Gita

Existe a idéia solidificada de que todas as ações afirmam algo — e que elas devem afirmar algo. É possível não afirmar nada? Talvez não seja. A respiração é a reafirmação constante da própria vida e do desejo de viver. Atenhamo-nos então às afirmações mais essenciais, mais elementares, mais necessárias.

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A lição definitiva do exercício de conscientização é dissolver a consciência, porque conscientizar-se profundamente significa perceber que não há o que perceber, que não há o agente e o objeto da percepção. Perguntar sobre métodos para tornar-se mais consciente é a reação mental típica, a armadilha de Jñana, que em muitos casos conduz ao fracasso. Sua utilidade está em cansar a mente a um ponto tal que ela pare de fazer perguntas, pare de querer saber, pare de tentar controlar e perceba verdadeiramente.

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A razão nos coloca nesta ou naquela direção e há diferenças entre lançar-se de um penhasco e caminhar com segurança numa praça. Naquilo que é elementar é bom dar ouvidos ao que a razão diz — débil e claudicante, mas nos economiza o tempo de reinventar rodas. Mas e depois? Como se escolhe uma direção quando se está parado em silêncio e repouso? Como e por que escolher uma direção quando não há bifurcações ou quando elas só existem na mente?

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Politicamente atrofiados

urna eletrônica
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Apesar da massa comum que disputa as eleições a cada dois anos — gente como eu ou você, ou um pouco menos —, é comum também a idéia de que o sistema político é complexo, insondável e incompreensível. Até hoje eu não sei de quê são feitas as leis, de onde elas vêm, do que se alimentam, e raramente encontro quem possa me explicar todas essas coisas. Eu vejo o noticiário político e imediatamente me vêm à cabeça todas as profecias sobre o surgimento do Anticristo, que, afinal, não é uma pessoa, mas um sistema, uma massa ou um labirinto. O nome desse labirinto é política. Candidaturas são a expressão do desejo de encontrar a saída desse labirinto e depois cobrar ingressos para que outras pessoas possam refazer o caminho dentro dele. O voto é uma espécie de aposta que se faz na capacidade daquele sujeito encontrar a saída do labirinto, mesmo quando ele está visivelmente mais perdido do que todos nós.

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Janelas abertas

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A ignorância é uma janela aberta. Quem tem consciência da chuva forte ou do barulho irritante que há lá fora não deixa a janela aberta; doutra forma a chuva molharia e espalharia papéis pela sala, ou o barulho atrapalharia o trabalho e o estudo.

Mas às vezes a tempestade e a gritaria vêm de dentro e, ao mesmo tempo em que elas nos impedem de ir à janela para fechá-la, nos afastam do estudo e do trabalho. E logo a culpa será atirada não apenas sobre a chuva e o barulho, mas sobre todos aqueles que estão ao redor, mesmo os que tentam mostrar a janela aberta ou que, mais do que isso, tentam fechá-la.

Nesta metáfora podem ser percebidos dois tipos de ignorância: a do preguiçoso, que por simples inércia é incapaz de evitar aquilo que lhe puxa para o fundo; e a do imbecil, que à ignorância preguiçosa soma a cegueira, que o torna incapaz de ver a origem de sua própria miséria e que o faz acusar outrem por crimes que na verdade são seus. É evidente que o imbecil é pior do que o preguiçoso: para este, bastam alguns empurrões; para aquele muitos sopapos não bastam.

Eu já tentei mostrar janelas abertas a algumas pessoas — porque outras pessoas têm feito o mesmo por mim desde que nasci, mas não apenas por isso. Ultimamente tenho recebido em troca a surpreendente afirmação de que fui eu que deixei a janela aberta e a proibição de fechá-la. É ainda mais surpreendente perceber que essas pessoas não acreditam em Deus e na Verdade e que é exatamente por ter algum senso moral-filosófico-religioso que me mantenho — ainda, a duras custas — perto delas.