habitantes de levar uma vida positivamente alienada — isto é, com olhos voltados ao que realmente importa, àquilo que está ao redor, não nos telejornais.

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Ilhabela sem Ilhabela

pequea ilhabela

Na faculdade, um de meus professores dizia que o Rio de Janeiro era uma cidade muito feia instalada num lugar muito bonito — era e continua sendo. Desconfiei que isso pudesse valer para outras cidades. A partir daí comecei a submeter todas as cidades que eu visitava à frase de meu professor. Este exercício não é simples; você deve olhar um lugar e tentar imaginar como ele seria sem as construções, sem as casas e ruas, até mesmo sem as pessoas. Quando é possível ver esse lugar de um ponto afastado, o exercício fica fácil. Por exemplo, se você observar a cidade de Santos a partir de um de seus morros ou da orla da praia, poderá visualizar a ampla curva da baía e imaginar o manguezal que existia antes que se erguesse aquele mar de prédios. É também este o caso de São Paulo quando vista do pico do Jaraguá ou do edifício Itália. Você visualizará os rios e córregos, os espigões e as curvas da topografia acidentada, alguns morros e, naturalmente, todas as alterações realizadas para que a cidade fosse construída.

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Teses

astronaut

— “Prefiro que vocês morram a perder meu emprego” é a frase que resume todos os problemas ambientais que surgiram até hoje.

— Não apenas acredito em alienígenas como acho que eles viveram aqui antes de nós. Este mundo só pode ser de segunda mão.

— Acredite: as grandes cidades são assim porque deram certo.

— Coleta seletiva, essa incompreendida: o melhor benefício da coleta seletiva não é a reciclagem, mas a possibilidade de devolver para os fabricantes o lixo que eles produziram.

— O segredo da indústria automobilística está no êxito em cristalizar a idéia de que carros são bens duráveis e, no entanto, fabricá-los como artigos totalmente descartáveis.

— Lembre-se: seus avós viviam com muito menos. E, mesmo que já estejam descansando em paz, mesmo que você dure 200 anos, terão vivido mais do que você.

Place to be

serra minas gerais
link da imagem

Passar alguns dias numa pequena cidade da região serrana de Minas Gerais é o que algumas pessoas chamariam de “choque de realidade”. A expressão não é adequada porque pressupõe que a vida nas cidades grandes não é real ou é “menos real” (descontada a imprecisão desta expressão) do que aquela que pode ser vivida em cidades pequenas. Por mais presa ao mundo dos negócios, por mais escravizada pelo medo e pelos congestionamentos que uma pessoa esteja, ela vive — e não me ocorre nada mais real do que pressa, trânsito, assaltos, multidões, prazos, carreiras e ônibus lotados.

Apesar disso, existe algo na realidade daquela pequena cidade mineira que a torna especial diante da realidade monocromática de algumas cidades grandes. A comparação não é totalmente injusta; basta olhar para as pessoas, não para o tamanho das avenidas. Duas cidades irremediavelmente diferentes assemelham-se naquilo que têm de mais simples e essencial: pessoas. Basta olhar para elas e para si mesmo e perceber o comportamento, as expressões do rosto, a respiração e, talvez, os pensamentos em cada um desses ambientes. Acordar com barulhos de bois, com as araucárias ao vento, com a luz fria e acolhedora das manhãs — tudo isso é naturalmente bom, mas melhor é perceber cada uma dessas coisas em si mesmo e nas outras pessoas.

O que torna um lugar especial é justamente a forma como ele estabelece uma ligação com aquilo que realmente está vivo no indivíduo — e que quase sempre permanece escondido ou entorpecido. Cidades grandes demais são lugares ruins porque quase tudo obriga as pessoas a usar armaduras e a andar como se estivessem num campo de guerra. Em lugares assim, as pessoas mais atentas são capazes de ouvir o espírito da cidade sussurrar “saia logo daí” cada vez que dobram uma esquina ou sobe num ônibus.

Vivos todos somos. Sentir essa vida ao redor e expressá-la pelos poros como eco daquilo que foi sentido e absorvido não são coisas que acontecem sempre. São momentos especiais, vividos em lugares especiais, que deixam dúvidas sobre nossa trajetória até hoje e daqui para diante.

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O título do post é o mesmo de uma música de Nick Drake, cuja letra pode ser lida aqui. Não costumo pensar em trilha sonora quando e para o que escrevo, mas “Place to be” soa bem a qualquer momento, inclusive agora.