Neti neti

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Não discuto nunca. Regra de civilidade. Isto não significa abdicar da verdade e de sua defesa. Isto significa apenas não discutir. Na maioria dos casos em que a discussão parece tornar-se necessária, ela não vale a pena e, mesmo que seja iniciada e vencida, fica sempre a sensação de que a Verdade não veio à tona, não foi observada, tampouco absorvida. Simplesmente não valeu a pena e nunca valerá. Não há nada que se possa fazer para alterar a velocidade da passagem do tempo — ou “A Verdade é filha do…”.

Mesmo que se trate de mentiras ou de verdades muito simples — “você não disse que entregaria o projeto hoje?”, “você tem falado com aquela vagabunda?” ou “nunca antes na história destepaiz” — a discussão não trará nenhum benefício genuíno, a verdade permanecerá esquecida e toda a interação girará em torno daquilo que foi dito, passando a léguas de distância dos fatos, daquilo que as pessoas realmente sabem que a verdade é e se sustentará na capacidade demoníaca que elas têm de mentir para si mesmas. É preocupante notar a incapacidade crescente de fazer confissões para si mesmo.

Eu sou a única pessoa com quem me permito discutir. É uma triste exceção para uma regra que não deveria permitir nenhuma, porque no fundo não há diferença entre discutir comigo ou com outra pessoa. A discussão não traz a Verdade à tona, seja quem for seu interlocutor. Discussões são jogos de palavras. Como tais, sua utilidade máxima é cansar a mente e levá-la a um ponto em que não seja mais capaz de protagonizar o que quer que seja. É um processo semelhante ao de algumas artes marciais: o esgotamento físico total leva o corpo a manifestar energias ocultas e a mostrar que, afinal, a verdadeira força não está nos músculos, assim como a Verdade, afinal, não está nas palavras.

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Update: “neti neti” é expressão que vem do sânscrito e que significa algo como “não isto, não aquilo”. Seu objetivo é mostrar ao indivíduo que a Verdade não é aquilo que ele vê, ouve, sente ou pensa. Naturalmente, todas as coisas palpáveis, assim como todo o mundo material, correspondem em alguma medida a uma categoria específica de realidade — aquela que inclui contas para pagar, salada para o almoço e o descanso no fim do dia. Mas a Verdade não é isto e não é aquilo. Neti neti.

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Discutindo e andando

dogs arguing

O problema de discutir é que é possível encontrar bons argumentos para praticamente qualquer coisa. Isto significa que numa discussão uma avaliação honesta dependerá de fatores muito elásticos. Por exemplo, se você estiver empapado de suor, sob calor de 40°, dificilmente terá a serenidade para discorrer sobre as benesses dos dias de verão — e dificilmente perceberá que isso não prova nada contra o calor ou a favor dele.

Pode-se falar bem ou mal sobre os dias de verão, o consumo de carne, a cor azul, as gravatas-borboleta, as religiões, a música de câmara e os jornais impressos — mas poucos argumentos serão capazes de superar o gosto e encerrar a discussão de uma maneira agradável para todos os interlocutores e observadores. Todas essas coisas podem ser avaliadas segundo critérios técnicos e até mesmo o gosto pode ser compreendido desta forma, com a ajuda de pesquisa científicas, equações e tabelas, mas o que encerra um assunto é algo de cujo desconhecimento nos orgulhamos — nossa própria vontade, nosso próprio desejo. Um bolo pode ser nutritivo e bem feito, mas o escolhemos porque ele satisfaz, porque é gostoso e bonito, porque enche a boca, os olhos e a barriga.

É possível, no entanto, conduzir certas discussões de uma forma menos subjetiva — e essa possibilidade torna-se necessidade à medida que o assunto diz respeito a um número cada vez maior de pessoas. Quando nos despojamos de critérios subjetivos demais, lembramos que as discussões são feitas mais de opiniões do que de observações, mais de idéias do que de fatos.

Questionado sobre a validade de seus milagres, Jesus não respondia com teorias ou doutrinas. Ele apenas dizia: “olha e vê o que fiz” (Lc 7:20-23).

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Como pensam os imbecis

Um trecho de um diálogo que tentei manter com uma pessoa recentemente. Não o publico aqui pelo que diz sobre o tópico em si (aborto), que já foi discutido em outros artigos neste site, mas por ilustrar rica e ao mesmo tempo brevemente como pensam os imbecis. Eles pensam, sim; apenas não têm consciência nem controle sobre isso. É daí que surgem estas pérolas:

— Eu preferia mil vezes ser abortado do que [sic] ser um filho indesejado.
— Suponhamos então que sua mãe não o queira mais. Tudo bem se você for “abortado” agora?
— Agora é muito tarde. Por isso tem que haver uma escolha em tempo hábil. Esta escolha muda toda a vida de uma família. Se uma mulher não abortar e dedicar um ano de sua vida ao filho ela vai achar que fez bem em não abortar.
— E se ela abortar, como ela vai saber se fez bem ou se fez mal?
— Uma decisão tem que ser tomada de acordo com o momento.
— Depois desta, sem mais perguntas. De todas as bobagens que você disse desde o início deste tópico, esta foi a maior.

Sem meio termo

bigorna

Hoje, ser genial significa não conceder, não discutir, não permitir meios-termos. Você é ou não é. Você diz ou não diz. Você pensa e faz ou você não pensa e não faz. Que isso seja visto como uma espécie de arrogância por aqueles que só descem do muro para encontrar o melhor ângulo para ver — à distância — o circo pegar fogo, é apenas um sintoma da nulidade mental que se tornou regra nesta parte do hemisfério.

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Eu sempre imaginei que a arrogância fosse o desvio moral mais dependente da observação alheia. Aquele sujeito é arrogante na medida em que você se sente diminuído e injustiçado diante dele. Você se sente diminuído e injustiçado diante dele? Que pena. Experimente estufar o peito, olhar o mundo sobre um banquinho ou fazer musculação. Talvez estas coisas ajudem.

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Na dúvida, não discuta. É melhor e mais higiênico. Se o interlocutor não é capaz de compreender argumentos simples e diretos e algumas referências — sim, ofereça-os — diga que tem um compromisso inadiável (dormir, por exemplo) e encerre o quase-diálogo. Eu aqui, você aí. Paz e silêncio, duas preciosidades.

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Bom mesmo, como dizia Ortega y Gasset, é colocar as coisas de uma forma que permita ao sujeito encontrar a verdade por si mesmo — como quem anda no escuro e dá uma topada numa bigorna. Ele merece.