Realidade for dummies II

Encontro problemas toda vez que tento discutir um tema com alguém, sobretudo quando a discussão não é iniciada pessoalmente, mas filtrada pelas distâncias da Internet.

O principal problema que encontro é a total ausência de noção de como uma discussão deve funcionar. Refiro-me àquela dose mínima de racionalidade para que a discussão não apenas funcione e renda frutos para as pessoas envolvidas na discussão, mas também para que a discussão mereça este nome. Quando, por exemplo, você expõe um fato ou um argumento e a outra pessoa responde acusando você de grosseria ou arrogância, realmente não se trata de uma discussão, trata-se de um encontro casual entre duas entidades que não pertencem à mesma espécie.

Você mesmo, caro leitor, movido pela leitura de minha última frase acima, poderá pensar que um comentário desse tipo constitui grosseria pura e simples. Para que não pense assim, lembre-se dos atributos que costumam ser usados para definir o que é um ser humano: Continuar lendo

Anúncios

Um aviso e duas perguntas

forest bench

Retornarei depois do feriado, período em que dedicarei meu tempo à minha menina e à conclusão de meu mestrado — sobre isto, falarei no momento certo.

Por hora, tentem responder as questões abaixo, cujo cerne talvez seja objeto de posts futuros.

*
A fome ou a sede predispõem o indivíduo à eliminação da fome e da sede. Não existem indivíduos mais dispostos a receber água e comida do que o faminto e o sedento.

A ignorância, no entanto, não torna o indivíduo mais permeável à sabedoria; ela nem ao menos o leva a querer saber aquilo que ele não sabe. De um modo geral as pessoas se satisfazem com o pouco que sabem e o muito que ignoram; algumas chegam ao cúmulo de sentir orgulho dessa estreiteza. Em outras palavras: as pessoas que mais precisam de sabedoria, de inteligência e de conhecimento são aquelas que mais facilmente dispensam estas coisas. Estas pessoas não sabem que não sabem, não sabem que precisam saber e acreditam que já sabem tudo.

Vêm daí duas perguntas:

— Por que as pessoas são assim?

— É possível compartilhar conhecimento sem ser vítima do orgulho que as pessoas têm da própria ignorância?

(É claro que sei que parte dessas ponderações inclui a presunção de que o conhecimento é necessário para outrem, o que é algo bem parecido com ir à TV e dizer que você precisa de um novo secador de cabelos. Seja como for, eu aceito ser chamado de presunçoso desde que o leitor se disponha a demonstrar que o conhecimento pode não ser um bem necessário)

.
link da imagem

Uma guinada de 360 graus

transferidor

Ouço ao longe um sujeito discursar numa convenção partidária em minha cidade. Ele fala que é necessário dar uma guinada de 360 graus na condução dos interesses públicos (ele usa outra expressão, que eu fiz o favor de esquecer) e raramente consegue concordar sujeito com o verbo. É candidato a vereador.

Mesmo que eu suponha que ele está fingindo ignorância — porque os semelhantes se atraem e é necessário conquistar pelo menos os votos das pessoas que participavam da convenção —, lembro que a fala é sempre uma extensão daquilo que há dentro do indivíduo. Se ele fala errado por ignorância, estamos diante de um candidato ignorante. Se ele fala errado por fingimento, estamos diante de um candidato fingido. Nos dois casos nós… bem, você já sabe.

As coisas ficam um pouco mais sérias quando percebo que quase todos os candidatos falam errado e que ninguém percebeu o problema da “guinada de 360 graus”, o que me leva a crer que o que ouvi não era exceção, mas regra.

Socorro.

.
Imagem obtida aqui.

Malditos sejam os ignorantes

rodin thinker ignorant

O ignorante pode causar danos maiores do que um criminoso. O criminoso não diz que seu gesto é correto, ele não se afirma como modelo de moralidade e civilidade, ele simplesmente comete o crime e sabe que está sujeito às penas da lei e à força da Justiça. Talvez o ignorante não cometa crimes, mas tem o physique du rôle para cometer atrocidades muito maiores do que aquelas que ele mesmo repudia. Ele comete erros e aposta na própria retidão. Ele desrespeita as leis e vê nisso um modelo a ser seguido. Ele acha que ordem é falta de liberdade e, por isso, se acha oprimido. É o ignorante que afaga a cabeça do criminoso quando este está sendo justamente cobrado por seus atos. Se encararmos cada pessoa como um exemplo de conduta, não é difícil perceber que o lugar do ignorante é no fim da lista. Ele comete erros com a firme convicção de que está agindo certo e fazendo um bem para a sociedade, quando a realidade é exatamente o contrário disso.

Alguns exemplos podem deixar as coisas mais claras.

Continuar lendo

Janelas abertas

window

A ignorância é uma janela aberta. Quem tem consciência da chuva forte ou do barulho irritante que há lá fora não deixa a janela aberta; doutra forma a chuva molharia e espalharia papéis pela sala, ou o barulho atrapalharia o trabalho e o estudo.

Mas às vezes a tempestade e a gritaria vêm de dentro e, ao mesmo tempo em que elas nos impedem de ir à janela para fechá-la, nos afastam do estudo e do trabalho. E logo a culpa será atirada não apenas sobre a chuva e o barulho, mas sobre todos aqueles que estão ao redor, mesmo os que tentam mostrar a janela aberta ou que, mais do que isso, tentam fechá-la.

Nesta metáfora podem ser percebidos dois tipos de ignorância: a do preguiçoso, que por simples inércia é incapaz de evitar aquilo que lhe puxa para o fundo; e a do imbecil, que à ignorância preguiçosa soma a cegueira, que o torna incapaz de ver a origem de sua própria miséria e que o faz acusar outrem por crimes que na verdade são seus. É evidente que o imbecil é pior do que o preguiçoso: para este, bastam alguns empurrões; para aquele muitos sopapos não bastam.

Eu já tentei mostrar janelas abertas a algumas pessoas — porque outras pessoas têm feito o mesmo por mim desde que nasci, mas não apenas por isso. Ultimamente tenho recebido em troca a surpreendente afirmação de que fui eu que deixei a janela aberta e a proibição de fechá-la. É ainda mais surpreendente perceber que essas pessoas não acreditam em Deus e na Verdade e que é exatamente por ter algum senso moral-filosófico-religioso que me mantenho — ainda, a duras custas — perto delas.