Politicamente atrofiados

urna eletrônica
(link da imagem)

Apesar da massa comum que disputa as eleições a cada dois anos — gente como eu ou você, ou um pouco menos —, é comum também a idéia de que o sistema político é complexo, insondável e incompreensível. Até hoje eu não sei de quê são feitas as leis, de onde elas vêm, do que se alimentam, e raramente encontro quem possa me explicar todas essas coisas. Eu vejo o noticiário político e imediatamente me vêm à cabeça todas as profecias sobre o surgimento do Anticristo, que, afinal, não é uma pessoa, mas um sistema, uma massa ou um labirinto. O nome desse labirinto é política. Candidaturas são a expressão do desejo de encontrar a saída desse labirinto e depois cobrar ingressos para que outras pessoas possam refazer o caminho dentro dele. O voto é uma espécie de aposta que se faz na capacidade daquele sujeito encontrar a saída do labirinto, mesmo quando ele está visivelmente mais perdido do que todos nós.

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Depois das eleições

storm sailing boat
Tempestade à frente? Só o futuro dirá. (link da imagem)

Se as eleições revelam até onde as pessoas estão dispostas a ir para realçar as diferenças, as semanas que as sucedem trazem-nas de volta à realidade: este arquipélago é um só. Isto significa que não há diferenças importantes, mesmo que os partidos e seus líderes digam o contrário.

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O bife do churrasco eleitoral

berrante
Chamando para a festa da democracia. (link da imagem)

Eu emburreço em ano eleitoral. Na verdade eu emburreço um pouco todos os anos, sinto-me cada vez mais idiota, incompetente e inútil. Vejamos: ando numa praia e vejo um sujeito passeando com seu delicado pitbull; peço a ele para deixar o cão em casa e obtenho como resposta uma palavra tão delicada quanto o animal de coleira; informo as autoridades competentes sobre o fato e obtenho como resposta um silêncio constrangedor; informo a mim mesmo sobre a inutilidade dos meus pedidos e obtenho como resposta do subconsciente o imperativo “desista, não é tão sério assim”. Processo semelhante ocorre quando vejo praias sujas, o trânsito cada vez mais maluco e infestado de imbecis, a indiferença conveniente de muitos veranistas e a boçalidade que predomina nos debates do lado de cá do Canal de São Sebastião. As etapas e os processos são os mesmos e todos me dizem que não existe problema sério ou importante demais que mereça os vincos da minha testa. Afinal, se tantas pessoas ignoram o que é errado, talvez o erro não seja assim tão sério.

Ano eleitoral é um caso à parte. Continuar lendo

Carro de som para prefeito

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carro de som
Isto sim é que é carro de som bão.

Tento descobrir a lógica oculta sob carros de som, muros pintados e panfletos que emporcalham as ruas. O esforço é vão, porque essa lógica é semelhante àquela outra, não menos misteriosa, que leva algumas pessoas a estourar fogos de artifícios quando um navio se vai, a abrir o porta-malas de um carro para que todos ouçam o som que vem dali e a acelerar forte uma moto barata de escapamento aberto em plena madrugada. É a lógica da melancia no pescoço, que diz que a melhor forma de conseguir algo que se deseja é fazer barulho, chamar a atenção, mostrar-se mesmo que de formas ridículas.

Se essa lógica se mostra impenetrável em meses normais — porque eu acho que nunca vou entender motociclistas e fogueteiros —, no período eleitoral ela ganha alguns flancos a partir dos quais seria possível (eis minha esperança) compreendê-la, expugná-la e bani-la deste arquipélago.

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Uma guinada de 360 graus

transferidor

Ouço ao longe um sujeito discursar numa convenção partidária em minha cidade. Ele fala que é necessário dar uma guinada de 360 graus na condução dos interesses públicos (ele usa outra expressão, que eu fiz o favor de esquecer) e raramente consegue concordar sujeito com o verbo. É candidato a vereador.

Mesmo que eu suponha que ele está fingindo ignorância — porque os semelhantes se atraem e é necessário conquistar pelo menos os votos das pessoas que participavam da convenção —, lembro que a fala é sempre uma extensão daquilo que há dentro do indivíduo. Se ele fala errado por ignorância, estamos diante de um candidato ignorante. Se ele fala errado por fingimento, estamos diante de um candidato fingido. Nos dois casos nós… bem, você já sabe.

As coisas ficam um pouco mais sérias quando percebo que quase todos os candidatos falam errado e que ninguém percebeu o problema da “guinada de 360 graus”, o que me leva a crer que o que ouvi não era exceção, mas regra.

Socorro.

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Imagem obtida aqui.