O Natal venceu

nativity

É preciso ser muito míope para ver como mera expressão de consumismo rasteiro toda a movimentação das semanas que antecedem o Natal.

Aos olhos dos detratores do Cristianismo — ateus, na maioria, porque qualquer pessoa com uma dose mínima de de religiosidade não perde tempo com acusações tolas — o Natal é apenas uma festa de consumo. As luzes que enfeitam ruas, casas e edifícios não passam de meios de ampliar as vendas de vários tipos de quinquilharias chinesas. A correria nas lojas e nos mercados são arrogância burguesa, que não liga a mínima para a massa de miseráveis que mal consegue comprar um panetone de padaria. A febre de consumo leva algumas pessoas a gastar num bibelô dinheiro suficiente para a ceia de uma família inteira. Papai Noel é uma mentira sádica. Etc.

O que essas pessoas não conseguem ocultar é o fato simples de que as luzes quase sempre são um desejo sincero de tornar os lugares mais luminosos e belos. A maioria das pessoas não compra presentes para si, mas para pais, filhos e outros parentes próximos, além de amigos. Pode-se até dizer que a maioria dá presentes para “praticar a generosidade”, para causar boa impressão e conquistar a aprovação e a gratidão de outrem, mas mesmo que isso seja uma manifestação egocêntrica e pouco espontânea, ela não esconde o fato simples de que algo bom está sendo oferecido sem que, na maioria dos casos, haja expectativas realmente sérias e censuráveis de que haja um retorno. Histórias infantis e mentiras não são a mesma coisa; logo, Papai Noel está desculpado.

O que não se pode ocultar é que, afinal, o Natal venceu. Certamente ainda estamos distantes do ideal cristão — expresso, por exemplo, no Sermão da Montanha; todo o espírito do Cristianismo está contido nele; o Natal deveria ser uma celebração do nascimento e também da mensagem de Jesus. Mesmo assim, mesmo com pessoas imperfeitas e que “confundem o dedo com a Lua”, é inspirador que todos anos, num mundo cada vez mais confuso e caótico, as pessoas ainda encontrem tempo, disposição e recursos para se reunir com parentes e amigos ao redor de um presépio, de uma árvore iluminada, de uma mesa cuidadosamente organizada e celebrem, ainda que de forma discreta, aquele que trouxe Luz Divina ao mundo.

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Neste Natal, que sejamos dignos de celebrar o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo e que sua luz continue nos iluminando e nos indicando os melhores caminhos.

Natal é uma data para agradecer e retribuir. O maior presente de todos já nos foi dado mais de dois mil anos atrás.

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A todos vocês, um Feliz Natal e um Ano Novo próspero, com dias cada vez melhores.

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Evangelho e Cultura

eric voegelin

Transcrição de uma conferência de Eric Voegelin, em PDF, disponível para download.

    A Comissão Directiva honrou-me com o convite de proferir uma conferência acerca de “Evangelho e Cultura”. Se bem compreendi a intenção dos membros da comissão queriam escutar o que um filósofo tem para dizer acerca da dificuldade do Verbo em se fazer ouvir no nosso tempo e, se ouvido, tornar-se inteligível para aqueles que o querem escutar. Por que seria o evangelho vitorioso nas circunstâncias helenistico-romanas da sua origem? Por que atraiu uma élite intelectual que elaborou o significado do Evangelho em termos de filosofia e, deste modo, criou uma doutrina Cristã? Por que pôde esta tornar-se religião do Império Romano? Como pôde a Igreja, atravessado este processo de aculturação, sobreviver ao Império Romano e tornar-se a crisálida, da civilização Ocidental, como lhe chamou Toynbee ? E o que ofuscou esta força cultural triunfante, de modo a que, hoje, as igrejas estão na defensiva contra os movimentos intelectuais dominantes do nosso tempo e abaladas por uma crescente inquietação no seu interior?

Este e outros ebooks, na respectiva seção deste site.

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Proselitismo ateu

richard dawkins
Fiat bardus.

«Proselitismo», sobretudo nas religiões cristãs, é definido como

«…nome dado à busca ativa de uma religião por novos fiéis. Em sua origem grega, o termo designava a adesão de pagãos ao judaísmo, mas esse sentido primeiro foi perdido há muito tempo. Hoje, “proselitismo” é usado com conotação negativa, para descrever a suposta agressividade de uma religião (concorrente) em converter novos seguidores.»

(Definição encontrada aqui)

A maioria dos ateus usa o proselitismo como argumento para demonstrar o viés autoritário das religiões. Argumentar desta forma não é como julgar um livro pela capa. Pode-se dizer muitas coisas sobre um livro a partir de sua capa. O proselitismo explica algo sobre a religião que a pratica na medida em que o observador efetivamente oferece alguma atenção a ele. Não tem sido este o caso.

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Linux para cristãos

christian ubuntu

Esse pessoal que mexe com Linux leva a personalização do sistema operacional às últimas conseqüências:

Ubuntu Christian Edition (also referred to as Ubuntu CE) is a distribution designed for Christians. The first version of Ubuntu Christian Edition was announced on 24 July 2006.[1] Ubuntu Christian Edition features fully integrated web content parental controls powered by DansGuardian, as well as a graphical tool to adjust the parental control settings specifically developed for Ubuntu Christian Edition, and includes several popular Bible Study Programs such as GnomeSword. (link)

Mais aqui.

Primeiro Mandamento

A dificuldade que o ascetismo representa para quem decide seguir seriamente o Cristianismo é compensada por sua simplicidade. O ascetismo cristão é simples de compreender e, portanto, simples de realizar. Ele pode ser resumido no Primeiro Mandamento: “amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento” (Mt 22:37). Deste mandamento decorrem os demais e os principais pilares da doutrina cristã, tais como enunciados, por exemplo, por Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino. A caridade, uma das virtudes cardeais para os cristãos, nada mais é do que ter a consciência de que todos somos filhos de Deus, perceber a origem comum de todas as pessoas, percebê-las como irmãs e agir conforme essas percepções. A raiz da doutrina social de Jesus está em seu teísmo e esta doutrina tem uma série de desdobramentos morais, espirituais e filosóficos. Continuar lendo

Mateus 10,34

– É possível que este site fique chato daqui para frente. Eu decidi me dedicar ao Cristianismo. Não sei quando nem como, apenas sei que isso acontecerá. Voltei de minha viagem com uma edição de bolso do Novo Testamento e com Confissões, de Santo Agostinho, e por enquanto estudo estes dois livros. Muitas pessoas consideram o o Cristianismo chato porque você não pode ser cristão e ligar seriamente para a qualidade da pasta, para o que um petista diz ou para a última rodada do brasileirão. Em outras palavras, é possível que as coisas aqui fiquem chatas não porque esses assuntos menores desaparacerão, mas porque talvez eu não consiga mentir ao tentar dar a eles uma atenção que eles não merecem.

– Aliás, eu começo a entender os críticos da Bíblia — o que está longe de justificar-lhes alguma coisa; esta iniciativa tem que vir deles. O problema, todo ele, é que essas pessoas lêem a Bíblia e imaginam a complexa estrutura da Igreja diante delas: igrejas, padres e pastores, bispos, hóstias, batinas, cânticos e corais, hierarquias, missas, sermões etc. Estas coisas se baseiam na Bíblia, não o contrário. Além disso, as lições ali contidas são simples e, embora possam ser encaradas como algo gigantesco demais para uma simples ovelha, são coisas que o Pai diz para o filho. E assim elas devem ser recebidas: como dizem os zen-budistas, de “xícara vazia”. Pense nos grupos, nas seitas e nos templos se você sentir uma necessidade muito grande de se sociabilizar. Até lá, estude. Depois disso, continue estudando. Se você é um ateu incurável, ao menos siga o conselho de Pascal: conheça aquilo que pretende criticar ou negar.

– Nesta semana que fiquei distante de casa, vi — juro que vi — pixado num muro do Butantã: “Fuck USA”. Oh, yes. Noutras palavras: “eu uso o idioma daquele país, reproduzo o tipo de rebeldia típico de grupos nova-iorquinos, uso tintas e grafias em formatos inventados por norte-americanos e eu provavelmente uso os tênis daquela marca norte-americana, mas, enfim, fuck USA“. Porca miséria.

– Estive no cinema duas vezes, com minha namorada. Na primeira vimos A vida secreta das palavras, um dos filmes mais tristes e sutis dos últimos tempos. Depois vimos Lady Vingança, que é cruel e sanguinolento. Os dois merecem ser vistos. Mas não no mesmo dia, como eu e minha namorada fizemos. Filme bom é para saborear.

– Meu irmão me presenteou com a obra completa de J.S. Bach. São ao todo cinco DVDs com arquivos em MP3. Ele conseguiu os arquivos num desses programas P2P (tipo Kazaa, eMule etc.). Olavo de Carvalho disse uma vez que toda a música popular brasileira não chega aos pés de um compasso de qualquer obra de Bach. E é claro que ele não estava exagerando.

– Vi numa revista uma retrospectiva de Oscar Niemeyer. O arquiteto completa o centenário este ano — ainda vivo e ativo, isto é, falando bobagens e fazendo a mesma arquitetura que fazia antes de Brasília. A julgar pela idade, pela panfletagem pró-comunismo (suficientemente imbecil para fazer totalmente grátis um projeto de um monumento ao chavismo) e pela persistência nas esculturas inventadas seis décadas atrás, conclui-se que Niemeyer parou no tempo. Eis a receita para a longevidade: aferrar-se a um tempo e só sair dele quando nada nem ninguém lhe der mais qualquer tipo de atenção. Como fóssil vivo, o arquiteto comunista cumpre bem seu papel. Se ele fosse apenas arquiteto, apenas comunista ou apenas ancião, já teria virado pó. E depois dizem que ser conservador não é bom: Niemeyer prova que até quem conserva porcarias acaba sendo bem-sucedido.

– A literatura é uma prova de que a esquizofrenia pode ser rentável e divertida. Talvez não seja esta a justificativa para todos os livros, mas é a causa original de todos os escritores. Somos uns esquizofrênicos. Eu anotei mais algumas coisas a respeito disso; mais adiante talvez eu me estenda a respeito disso. Ou não. Vai saber.