Julián Marías

julian marias

Faça algo que preste da sua vida.

Assista a esta palestra de Julián Mariás, gravada em 1997 na Argentina. Nela o mestre fala de filosofia — claro —, de sua vida e de sua obra. São cinco partes e o link acima é da primeira parte; as outras partes da palestra podem ser vistas nesta página.

Frase impagável no início da palestra, citando seu professor e amigo Ortega y Gasset: “No final do séc. XIX a filosofia teve um ataque passageiro de modéstia e quis ser uma ciência”.

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Porque é bom

Para ser bom não basta querer ser bom. É necessário querer ser melhor, percebendo sua própria insuficiência. Não é necessário tratar a si próprio como se fosse um imprestável; basta perceber que você ainda não chegou lá e que estar lá é bom.

Você pode achar que chegou lá. Você pode satisfazer-se momentaneamente com aquilo que diz, pensa e faz, mas só momentaneamente, porque no minuto seguinte você precisa despertar e perceber as próprias imperfeições, pegar novamente na marreta e voltar a quebrar pedras.

Obviamente os referenciais precisam ser bons — perfeitos, se possível. E nem é preciso perder tempo discutindo perfeição blablabla, porque num mundo que tem soap operas, motocicletas pá-pá-pá e requeijão em copos de plástico não é muito difícil saber o que é perfeito e o que não é.

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O espectro da consciência

ken wilber

O espectro da consciência, de Ken Wilber, adicionado à seção de ebooks deste site.

“Não existe uma ciência da alma sem uma base metafísica e sem remédios espirituais à disposição”. Poder-se-ia dizer que todo o propósito deste volume consiste simplesmente em apoiar e documentar esta proposição de Frithjof Schuon, proposição que os siddhas, sábios e mestres em toda parte e em todos os tempos incorporaram eloqüentemente. Pois, de um modo geral, nossa própria ciência da alma nos dias que correm foi reduzida a nada mais significativo que a resposta de ratos em labirintos de aprendizagem, o complexo individual de Édipo, ou o desenvolvimento no nível básico da raiz do ego, redução essa que não somente nos obliterou a visão das profundezas da alma, mas também ajudou a devastar nossos entendimentos espirituais tradicionais e levá-los a uma conformidade monótona com uma visão unidimensional do homem. O que está Acima foi negado; o que está Abaixo, ignorado — e solicitam-nos que permaneçamos — no meio — paralisados. Esperando ver, talvez, o que um rato faria nas mesmas circunstâncias ou, num nível um pouco mais profundo, buscando inspiração nas fezes do id.

Normalidade

Ter fé é diferente de ter esperança. Eu sou sujeito de pouca esperança e muita fé: fé em Nosso Senhor Jesus Cristo, fé nas lições dos mestres, no estudo, na disciplina, na Justiça (sobretudo a Divina). Ter esperanças é para quem perdeu a fé, para quem tem mais dúvidas do que certezas — e aqui eu não me refiro à filosofia, em que a dúvida ajuda no desenvolvimento intelectual.

Apesar disso, é na serena normalidade de um domingo qualquer que a fé pousa os pés no chão e permite-se mundanizar-se ao ponto de ter esperanças de que o mundo realmente seja bom. Um gato dorme sobre o muro; a brisa que refresca uma tarde quente; pássaros que tornam o silêncio mais aprazível; cães pulando nas pernas da gente; crianças fazendo pose; refeição familiar à mesa; frutos vermelhos colhidos à árvore; ter tempo e espaço para se exercitar e fazer outras coisas sem utilidade aparente ou imediata — e eu poderia listar muitas outras coisas que, num domingo normal, reafirmam a normalidade de um mundo cada vez mais anormal.

2+2=37

Christian Rocha
27 de outubro de 2005

Estamos na era da criatividade. Pelo menos era isso que declarava um texto que li hoje de manhã. Corri para o computador e resolvi mergulhar de cabeça neste novo tempo: abri o PowerPoint e montei um daqueles PPS lindos, com imagens de anjos e frases espirituosas, escritas por mim mesmo. Uma delas: seja quem você é, não o que os outros querem que você seja. Quer outra? Você é único, assim como todo mundo. Mais uma? Só se esqueça de mim quando eu me esquecer de você, só assim vou saber que você nunca se esquecerá de mim. Terminada a minha obra de arte (o que significa o verbo obrar?), enviei o arquivo anexo (de 8,4Mb) para as 712 pessoas da minha lista de endereços e as ameacei dizendo que se o arquivo não fosse passado adiante em até 30 segundos, elas seriam acometidas por uma praga de brotoejas. Pronto. Sou criativo pacas. Já faço parte da era da criatividade. Um beijo no coração de vocês.

Pessoas que declaram — num artigo, numa entrevista, num programa de debates, numa conferência ou na revista Você S.A. — que “estamos na era da [substantivo abstrato e impactante]” não podem ser levadas a sério. Talvez elas não queiram ser levadas a sério porque já se levam a sério demais, tão a sério que sofrem de incontinência mental. Isso as leva a produzir aforismos inteligentes que pretendem reinventar a roda, melhorar o mundo e dar mais qualidade de vida às pessoas deste Brasilzão de meu deus.

(pausa para tomar um epocler)

Mas estas pessoas não são um problema. Elas se tornam um problema na medida em que influenciam outras pessoas e as fazem crer excessivamente em si mesmas. Excesso de autoconfiança também é um problema — todo criminoso, por exemplo, padece deste mal. Livrarias vivem abarrotadas de livros de auto-ajuda, tema que pode ser definido como “eu ajudo você a me ajudar e a ter a impressão de estar se ajudando ao comprar meus livros e ao dar atenção às minhas palavras” (pode-se ascender à ABL desta forma).

O satanismo, tal como o compreendo, pode ser visto nas seções de livros de auto-ajuda das livrarias: torne-se confiante, vença, você faz seus limites, siga em frente, não desista, lute pelos seus direitos. Você já sorriu hoje? E assim, fácil, fácil, a pessoa continuamente exposta a esses mantras torna-se um monstro de egoísmo e de impetuosidade. Dê-lhe uma alavanca e ela não apenas moverá o mundo, como também a quebrará na sua cabeça.

Mas nós, escritores, sabemos ser pessoas mais tristes do que os leitores se atreveriam a ser. No fundo, bem lá no fundo, todo escritor tem a esperança (argh) de que o mundo vai ser curado. E ter esperança é ser triste. Os crentes falam que Jesus voltará — outros mencionam Buda, os Anjos do Senhor (não se trata de uma banda gospel), a Energia Universal que tudo permeia, o Grande Sábio, o Walter Mercado ou os produtos da Polishop. Os não-crentes referem-se à bondade humana — e eles dizem que a prova disso é a existência de pessoas que se tornam vegetarianas porque não admitem comer um ‘semelhante’ e de entidades assistenciais em quantidade suficiente para tornar necessária a criação de entidades assistenciais que as assistam. Até Schopenhauer, filósofo, maníaco-depressivo e suicida fracassado, tinha esperança neste mundo. Ele criava poodles.

Eu não resisto a perguntar o que Jesus viria fazer aqui novamente — errare humanum est, persisitire idiotum est. E Walter Mercado deve estar muito bem em algum hotel de luxo que ele comprou com os dólares acumulados através do Ligue Djá. Também não resisto a perguntar se o vegetarianismo ideológico não passa de uma versão ecologicamente correta da credulidade mongolóide (como a daquela pessoa que quer morar na Vila do Chaves) e se o assistencialismo institucional não é parte dos problemas que ele pretende solucionar.

Com muita elegância, estilo e simpatia, gurus da auto-ajuda falam da importância de ser criativo, o que consiste em arriscar seus fundilhos, ler livros de auto-ajuda (se eles funcionassem, um bastaria) e em repetir para si mesmo aquela idéia surradíssima sobre o ideograma chinês para crise. Crise=risco+oportunidade, assim como 2+2=37; crise tem a mesma etimologia de criar, assim como 37 foi o número de passos que Buda deu antes de proferir o Sutra do Diamante (modernamente conhecido como Manifesto de H.Stern).

Pessoas um pouco mais inteligentes — mas não menos cretinas do que gurus da auto-ajuda — falam da importância de ser sábio, de desenvolver a serenidade, de ser um sujeito supimpa, querido por todos, enfim, aquela categoria de pessoa da qual se costuma ter pena e dizer “ah, mas ele é tão bonzinho…”.

Não gosto de imaginar que as coisas mais importantes da vida são ser e fazer. Elas me tornam ainda mais egocêntrico do que minha natureza me diz para ser — o que é um passo para ser criativo pacas, participar da próxima edição da Casa Cor e aparecer em colunas sociais. Prefiro ver. Fazer, apenas coisas discretas. Ser, apenas uma pessoa discreta. Trabalhar em silêncio, é tudo que quero. Não estou pedindo muito.