Porque é bom

Para ser bom não basta querer ser bom. É necessário querer ser melhor, percebendo sua própria insuficiência. Não é necessário tratar a si próprio como se fosse um imprestável; basta perceber que você ainda não chegou lá e que estar lá é bom.

Você pode achar que chegou lá. Você pode satisfazer-se momentaneamente com aquilo que diz, pensa e faz, mas só momentaneamente, porque no minuto seguinte você precisa despertar e perceber as próprias imperfeições, pegar novamente na marreta e voltar a quebrar pedras.

Obviamente os referenciais precisam ser bons — perfeitos, se possível. E nem é preciso perder tempo discutindo perfeição blablabla, porque num mundo que tem soap operas, motocicletas pá-pá-pá e requeijão em copos de plástico não é muito difícil saber o que é perfeito e o que não é.

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Lemas

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sabedoria

— Encontrar algo que lhe faça bem e que lhe proporcione prazer, que faça bem às outras pessoas e que você possa e queira fazer por toda a vida.

— Pensar em qualquer coisa, desde que a mente saiba quem manda em quem. Falar apenas coisas boas. Pensar é filosofia, meditação e autoconhecimento. Falar é sociabilizar-se, interagir, conquistar, compartilhar e oferecer.

— Não é necessário começar pelo corpo, desde que se reconheça sempre e em tudo que se faz a dimensão física presente em todas as coisas. “De dentro vem o que por fora se revela” (Lao Tzu).

— Prazer é um indicador, não a base de um código moral. Quando uma pessoa defende as benesses do hedonismo, tente descobrir nela as seqüelas de uma vida de excessos — invariavelmente você as encontrará.

— Não há problemas em não estudar. Nem todos precisam entender de filosofia ou geopolítica. O problema está em não evoluir. O problema está em não conhecer um pouco mais a própria natureza a cada dia e não se reconhecer hoje como alguém menos burro do que ontem. Para isso honestidade e a consciência das vantagens de evoluir — isto é, a certeza de que ser bom é bom e de que você está longe de ser suficientemente bom.

— A sabedoria se expressa de diversas formas. Mas há muito mais formas pelas quais ela se cala.

Lições de vida, lições divinas

buddha

Dar significado à vida não é uma opção. Você não escolhe conferir-lhe significado ou não. Ela terá significado e ele será bom ou ruim conforme aquilo que você pensa e faz de sua própria vida. O homem sábio não tem dúvidas sobre isso e não vive em meio período; não se é sábio pela metade, a sabedoria não permite hora-vaga. Esqueça, portanto, as férias, viva integralmente — o que é diferente de mas tão importante quanto viver com integridade –, seja intransigente consigo mesmo, seja pleno, não tolere seus próprio erros. Não seja genial pela metade. Não se preocupe, acima de tudo, com a possibilidade de sua genialidade enfadar as pessoas ao redor — sua mediocridade as enfada muito mais, você é que não percebe isso.

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Escolhas

Daqui para onde?

Agora, neste exato momento, você tem pelo menos duas opções diante de si. Você pode continuar lendo este texto ou pode levantar-se para fazer qualquer outra coisa. Enquanto eu o escrevia, eu poderia ter levantado da cadeira para esganar a primeira pessoa que passasse na calçada — mas preferi concluir o raciocínio que sobreveio à mente (é possível que você ache que a primeira opção fosse mais frutífera, mas isso é outra história). Eu poderia ter rasgado o caderno em que anotei estas linhas ou poderia ter feito aviões de papel com suas folhas. Poderia ter saído correndo ou poderia ter deitado no chão para meditar profundamente sobre os eufemismos de que o mundo é feito.

Estes binômios podem ser resumidos da seguinte forma: subir ou descer; melhorar ou piorar; tornar-se uma pessoa de verdade ou reduzir-se àquela miséria que torna as lacraias mais dignas do que nós.

As duas opções são difíceis; as duas opções exigem coragem e energia; as duas têm custos e benefícios (por mais que vejamos a ruindade como opção fácil). O que realmente difere uma opção da outra é o que vem depois delas, que pode ser resumido com a seguinte pergunta: para onde você pode ir a partir do lugar em que você se encontra? Sinceridade ajuda nestas horas. Trata-se de uma pergunta que ninguém vai lhe fazer — a não ser você mesmo. Você não tem por que mentir.

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Sobre isto, Olavo de Carvalho diz, numa transcrição de um trecho de um de seus podcasts recentes:

“Conte para você mesmo a sua própria história honestamente. Este é o exame de consciência cristã, Você tem que fazer isto todos os dias, se você não faz. Pois, se você quer viver e crescer sem se revisar o tempo todo, você está se candidatando a uma neurose, pois você perdeu o fio da sinceridade, pois muitas coisas perto de nós nos impelem a mentir, a trapacear, a representar papéis às vezes por uma necessidade, para se mostrar o que não é. Daí vai se impregnando falsidade, um pouquinho aqui, um pouquinho ali, daí a pouco você não sabe mais quem é você. Por isso todo dia você tem que examinar e ver o que você fez e por que fez, e você tem que recuperar no meio dos vários papéis que você desempenhou a sua própria voz, para com a sua própria voz você poder falar com Deus.

“Segundo Santo Agostinho, a verdadeira sinceridade só é possível se você souber que você está perante um observador onisciente a quem você não pode enganar, porque se for apenas sinceridade para um, você acaba mentindo, pois você não pode falar a verdade para todos, afinal você usa uma linguagem diferente para falar com cada um. Logo, a gente não diz a verdade completa para nenhum deles, a gente só pode dizer a verdade completa em nosso próprio coração e para o próprio Deus. Afinal, Ele sabe a verdade. E este exercício deve ser diário.

“O que a Bíblia quer dizer com ‘caminhar diante de Deus’ é a pessoa estar o tempo todo dando para si mesmo o feedback do que ele fez, diante de um observador onisciente ao qual ele não pode enganar. Esta disciplina tem que ser algo de ferro, a gente não pode ceder nisto aí, é isto que mantém a sanidade humana. Não adianta você mentir para si mesmo, se você mente três vezes para si mesmo, seu Q.I. de 250 cai para 12,5. A inteligência é fruto da verdade.”

Sorte


Endereço original da foto, aqui

Todo mundo espera ser atingido por um raio.

As pessoas querem ter suas vida totalmente transformadas, nascer de novo, mudar para um lugar estrangeiro. No fundo, elas apreciam a rotina em que estão, mas ao mesmo tempo suspiram pela revolução irrealizada. É uma espécie de neurose, que está sempre a um passo da perda da noção de realidade. Sonhar é bom, sem dúvida, mas não quando vemos o sonho como alternativa à realidade.

É claro que essa revolução jamais se realizará. Transformações autênticas dependem do esforço individual e pessoal (por isso o magistério é uma profissão de fé). É muito mais manter-se em silêncio do que sair por aí gritando. É muito mais deixar passar do que entrar em conflito. É muito mais caminhar com direção e vontade do que sair correndo por aí — e tropeçando.

Você é a causa de sua má sorte.

2+2=37

Christian Rocha
27 de outubro de 2005

Estamos na era da criatividade. Pelo menos era isso que declarava um texto que li hoje de manhã. Corri para o computador e resolvi mergulhar de cabeça neste novo tempo: abri o PowerPoint e montei um daqueles PPS lindos, com imagens de anjos e frases espirituosas, escritas por mim mesmo. Uma delas: seja quem você é, não o que os outros querem que você seja. Quer outra? Você é único, assim como todo mundo. Mais uma? Só se esqueça de mim quando eu me esquecer de você, só assim vou saber que você nunca se esquecerá de mim. Terminada a minha obra de arte (o que significa o verbo obrar?), enviei o arquivo anexo (de 8,4Mb) para as 712 pessoas da minha lista de endereços e as ameacei dizendo que se o arquivo não fosse passado adiante em até 30 segundos, elas seriam acometidas por uma praga de brotoejas. Pronto. Sou criativo pacas. Já faço parte da era da criatividade. Um beijo no coração de vocês.

Pessoas que declaram — num artigo, numa entrevista, num programa de debates, numa conferência ou na revista Você S.A. — que “estamos na era da [substantivo abstrato e impactante]” não podem ser levadas a sério. Talvez elas não queiram ser levadas a sério porque já se levam a sério demais, tão a sério que sofrem de incontinência mental. Isso as leva a produzir aforismos inteligentes que pretendem reinventar a roda, melhorar o mundo e dar mais qualidade de vida às pessoas deste Brasilzão de meu deus.

(pausa para tomar um epocler)

Mas estas pessoas não são um problema. Elas se tornam um problema na medida em que influenciam outras pessoas e as fazem crer excessivamente em si mesmas. Excesso de autoconfiança também é um problema — todo criminoso, por exemplo, padece deste mal. Livrarias vivem abarrotadas de livros de auto-ajuda, tema que pode ser definido como “eu ajudo você a me ajudar e a ter a impressão de estar se ajudando ao comprar meus livros e ao dar atenção às minhas palavras” (pode-se ascender à ABL desta forma).

O satanismo, tal como o compreendo, pode ser visto nas seções de livros de auto-ajuda das livrarias: torne-se confiante, vença, você faz seus limites, siga em frente, não desista, lute pelos seus direitos. Você já sorriu hoje? E assim, fácil, fácil, a pessoa continuamente exposta a esses mantras torna-se um monstro de egoísmo e de impetuosidade. Dê-lhe uma alavanca e ela não apenas moverá o mundo, como também a quebrará na sua cabeça.

Mas nós, escritores, sabemos ser pessoas mais tristes do que os leitores se atreveriam a ser. No fundo, bem lá no fundo, todo escritor tem a esperança (argh) de que o mundo vai ser curado. E ter esperança é ser triste. Os crentes falam que Jesus voltará — outros mencionam Buda, os Anjos do Senhor (não se trata de uma banda gospel), a Energia Universal que tudo permeia, o Grande Sábio, o Walter Mercado ou os produtos da Polishop. Os não-crentes referem-se à bondade humana — e eles dizem que a prova disso é a existência de pessoas que se tornam vegetarianas porque não admitem comer um ‘semelhante’ e de entidades assistenciais em quantidade suficiente para tornar necessária a criação de entidades assistenciais que as assistam. Até Schopenhauer, filósofo, maníaco-depressivo e suicida fracassado, tinha esperança neste mundo. Ele criava poodles.

Eu não resisto a perguntar o que Jesus viria fazer aqui novamente — errare humanum est, persisitire idiotum est. E Walter Mercado deve estar muito bem em algum hotel de luxo que ele comprou com os dólares acumulados através do Ligue Djá. Também não resisto a perguntar se o vegetarianismo ideológico não passa de uma versão ecologicamente correta da credulidade mongolóide (como a daquela pessoa que quer morar na Vila do Chaves) e se o assistencialismo institucional não é parte dos problemas que ele pretende solucionar.

Com muita elegância, estilo e simpatia, gurus da auto-ajuda falam da importância de ser criativo, o que consiste em arriscar seus fundilhos, ler livros de auto-ajuda (se eles funcionassem, um bastaria) e em repetir para si mesmo aquela idéia surradíssima sobre o ideograma chinês para crise. Crise=risco+oportunidade, assim como 2+2=37; crise tem a mesma etimologia de criar, assim como 37 foi o número de passos que Buda deu antes de proferir o Sutra do Diamante (modernamente conhecido como Manifesto de H.Stern).

Pessoas um pouco mais inteligentes — mas não menos cretinas do que gurus da auto-ajuda — falam da importância de ser sábio, de desenvolver a serenidade, de ser um sujeito supimpa, querido por todos, enfim, aquela categoria de pessoa da qual se costuma ter pena e dizer “ah, mas ele é tão bonzinho…”.

Não gosto de imaginar que as coisas mais importantes da vida são ser e fazer. Elas me tornam ainda mais egocêntrico do que minha natureza me diz para ser — o que é um passo para ser criativo pacas, participar da próxima edição da Casa Cor e aparecer em colunas sociais. Prefiro ver. Fazer, apenas coisas discretas. Ser, apenas uma pessoa discreta. Trabalhar em silêncio, é tudo que quero. Não estou pedindo muito.