Asneira da semana

oxymoron

Quando você sabe que algo vai acontecer não diz “isso provavelmente vai acontecer”, você diz apenas “isso vai acontecer”. Detentor de conhecimento, você demonstrará por A+B os motivos, fatos ou evidências que o levaram à certeza. Embora “provavelmente” signifique “acho que” ou “quase certo”, o “quase” é a linha que divide a conjectura da certeza científica.

Esqueceu disso a sra. Graziela Cupello, vice-presidente do Grupo Diversidade Niterói e autora das palavras reproduzidas a seguir:
Continuar lendo

Anúncios

Como pensam os imbecis

Um trecho de um diálogo que tentei manter com uma pessoa recentemente. Não o publico aqui pelo que diz sobre o tópico em si (aborto), que já foi discutido em outros artigos neste site, mas por ilustrar rica e ao mesmo tempo brevemente como pensam os imbecis. Eles pensam, sim; apenas não têm consciência nem controle sobre isso. É daí que surgem estas pérolas:

— Eu preferia mil vezes ser abortado do que [sic] ser um filho indesejado.
— Suponhamos então que sua mãe não o queira mais. Tudo bem se você for “abortado” agora?
— Agora é muito tarde. Por isso tem que haver uma escolha em tempo hábil. Esta escolha muda toda a vida de uma família. Se uma mulher não abortar e dedicar um ano de sua vida ao filho ela vai achar que fez bem em não abortar.
— E se ela abortar, como ela vai saber se fez bem ou se fez mal?
— Uma decisão tem que ser tomada de acordo com o momento.
— Depois desta, sem mais perguntas. De todas as bobagens que você disse desde o início deste tópico, esta foi a maior.

2+2=37

Christian Rocha
27 de outubro de 2005

Estamos na era da criatividade. Pelo menos era isso que declarava um texto que li hoje de manhã. Corri para o computador e resolvi mergulhar de cabeça neste novo tempo: abri o PowerPoint e montei um daqueles PPS lindos, com imagens de anjos e frases espirituosas, escritas por mim mesmo. Uma delas: seja quem você é, não o que os outros querem que você seja. Quer outra? Você é único, assim como todo mundo. Mais uma? Só se esqueça de mim quando eu me esquecer de você, só assim vou saber que você nunca se esquecerá de mim. Terminada a minha obra de arte (o que significa o verbo obrar?), enviei o arquivo anexo (de 8,4Mb) para as 712 pessoas da minha lista de endereços e as ameacei dizendo que se o arquivo não fosse passado adiante em até 30 segundos, elas seriam acometidas por uma praga de brotoejas. Pronto. Sou criativo pacas. Já faço parte da era da criatividade. Um beijo no coração de vocês.

Pessoas que declaram — num artigo, numa entrevista, num programa de debates, numa conferência ou na revista Você S.A. — que “estamos na era da [substantivo abstrato e impactante]” não podem ser levadas a sério. Talvez elas não queiram ser levadas a sério porque já se levam a sério demais, tão a sério que sofrem de incontinência mental. Isso as leva a produzir aforismos inteligentes que pretendem reinventar a roda, melhorar o mundo e dar mais qualidade de vida às pessoas deste Brasilzão de meu deus.

(pausa para tomar um epocler)

Mas estas pessoas não são um problema. Elas se tornam um problema na medida em que influenciam outras pessoas e as fazem crer excessivamente em si mesmas. Excesso de autoconfiança também é um problema — todo criminoso, por exemplo, padece deste mal. Livrarias vivem abarrotadas de livros de auto-ajuda, tema que pode ser definido como “eu ajudo você a me ajudar e a ter a impressão de estar se ajudando ao comprar meus livros e ao dar atenção às minhas palavras” (pode-se ascender à ABL desta forma).

O satanismo, tal como o compreendo, pode ser visto nas seções de livros de auto-ajuda das livrarias: torne-se confiante, vença, você faz seus limites, siga em frente, não desista, lute pelos seus direitos. Você já sorriu hoje? E assim, fácil, fácil, a pessoa continuamente exposta a esses mantras torna-se um monstro de egoísmo e de impetuosidade. Dê-lhe uma alavanca e ela não apenas moverá o mundo, como também a quebrará na sua cabeça.

Mas nós, escritores, sabemos ser pessoas mais tristes do que os leitores se atreveriam a ser. No fundo, bem lá no fundo, todo escritor tem a esperança (argh) de que o mundo vai ser curado. E ter esperança é ser triste. Os crentes falam que Jesus voltará — outros mencionam Buda, os Anjos do Senhor (não se trata de uma banda gospel), a Energia Universal que tudo permeia, o Grande Sábio, o Walter Mercado ou os produtos da Polishop. Os não-crentes referem-se à bondade humana — e eles dizem que a prova disso é a existência de pessoas que se tornam vegetarianas porque não admitem comer um ‘semelhante’ e de entidades assistenciais em quantidade suficiente para tornar necessária a criação de entidades assistenciais que as assistam. Até Schopenhauer, filósofo, maníaco-depressivo e suicida fracassado, tinha esperança neste mundo. Ele criava poodles.

Eu não resisto a perguntar o que Jesus viria fazer aqui novamente — errare humanum est, persisitire idiotum est. E Walter Mercado deve estar muito bem em algum hotel de luxo que ele comprou com os dólares acumulados através do Ligue Djá. Também não resisto a perguntar se o vegetarianismo ideológico não passa de uma versão ecologicamente correta da credulidade mongolóide (como a daquela pessoa que quer morar na Vila do Chaves) e se o assistencialismo institucional não é parte dos problemas que ele pretende solucionar.

Com muita elegância, estilo e simpatia, gurus da auto-ajuda falam da importância de ser criativo, o que consiste em arriscar seus fundilhos, ler livros de auto-ajuda (se eles funcionassem, um bastaria) e em repetir para si mesmo aquela idéia surradíssima sobre o ideograma chinês para crise. Crise=risco+oportunidade, assim como 2+2=37; crise tem a mesma etimologia de criar, assim como 37 foi o número de passos que Buda deu antes de proferir o Sutra do Diamante (modernamente conhecido como Manifesto de H.Stern).

Pessoas um pouco mais inteligentes — mas não menos cretinas do que gurus da auto-ajuda — falam da importância de ser sábio, de desenvolver a serenidade, de ser um sujeito supimpa, querido por todos, enfim, aquela categoria de pessoa da qual se costuma ter pena e dizer “ah, mas ele é tão bonzinho…”.

Não gosto de imaginar que as coisas mais importantes da vida são ser e fazer. Elas me tornam ainda mais egocêntrico do que minha natureza me diz para ser — o que é um passo para ser criativo pacas, participar da próxima edição da Casa Cor e aparecer em colunas sociais. Prefiro ver. Fazer, apenas coisas discretas. Ser, apenas uma pessoa discreta. Trabalhar em silêncio, é tudo que quero. Não estou pedindo muito.

Migalhas de rebeldia

Quer mudar o mundo? Desligue a TV, passe menos tempo diante do computador. Esqueça inclusive o Orkut e os fora virtuais de debate. Feche-se em si mesmo, passe mais tempo debruçado sobre os livros, aperfeiçoe aquilo que você já sabe, aprenda aquilo que você não sabe. Se você é do tipo intelectual, desenvolva habilidades manuais, como a mecânica de bicicletas e os fundamentos da jardinagem. Se você é do tipo braçal, aprenda um pouquinho de filosofia, desenvolva sua consciência, saiba o que ela é, leia uns livros. Mas, independentemente do seu tipo, mantenha a TV desligada e crie sérias ressalvas em relação à Internet.

Dedique uma hora por dia ao solipsismo — não à filosofia solipsista, que não pode ser levada a sério, mas ao modo de vida solipsista. Trinta minutos dedicados ao estudo e outros trinta minutos dedicados a atividades físicas são suficientes. Quem quer que vá além disso estará, evidentemente, tentando chegar lá, e ao tentar perderá o caminho de vista e esquecerá de coisas fundamentais, como o descanso, a nutrição, a higiene, a arte, as tarefas cotidianas. Alguns perguntariam, citando alguns apóstolos da auto-ajuda e palestrantes motivacionais: “eu quero chegar lá, por que diabos eu não tentaria chegar lá?”. Bem, vá em frente. Opa, você acaba de pisar num cocô.

Você já reparou, por exemplo, como todo socialista gosta de parecer sujo e desarrumado? Muitos deles passaram dias sem tomar banho nos congressos da UNE — nem vou mencionar os acampamentos do MST. Tente imaginar o cheiro de um congresso da UNE. Com o pretexto de concentrar-se num imperativo categórico — transformar o mundo –, esquecem do essencial — um bom banho, esfregando atrás da orelha.

Lembro aos espertalhões que não estou afirmando que nenhum socialista gosta de banho; apenas me arrisco a dizer que a maioria dos que gostam está em Brasília e já passou da idade de crer numa ideologia a ponto de abrir mão de um banho quente para contemporizar com seus camaradas. Isto é, estão a um passo de se tornarem tão conservadores quanto a embalagem de Maizena. São como o Niemeyer, sentem saudades da União Soviética só na entrevista, só porque nunca estiveram lá, porque um exame sério (ao qual qualquer pessoa normal se submete todas as noites) não as deixa ignorar o óbvio: até os socialistas se beneficiam com o capitalismo.

O verdadeiro idealista esquece de ler coisas elementares — como bulas de remédio, as normas da casa ou embalagens de papel higiênico (aquele, por exemplo, tem um pigmento que causa hemorróidas) — e concentram seus neurônios no caderno Mais! (que, se fosse receber um nome mais adequado ao seu conteúdo, devia se chamar Menas!). É claro que os suplementos culturais dos jornais de domingo oferecem quitutes que bulas, leis e embalagens não oferecem: a sensação de estar entendendo o mundo, o alinhamento mental com uma horda de figuras maravilhosas, a possibilidade de praguejar diante da TV com a firme convicção (lembre-se dos 10 mil “Estou convencido de que…” pronunciados pelo sumo apedeuta desde que assumiu a presidência) de saber do que está falando. E é claro também que os suplementos culturais jamais contradirão as bases teóricas da linha editorial dos jornais que os publicam. Pelo menos as bulas são sempre honestas.

Entre o supérfluo grandioso e o essencial trivial, naturalmente as pessoas preferem o primeiro, sobretudo quando as gentes repetem que essa é a opção mais bacaninha de todas. Veja, por exemplo, o Carnaval: o impacto de cinco dias de festa na alma de um sujeito comum é maior do que o impacto de meses de trabalho. Graças ao dinheiro obtido em meses de trabalho é que ele consegue viajar durante o Carnaval e encher a cara, suar feito tampinha de chaleira no meio da multidão ou simplesmente molhar os pés na praia mais próxima da pousada em que ele se hospedou. A mídia causa a impressão de que o mundo vive em função desses momentos grandiosos, sem deixar ver que a vida é feita diariamente, de coisas miúdas, de uma sucessão de momentos corriqueiros, banais mesmo. A vida não foi feita para ser manchete.

O sujeito que pretende transformar o mundo termina por especializar-se em nada — tal qual o jornalismo. Ele simplesmente não sabe do que está falando. Se sabe, é por pouco tempo e seu conhecimento não resiste a duas horas diante de um manual daquele assunto. Ele não sabe nada porque pretende mudar tudo, troca seus poucos tesouros por umas migalhas de rebeldia e revolução — também chamadas de hedonismo. Ele não quer compreender, porque isso lhe exigiria estudo e afeição ao conhecimento. Ele quer primeiro transformar e depois compreender, se sobrar tempo. Mas aí será tarde: só restarão cadáveres e escombros.

*
É especialmente interessante pensar nessas idéias e refletir por alguns minutos sobre as palavras de Robert Pirsig, extraídas de seu livro Zen e a Arte da Manutenção das Motocicletas: “O que se deve fazer quando consertamos uma motocicleta, como em qualquer outra tarefa, é cultivar a paz de espírito que não nos separa do que está ao nosso redor. Quando fazemos isso com sucesso, então tudo o mais transcorre naturalmente. Paz de espírito produz valores corretos, valores corretos produzem pensamentos corretos. Pensamentos corretos produzem ações corretas e ações corretas produzem obras que serão objeto de reflexão para que outras pessoas vejam a serenidade que há no centro de todas essas coisas.”

No centro.

Bodegas

Cansei de ouvir essas frases. Eu as amaldiçoo, todas elas:

É na adversidade que o indivíduo amadurece.
Ninguém amadurece recebendo chutes, levando tombos ou sendo desmoralizado. A maturidade vem depois, quando a tempestade se foi e é possível observar os estragos que ela deixou. Com a observação vem a compreensão, e com a compreensão vem todo o restante — consciência e maturidade.

Seja o que você é, não o que os outros querem que você seja.
É possível ser o que não se é? E é realmente possível não ser aquilo que outras pessoas gostariam que você fosse? Levada adiante, a frase acima pode significar tanto uma revolução total na própria vida quanto aquela atitude epicúrea de retirar-se e deleitar-se no ócio filosófico. Ou seja, ela não significa nada.

O que tiver que ser, será.
O quê tem que ser? Compare essa frase com esta, de Lipot Szondi: “A escolha faz o destino” — e em seguida vá cuidar da sua vida.