Insular

insularAlguns leitores deste site não sabem que eu costuma publicar escritos num blog chamado Insular. Há cerca de dois anos eu percebi que os assuntos particulares de minha cidade poderiam não interessar aos leitores deste site, e vice-versa. Daí criei o Insular e o Gropius tomou a forma que tem hoje. Se aqui os assuntos são diversos, lá limito-me aos assuntos que têm relação com a cidade em que vivo — o que naturalmente nunca implicou limites severos.

Com freqüência convido os três leitores do Insular a visitar este site. Hoje inverto o convite.

Os textos do Insular continuam pertencendo a uma realidade muito específica, mas este post, que é um apelo, não. Não pretendo que os leitores do Gropius atendam ao apelo — como gostaria que os leitores do Insular fizessem —; convido-os a ir até lá e ler o que escrevi como uma sugestão de que vocês façam o mesmo em seus respectivos bairros ou cidades.

Tive a idéia há algumas semanas. A certeza de que seria adequado propagá-la veio com a seguinte frase:

“O futuro deste país depende de que o número de observadores atentos cresça antes que a transmutação se complete invisivelmente.”

Sugiro fortemente a leitura atenta e repetida da entrevista de Bruno Tolentino à revista Veja — como sugeri recentemente. Se houver alguma dúvida quanto ao teor do que escrevi no Insular, talvez elas se dissipem com essa leitura.

A todos, muito obrigado.

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Estudo e higiene

água bambu

Deveríamos ter com o estudo a atitude que os iogues têm com os asanas. O iogue faz uma higiente completa antes da prática dos asanas. Ele jejua, urina, defeca, lava-se e então pratica os asanas, que são parte de um ritual de purificação que termina com meditação e pranayama.

Desde a escola existe a idéia de que o estudo é aquilo que nos permite chegar a algum ponto. No começo o estudo é um propósito em si mesmo: estuda-se uma disciplina porque ela é pré-requisito para estudar uma outra disciplina. Depois que uma década de estudos nos permitiu chegar à universidade, estuda-se para adquirir um bom emprego (fama e dinheiro são conseqüências disso). Quando adquirimos um bom emprego, estudamos para mantê-lo ou para conseguir um outro, melhor do que o atual.

Não há problema em tomar o estudo como uma ferramenta. O problema é tomá-lo apenas e sempre como uma ferramenta, reduzindo o estudo a algo que permitirá ao sujeito “vencer num mercado globalizado e cada vez mais competitivo”. Para estas situações, higiene, respeito e mistério.

O estudo é para poucos. As pessoas não querem educação e cultura. Elas querem dinheiro e conforto. Elas querem os benefícios que a educação e a cultura podem trazer — e tanto melhor para elas se estes benefícios dispensarem a alta cultura e uma vida inteira de estudos.

É muito fácil, por exemplo, ler Aristóteles e escrever uma tese a seu respeito. Difícil é submeter-se ao crivo e às lições do Estagirita. A filosofia é usada hoje como tema de livros de auto-ajuda, mas raro é quem a utilize a sério, realizando uma higiene completa antes de manuseá-la, respeitando o legado de seus principais representantes e encarando seu mistério fundamental.

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Preocupo-me, é claro, quando vejo a ignorância predominar, quando vejo o mundo ser conduzido por pessoas menos capazes do que eu. Contudo, já não vejo razões para brigar por isso. Pode-se discutir por justiça; com as palavras corretas a idéia de justiça pode ser compreendida por qualquer um. Desde que haja liberdade e desde que ela seja exercida com responsabilidade, não há razões para brigar. Tenho repetido a mim mesmo o seguinte conselho: deixe as pessoas em paz e vá estudar. Idéias não merecem briga, merecem estudo e trabalho.

Mesmo que venha a ruína total, mesmo que o céu se incendeie, eu penso que estas coisas acontecerão porque a maioria das pessoas assim as quis. Elas tiveram liberdade para escolher essa direção. E mesmo que eu sofra à revelia, é sempre bom ter fé e lembrar as palavras do Mestre: “O cavalheiro não permite que seus pensamentos devaneiem além do seu cargo” (Os Analectos, XIV.26)

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O sábio sabe fazer-se compreender, sabe defender suas idéias sem brigar, sabe demontrar os erros alheios. Como? Ele não toma seu ego como parâmetro. Ele sabe que sua vida desaparecerá em poucos anos. Ele será lembrado por ter agido com sabedoria e justiça, não por ter sido A ou B.

Por isso é bom deixar as contendas de lado, principalmente se o que está em jogo são apenas idéias; desenvolver a rara habilidade de dizer coisas neutras (porque em geral quem lê busca confirmar algo que já está cristalizado na própria alma); evitar as armadilhas do gosto (mas não se esquecer de que gosto se discute); rir-se das máfias ideológicas (porque elas merecem pouco além de chacota); e, sobretudo, recolher-se em meditação e estudo, todos os dias. “Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial” (Mt 5:48)

Sutil metamorfose

Por falar em criatividade, por que a maioria das pessoas prefere entreter-se a estudar?

Esqueça o estudo tal como ele foi construído ao longo de sua infância e adolescência — escolas ensinam a odiar o estudo — e pense em como pode ser prazeroso aprender, i.e., modificar-se, crescer interiormente, colocar-se diante de um Aristóteles, um Thoreau, e perceber que é possível entendê-los e aproximar-se deles. Não que o aprendizado deva ser sempre prazeroso e tão divertido quanto um episódio de “Os Simpsons”, mas é justamente através do estudo que será possível depois aprender com coisas medíocres, divertir-se com o conhecimento puro, manter-se lúcido quando anúncios de TV tentam impregnar seus olhos e, afinal, viver melhor.

Gosto, aliás, se discute.

Brasil, um país de tolos

Ontem vi uma propaganda do Governo Federal que mostrava um rapaz que saltitava mais do que uma gazela. Ele estava feliz por ter conseguido uma vaga numa universidade. Depois de muita locução bem-feitinha aparece a mensagem no rodapé: Democratização do Ensino Universitário.

Democratizar é o mesmo que popularizar, facilitar o acesso à universidade através do afrouxamento dos pré-requisitos. O mais lógico seria oferecer ensino fundamental e médio de qualidade e deixar que o estudante se vire depois disso. As universidades não precisam de democratização, elas precisam de elitização. Um dos objetivos da universidade é justamente esse: “garantir a conservação e o progresso nos diversos ramos do conhecimento, pelo ensino e pela pesquisa” (Aurélio). Universidade é, por definição e desde seus primórdios, o lugar da elite intelectual e científica de um país. No Brasil, o Governo Federal pretende transformá-lo em centro de reciclagem para fracassados.

Através da Democratização do Ensino Universitário o Governo Federal conseguirá três coisas: criar uma legião de desempregados com diploma, pois o mercado já não dá conta de absorver os profissionais que se formam todos os anos; minguar a qualidade do corpo discente das universidades; e empurrar para os cursos de mestrado e doutorado a tarefa ingrata de produzir profissionais qualificados.

A proposta de democratização do ensino universitário parece ainda mais estúpida quando lembramos que as pessoas mais bem-sucedidas deste país (pense em três ou quatro, aleatoriamente) não têm diploma e nem pensam em ter um.