Segovia e o chiado

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Quando eu estava na faculdade conheci um estudante de violão erudito. Eu já apreciava muito o instrumento e conversei com ele a respeito de intérpretes. Inevitavelmente a conversa chegou a Andrés Segovia.

Ele então comentou que já havia na atualidade (era a década de 90) intérpretes melhores do que Segovia. Fiquei surpreso. Para os meus ouvidos (eu nunca aprendi a tocar violão) não havia nada superior a Andrés Segovia — mestre que, inclusive, formara ou influenciara a maioria dos violonistas importantes desse fim de séc. XX, como Julian Bream, Eliot Fisk e John Williams.

Depois disso passei a ouvir com mais atenção o violão, tentando identificar diferenças nas interpretações das mesmas obras. O amigo violonista, é claro, tinha razão. Mas identifiquei também um dos motivos que tornaram Segovia único e absolutamente sensacional.

A carreira de Segovia desenvolveu-se no mesmo ritmo do desenvolvimento do vinil. A carreira de Segovia dificilmente teria acontecido sem o advento dessa tecnologia. Segovia surge para o mundo da música praticamente ao mesmo tempo que o gramofone começa a se popularizar. Sua primeira apresentação pública foi em 1909, aos 16 anos de idade. No final da década de 1910 o fonógrafo de cilindro começava a ser substituído pelo gramofone e pelos discos de vinil — uma revolução discreta se iniciava.

Mas o que a tecnologia tem a ver com a música em si? Segovia seria menos genial se tivesse surgido já na era das mídias digitais, como o CD e o MP3? Certamente não, mas Segovia tem algo que poucos têm: chiado. As gravações de Segovia estão impregnadas pelo chiado das gravações analógicas. Mesmo que você o ouça numa gravação em formato digital, com definição máxima de som altamente processado, você percebe as impurezas. Isto é o mesmo que dizer que as performances de Segovia — suas gravações — têm a marca do tempo a que pertencem. Você ouve Segovia tocando e automaticamente é transportado para alguma noite da década de 50, numa sala de móveis de mogno. Você quase pode vê-lo com seus dedos gordos e sua expressão de que aquilo é fácil demais, a tranqüilidade de um tio-avô fumando um charuto. E isso, para quem realmente aprecia música, faz toda a diferença. A boa música é precisamente aquela que traz o ouvinte para perto. O contrário também costuma ser verdadeiro.

Segovia morreu em 1987, quando o CD começava a se tornar popular. Embora a tecnologia digital de gravação de áudio já existisse antes disso, Segovia já havia entrado para a história da música com a ajuda do vinil. Inúmeros CDs foram lançados com suas interpretações depois de sua morte e hoje em dia é fácil encontrar arquivos digitais com suas performances, mas felizmente a conversão para os formatos digitais não tirou de Segovia um de seus melhores companheiros.

Ouça.

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