O fundamentalismo da imprensa

camisa de força
Eu sabia que essa imagem seria útil um dia…

Então, né, todo mundo revoltadinho porque o arcebispo excomungou os médicos que fizeram o aborto na menina. Donde a surpresa? Queriam que o arcebispo fizesse sinal de jóinha para eles? Aborto é aborto, sem nuances, sem talvez ou discussão. A regra é clara: fez, tá fora da Igreja, seu projeto de cristão.

Acusar o arcebispo de fundamentalismo — entre outras coisas piores — é fácil pacas. Difícil mesmo é a imprensa admitir o fundamentalismo de sua própria reação.

Na prática a excomunhão impede que o excomungado receba alguns sacramentos da Igreja: batismo, comunhão, crisma e casamento. Ele não terá a porta de sua casa caiada; não terá um emblema costurado em sua roupa; não será alvo de piadinhas na rua; não será vítima de homens-bomba; não será atacado por uma praga de gafanhotos. Por que a histeria? Essa turma realmente se importa com batismo, comunhão, crisma e casamento? Me poupem.

Pegou mal

tamô de volta
O âncora do telejornal não se conteve…
(link da imagem)

Então, né, eu ligo a TV e estão lá os dois âncoras do telejornal à espera da correspondente nos EUA. Os três eram só sorrisos.

Conta pra gente como foi o primeiro dia do presidente eleito.
— E a promessa de dar um cachorrinho para as filhas?

Não, não era possível.

Sim, era possível. E pegou mal pacas.

Se Hussein entra para a história como o primeiro presidente muçulmano e antiamericano dos EUA e por mais uma dezena de motivos que não vem ao caso repetir, a imprensa brasileira — toda ela, juntinha — entra para a história por ter assumido abertamente sua condição de lambe-botas, de torcida organizada, de legião. A imprensa brasileira saiu do armário, foi pra galera, gritou “é campeão” até ficar rouca.

Se liga: o tópico que interessa é a turba que ocupa as redações dos jornais brasileiros, não o democrata recém-eleito e a euforia por lá. O tópico é a euforia aqui. Eles podem ter algum motivo lá; nós aqui, não.

Jogando as mãos para o alto e gritando e pulando mais do que todos, eis que surge Arnaldo Jabor — forte candidato à presidência do fã-clube. Ninguém desceu tão fundo quanto ele. Jabor chegou a um nível abissal, onde não há mais luz, apenas uma batalha permanente de peixes cegos e famintos.

Essa é a vantagem da liberdade de expressão. Deixa a imprensa falar. Deixa o Galvão Bueno torcer em vez de narrar. Deixa a TV apoiar a política grandiloqüente e paternalista do Governo Federal. Deixa a mídia falar abobrinha à vontade.

Se a gente fica reclamando de miudezas desse tipo corre o risco de perder os grandes momentos da imprensa brasileira, aqueles em que os jornalistas orgulhosamente rasgam o diploma e eliminam qualquer dúvida que a gente possa ter: a imprensa brasileira odeia democracia, a imprensa brasileira está se lichando para a festa da democracia, a imprensa brasileira quer é rosetar, a imprensa brasileira quer é estar em Wóchito no dia da posse. Afinal, a democracia só interessa quando eles ganham.

Qual a surpresa?

caso eloá
(link da imagem)

O Caso Eloá tem sido usado como exemplo da incompetência da Polícia Militar do Estado de São Paulo — como se já não houvesse provas suficientes disso.

O contraste entre a realidade — banal, banal — e o tom surpreso de certos comentaristas ao deparar-se com ela, revela a quantas anda a imprensa brasileira. Ela segue cada vez pior. No entanto, quando o coronel diz:

“Se tivéssemos dado o tiro de comprometimento, os senhores (imprensa) estariam questionando essa decisão” (link)

…ele mostra que nós podemos ser piores do que a imprensa, justamente por tomar como filtro para a realidade algo que vive na periferia dela. Levar a sério algo que não tem a seriedade como princípio é o fim dos tempos. Tomá-la como base de nossas decisões é semear tragédias como a que aconteceu em Santo André.

*
Não há dúvidas de que crime e violência são problemas sérios, mas não custa nada olhar um pouco além e ver quais são os elementos que ajudam a tornar esses problemas ainda piores. Existe uma cultura que patrocina o crime. É preciso ser muito cego para não ver o papel da imprensa nisso. A perda do senso de causa e efeito é um outro sinal do fim dos tempos.

Este site apóia John McCain

mccain republican
(link da imagem)

Este post foi descaradamente inspirado neste post do Saboya, que eu sugiro que você leia. Lá você encontrará as razões pelas quais deveríamos (futuro do pretérito, porque não votamos nos EUA) preferir McCain a Hussein Obama.

Confesso que tenho prestado pouca atenção à política ultimamente e nem as eleições que batem à minha porta quase todos os dias (municipais, 2008) têm merecido os vincos da minha testa. Mas é nauseabunda a freqüência com que a mídia brasileira diz amém ao democrata Hussein, dando-o como eleito. Desagrada (embora não surpreenda) ver esse desequilíbrio nos telejornais. Por exemplo, a candidata à vice-presidência de McCain, Sarah Palin, só se tornou conhecida no Brasil quando os jornais norte-americanos destacaram o “escândalo” envolvendo sua filha (que engravidou do namorado e, por isso, decidiu casar, vejam só que baixaria…).

O objetivo deste post é, portanto, tornar as coisas menos desequilibradas e menos desinformadas do lado de cá da linha do Equador. Se não servir para eleger McCain, espero que sirva ao menos para que mais e mais pessoas saibam que Obama não é candidato único, tampouco o melhor — e, de quebra, lembrar-nos da imprensa porca que nos envenena todos os dias.