Verdade oculta, mentira mascarada

eleitor

O que é dito esconde o que não é dito; o que você vê esconde o que você não vê. Estas duas frases ganham peso quando a política volta a ser o centro das conversas e dos debates.

O maior risco a que uma pessoa se expõe num ano eleitoral é o de perder de foco o que realmente importa. E o que realmente importa? Qualquer coisa, desde que cada um cuide da sua vida da melhor forma possível, sem causar problemas a outrem. O Estado e a imprensa defendem algo diferente disso: para eles o que realmente importa é estar atento aos candidatos, avaliar propostas e carreiras e votar com consciência. A “festa da democracia” consiste em celebrar e renovar um sistema em que a pessoa que menos cuidará da sua vida será você mesmo.

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A lógica e o tênis

chesterton

Trecho do livro “A Coisa”, de Gilbert Keith Chesterton.

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Quando digo que duvidamos do aprimoramento intelectual produzido pelo protestantismo, pelo racionalismo e pelo mundo moderno, isso geralmente causa uma confusa controvérsia, que é um tipo de emaranhado semântico. Mas, em geral, a diferença entre nós e nossos críticos é esta: eles entendem que crescimento é um aumento do emaranhado; enquanto nós entendemos que pensamento é desemaranhar o emaranhado. Mesmo um pequeno pedaço de fio reto vale mais do que toda uma floresta de mero emaranhamento. Que haja mais assuntos sendo discutidos, ou mais termos sendo usados, ou mais pessoas usando-os, ou mais livros e autoridades citadas – tudo isso não é nada para nós se as pessoas usam impropriamente os termos, entendem mal os assuntos, invocam autoridades à esmo e sem o uso da razão; e finalmente conseguem um resultado falso. Continuar lendo

Graduação em babaquice II

tamofu
Há remédio contra o mau jornalismo?

Aqui não se trata propriamente de babaquice, mas de outra coisa igualmente comum e grave no jornalismo brasileiro: falta de isenção. A diferença é que desta vez a coisa é assumida e descarada.

Ouvindo a rádio CBN terça passada tomo conhecimento de um evento que aconteceu na Basiléia (Suiça), promovido pela Roche, a respeito do Tamiflu e do combate à gripe suína. No evento foram apresentadas estatísticas da produção e da distribuição do medicamento e basicamente a reportagem da CBN girou em torno disso. No final da matéria a repórter encerra a transmissão direta da Suiça e o âncora do jornal conclui com o seguinte comentário: Continuar lendo

Graduação em babaquice

notícias populares

Que me perdoem os jornalistas por este post. Os mais sensatos saberão recusar a carapuça.

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Meses atrás ouve uma grita geral entre os jornalistas porque o STF decidiu derrubar a exigência de diploma para o exercício da profissão de jornalismo.

Ligo a TV para assistir a um telejornal. Vejo repórteres que definitivamente não estrearam esta semana na TV. Uma dessas pessoas estende o microfone para um pai de família cuja casa foi levada pela enxurrada e pergunta a ele:

    Sentimento de desolação, não é?

Em outro telejornal vejo um repórter cuja locução é temperada com uma pontuação absolutamente bizarra. Não lembro exatamente a frase, mas tome qualquer frase de qualquer reportagem de qualquer telejornal. Por exemplo:

    As bulas dos remédios genéricos e similares deverão conter informações semelhantes às apresentadas nas dos medicamentos de referência.

Conforme a técnica de locução atualmente utilizada pelos repórteres, a frase deve ser lida assim:

    As bulas dos remédios genéricos e similares deverão conter informações semelhantes às apresentadas nas dos medicamentos. De referência.

De duas uma: ou todos os repórteres são asmáticos e não conseguem sustentar frases longas sem pausas esdrúxulas ou as faculdades de jornalismo estão desenvolvendo técnicas revolucionárias de pontuação…

O exemplo mais evidente desse estado de coisas é o G1, o portal de jornalismo da Rede Globo. Nele as matérias dos telejornais da Rede são repetidas ad nauseam e a enxurrada de textos ruins, manchetes ruins e enfoques ruins é regra áurea. O G1 já foi objeto deste post do Saboya. Outra amostra recente da incompetência do G1 está na cobertura dada ao caso do italiano acusado de assediar a própria filha. O texto é modificado aparentemente sem critério algum — por mais delicado que seja o fato (grifos meus):

    Italiano é preso por beijar a filha na boca em barraca de praia no CE. (título da matéria do dia 3/9/2009)

    O advogado do italiano preso desde terça-feira (1º) sob a suspeita de ter estuprado a filha de 8 anos, na Praia do Futuro, em Fortaleza. (início da matéria do dia 4/9/2009)

Há ainda exemplos hilariantes, como este, do Ego (que faz parte da Globo.com, que engloba o G1).

É evidente que pessoas que falam errado, publicam fotos (mal) alteradas ou fazem perguntas absolutamente boçais têm diploma, porque começaram a trabalhar antes de junho deste ano, isto é, quando ainda era obrigatório ter diploma para atuar na área. Para estar num telejornal de uma rede de TV importante, certamente não tiveram uma formação acadêmica ruim.

Isto me faz crer que a babaquice é uma regra do jornalismo dito sério. Algumas pessoas se esforçam para argumentar que as redações estão recheadas de estagiários, o que é bem provável. Há também a antiga e notória necrofilia do jornalismo — que muitos associam à própria condição humana. Há ainda, a exemplo do que fazem os autores teatrais, a necessidade de criar tensão e expectativa com o texto jornalístico, porque a notícia precisa receber tempero para tornar-se atraente. E há também a velocidade que a Internet impôs às redações, que obviamente é inimiga da perfeição.

Seja qual for o motivo, alguns podem explicar, mas nenhum justifica o limbo das redações e nenhum explica os protestos pró-diploma entre estudantes e graduados do jornalismo. Na dúvida, mantenho distância segura dos noticiários e divirto-me com o Probably Bad News, sem me surpreender ao descobrir que babaquice não é exclusividade do jornalismo brasileiro.

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link da imagem

Pegou mal

tamô de volta
O âncora do telejornal não se conteve…
(link da imagem)

Então, né, eu ligo a TV e estão lá os dois âncoras do telejornal à espera da correspondente nos EUA. Os três eram só sorrisos.

Conta pra gente como foi o primeiro dia do presidente eleito.
— E a promessa de dar um cachorrinho para as filhas?

Não, não era possível.

Sim, era possível. E pegou mal pacas.

Se Hussein entra para a história como o primeiro presidente muçulmano e antiamericano dos EUA e por mais uma dezena de motivos que não vem ao caso repetir, a imprensa brasileira — toda ela, juntinha — entra para a história por ter assumido abertamente sua condição de lambe-botas, de torcida organizada, de legião. A imprensa brasileira saiu do armário, foi pra galera, gritou “é campeão” até ficar rouca.

Se liga: o tópico que interessa é a turba que ocupa as redações dos jornais brasileiros, não o democrata recém-eleito e a euforia por lá. O tópico é a euforia aqui. Eles podem ter algum motivo lá; nós aqui, não.

Jogando as mãos para o alto e gritando e pulando mais do que todos, eis que surge Arnaldo Jabor — forte candidato à presidência do fã-clube. Ninguém desceu tão fundo quanto ele. Jabor chegou a um nível abissal, onde não há mais luz, apenas uma batalha permanente de peixes cegos e famintos.

Essa é a vantagem da liberdade de expressão. Deixa a imprensa falar. Deixa o Galvão Bueno torcer em vez de narrar. Deixa a TV apoiar a política grandiloqüente e paternalista do Governo Federal. Deixa a mídia falar abobrinha à vontade.

Se a gente fica reclamando de miudezas desse tipo corre o risco de perder os grandes momentos da imprensa brasileira, aqueles em que os jornalistas orgulhosamente rasgam o diploma e eliminam qualquer dúvida que a gente possa ter: a imprensa brasileira odeia democracia, a imprensa brasileira está se lichando para a festa da democracia, a imprensa brasileira quer é rosetar, a imprensa brasileira quer é estar em Wóchito no dia da posse. Afinal, a democracia só interessa quando eles ganham.

Para ler ou ver notícias

TV quebrada

Eu falei de desconfiômetro em meu post anterior. Então.

Na TV vejo o noticiário sobre o ataque num shopping center dos EUA, com oito mortes e o suicídio do criminoso. Um grande destaque é dado para a notícia. A correspondente dos EUA traz notícias de primeira mão, com link ao vivo. Não há adjetivos no texto. O fato não é classificado desta ou daquela forma, ele apenas é noticiado. No entanto, fala-se pela milésima vez da facilidade de comprar armas nos EUA.

Apesar da imparcialidade da narração, você vê os adjetivos quando liga os pontos, amplia o campo de visão e o foco mental para além daquilo que é noticiado e os coloca na realidade próxima.

Em São Paulo, por exemplo, a média desde o início deste ano é de quatro mortes por dia — algo em torno de 130 mortes violentas todos os meses.

Aqui não há psicóticos que querem se celebrizar com assassinatos e suicídios. Aqui não se compram armas sem passar por uma burocracia que faria o Capitão Nascimento pedir pra sair.

Aqui há, por outro lado, a banalização da vida — inclusive por parte da imprensa, que denuncia o cisco no olho do vizinho e faz que não vê a trave no seu próprio.

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Original da imagem aqui.