Eu, eu, eu

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O problema não está no apego, mas no apego às coisas erradas. Ligamo-nos às coisas que mudam constantemente e isso nos faz mudar também e nos torna cegos para as leis eternas. Se pensarmos estritamente, o apego permite a continuidade da vida.

Não é uma grande ajuda jogar todas nossas roupas fora, amanhã elas ainda serão necessárias. Vivemos e temos fé na vida, nos valores morais, no maior valor do bem sobre o mal porque acreditamos na existência do futuro. Mas ter fé na vida é uma coisa, ter fé na vida porque estamos usando Armani é outra coisa. Não confunda unda com…

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Filosofias orientais insistem no tema da dissolução do ego e algumas até o aproveitam para causar uma embriaguez que de fato trará essa dissolução — como quando oramos ou entoamos um mantra até um ponto em que não reconhecemos mais nossa própria voz, embora ela ainda esteja ali, orando ou entoando o mantra. Mas o que me permite viver é saber que não sou aquilo que não sou. Eu digo algo que você não diz, sinto dores ou prazeres que você não sente. Assim, de que forma é possível dissolver o ego e por que isso é importante?

A maioria das pessoas se satisfaz sendo o que é. As pessoas não querem ter aquele corpo ou ser aquele sujeito rico; as pessoas querem ter aquele corpo ou ser ricas como aquele sujeito e continuar sendo exatamente aquilo que são. O sujeito quer melhorar sua vida, mas não quer deixar de ser o asno que faz brincadeiras de mau gosto com os colegas no trabalho — «eu não vou mudar por causa deles». Não há a menor percepção de que há princípios de vida subjacentes a uma vida rica ou saudável (ou simplesmente melhor).

A chave da mudança consiste em encarar sinceramente os princípios que o tornaram aquilo que você é.

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Quatro em um


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Não morri, não fui preso (meu avô sempre perguntava se eu havia sido preso quando ficava muito tempo sem visitá-lo), não estou morando num mosteiro. Apenas mudei de cidade. Estou passando um tempo — semanas, meses, anos ou a vida toda, ainda não sei — longe de minha cidade, praticando e estudando yoga.

Uma das conseqüências do estudo de uma disciplina espiritual é o distanciamento da rotina anterior, supostamente não-espiritual. Isto explica minha ausência. E também explica meu crescente desinteresse por todas as coisas que não tenham relação com a disciplina em que me coloquei. Não se trata de empáfia, como ocorre com freqüência com os iniciados, mas de comedimento, moderação ou, como se costuma dizer, de freio na língua. Trata-se de não abrir a boca sobre assuntos desconhecidos, porque o estudo mostra nosso desconhecimento e os riscos de apostar na própria erudição. Você vê adiante a longa trilha que tem a percorrer e sabe que falar é perda de tempo, é desvio, é estupidez. E por isso se cala e volta-se para sua disciplina.

Por isso a ausência e o silêncio.

Entretanto, como é sensato não deixar este site desvanecer, eis alguns tópicos que têm me acompanhado estes últimos dias.

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Yoga

Aquilo que usualmente se chama yoga é na verdade um ramo do yoga: o hatha yoga, que em grande parte limita-se à prática de asanas (lê-se «áçanas») e à preparação do corpo para a meditação. Uma das descobertas mais interessantes nestes meus primeiros dias como estudante de yoga está relacionada à insuficiência da prática física — ou à sua natureza transcendental. Contorcer-se é bom, mas não é o bastante. A prática de asanas melhora a saúde, reforça os músculos, previne problemas articulares, torna a postura mais bonita e equilibrada, beneficia a respiração, a circulação e a condição física geral do indivíduo. Mas lapidar o espírito é outra coisa. O praticante pode tornar-se um paspalho narcisista ao perceber os primeiros resultados da prática dos asanas e permanecer assim indefinidamente.

Outro problema, não menos sério, é que o praticante também pode tornar-se um paspalho narcisista ao perceber os primeiros resultados do yoga sobre o espírito. A ascese genuína não dá espaço para efeitos colaterais desse tipo; saber identificá-la e distingui-la é parte do treinamento do yogi.

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Leituras

    O modo como a cultura torna os seus filhos sociáveis é lhes ensinando a confiar primeiramente nos julgamentos que estão fora deles mesmos. Para socializar uma criança você precisa inspirar nela somente três princípios: aceitar a informação vinda de fora, buscar as recompensas exteriores e ignorar a voz interior, caso ela conflite com o que vem de uma autoridade externa. Essa é a maneira de treinar uma criança para que ela seja membro de uma sociedade. Por isso, quando a mãe diz «faça isso», você faz, mesmo que sinta em seu coração que não é o certo. Se você se sair bem agindo dessa forma, será bem-sucedido na sociedade; caso contrário, será um proscrito.

    Quando dizemos «confie na sua intuição», quando passamos a encorajar isso, estamos revertendo o processo. Quando despertamos, começamos a agir de dentro para fora, e não de fora para dentro — e essa é a transformação que realmente buscamos. Ela conduz a um comportamento baseado não no auto-interesse esclarecido, mas nos mecanismos de um coração desperto.

Trecho de Caminhos para Deus — Ensinamentos do Bhagavad Gita, de Ram Dass.

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Opera 10

O melhor navegador da atualidade ainda está em fase beta, mas traz inovações que podem tirá-lo do injusto ostracismo em que se encontra (não à toa, o Opera é injustamente conhecido como «o melhor navegador que ninguém usa»). Além da tradicional velocidade e grande quantidade de recursos, a atual versão do Opera traz o serviço Opera Unite, um novo conceito de compartilhamento de dados.

Com o Opera Unite o PC se torna um servidor com a capacidade de compartilhar arquivos, imagens, músicas. Sem novidades, você dirá, porque diversos programas fazem isso — como os programas de torrent e de compartilhamento P2P. A diferença é estes programas fazem todas essas coisas separadamente. O Opera Unite reúne todas as funções de compartilhamento de arquivos (e várias outras funções) no navegador, tornando-as mais fáceis e rápidas de utilizar, sem necessidade de uploads, sem necessidade de add-ons ou plugins.

Saiba mais aqui.

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O triunfo do indivíduo

Acho que encontrei resposta para uma dúvida antiga e freqüente (freqüente, sim, eu estou me lichando para a súcia ortográfica): num mundo cada vez mais desorganizado e sobrecarregado com informações contraditórias ou falsas, como encontrar equilíbrio, paz de espírito e, mais importante, como encontrar a Verdade?

A resposta está no indivíduo. Sua consciência é naturalmente capaz de testemunhar a realidade e interpretá-la e distinguir o real do irreal, a verdade da mentira, a ordem do caos. O filósofo Olavo de Carvalho expressa essa idéia de forma brilhante na frase que apresenta seu site: «Somente a consciência individual do agente dá testemunho dos atos sem testemunha, e não há ato mais desprovido de testemunha externa do que o ato de conhecer.»

Perco-me com freqüência no excesso de notícias, de escritos, de idéias, de discussões. Encontro-me quando deixo estas coisas de lado e busco o indivíduo (ou os indivíduos) por trás de tudo — minha própria consciência e a consciência de quem transmite a informação. Ocorre então uma identificação semelhante àquela cumplicidade que ocorre entre autor e leitor (nos bons livros). Vejo a pessoa que se manifesta, que escreve, que diz algo, que realiza estas ou aquelas ações. E a confusão se desfaz: a pessoa manifesta claramente tudo aquilo que supostamente permanece invisível ou intocável, ela completa as lacunas eventualmente esquecidas.

Não são idéias, não são notícias, não são discussões — são indivíduos. Boa parte dos problemas deste mundo está na facilidade de ignorar as pessoas e tomá-las por aquilo que nunca serão — qualquer coisa, menos gente.

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