Do silêncio

Talvez um dos dramas interiores mais peculiares pelos quais uma pessoa pode passar seja o de perceber certas verdades e não conseguir explicá-las às outras pessoas. Embora as palavras às vezes possam amenizar o problema, isto tem pouco a ver com a oratória ou a habilidade literária (ou a falta destas coisas), porque há também momentos (não raros) em que as palavras agravam o problema e mais confundem do que esclarecem.

Há um frase célebre de Wittgenstein que diz «onde não se pode falar, aí é preciso calar». Seria um conselho supimpa se o diálogo interior não fizesse parte da natureza mesma da mente: tão logo a percepção da realidade se conclui, a mente começa a se desdobrar num jogo dialético interminável, em busca de frases, fórmulas, julgamentos, slogans. Querer falar, mesmo quando não se pode, é algo genuinamente humano.

Onde não se pode falar, oras, buscam-se palavras adequadas (conforme ensina Olavo de Carvalho).

Místicos, mesmo os que não conhecem Wittgenstein, dirão que o silêncio a que o filósofo austríaco se refere é contemplativo. Ok. Mas eis que em algum momento você precisará olhar nos olhos de outra pessoa e dizer coisas sérias — suponhamos, coisas que não aconteceram, mas que você sentiu e que, portanto, não são menos verdadeiras apenas porque não se manifestaram como sons de sininhos ou como uma fome devastadora ou como uma topada num móvel num quarto escuro.

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Quando Pôncio Pilatos perguntou a Jesus «quid est veritas?», o Nazareno silenciou. A verdade estava ali, encarnada, inteira e plena diante de Pilatos, que, ao invés de reconhecê-la, me vem com um «posso ver o cardápio?».

Eu também peço o cardápio. A maioria das pessoas pede. Mas no fundo todos queremos ver a verdade encarnada diante de nós, mesmo que isso signifique ajoelhar, silenciar e chorar.

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Natal

Natividade mística (c.1500), Botticelli (1445-1510)

O Natal é a celebração do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Comemore — sem esquecer que o aniversário é dele, não seu.

Que a data seja festejada como aquilo que de fato ela representa. Que a luz de Cristo ilumine corações e mentes. E que todos tenham um feliz Natal, com muita saúde e paz.

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Teu nome é legião

Os dirigentes da comunidade levam ao conhecimento desta que desde há muito tempo tinha notícias das equivocadas opiniões e errada conduta de Baruch de Espinosa, tendo por diversos meios e advertências procurado afastá-lo do mau caminho. Como não obtiveram nenhum resultado e, bem pelo contrário, foram aumentando as horríveis heresias que o mesmo pregava e ensinava, bem como a sua conduta inaudita, resolveram as referidas autoridades de acordo com o Rabino, na presença de testemunhas fidedignas e do próprio Espinosa, que este fosse excomungado e expulso do povo de Israel, segundo os termos do seguinte Decreto de Excomunhão: Por decisão dos Anjos e o juizo dos Santos, excomungamos, expulsamos, execramos e maldizemos a Baruch de Espinosa, com a aprovação do Santo Deus e de toda a sua Santa Comunidade, ante os Santos Livros da Lei com as suas 613 prescrições; com a excomunhão com que Josué excomungou Jericó, com a maldição com que Eliseu maldisse seus filhos e com todas as execrações escritas na Lei. Maldito seja de dia e maldito seja de noite; maldito seja quando se deite e maldito quando se levante; maldito seja quando saia e maldito quando regresse. Que o Senhor não o perdoe. Que a cólera e a repulsa do Senhor caiam sobre este homem e lancem sobre si todas as maldições escritas no livro da Lei. O Senhor apagará o seu nome sob os céus e o expulsará de todas as Tribos de Israel, abandonando-o e entregando-o ao poder do Maligno com todas as maldições do céu escritas no livro da Lei. Mas, quanto a vós, que sois fieis ao Senhor vosso Deus vivei em paz. Ordenamos que ninguém mantenha com ele laços de comunhão oral ou escrita, que ninguém lhe preste nenhum favor, que ninguém permaneça com ele sob o mesmo tecto, e mantenha com ele uma distância nunca inferior a quatro jardas e que não leia nada escrito ou transcrito por ele.

O texto acima, você já deve ter notado, é a versão integral da famosa excomunhão e maldição ao filósofo Spinoza. Continuar lendo

Natal

Tommaso di Stefano

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens; a luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela. Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João. Este veio como testemunha, a fim de dar testemunho da luz, para que todos cressem por meio dele. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz. Pois a verdadeira luz, que alumia a todo homem, estava chegando ao mundo. Estava ele no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dele, e o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, aos que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus. E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai. — João 1:1-14

A todos meus amigos, amigas e familiares, um feliz Natal. Que o espírito da data esteja vivo e presente na alma de todos, hoje e sempre.