Mediocridade

tomadas filtro de linha

Eu desconfio que quem escreve corretamente não escreve coisas excelentes porque tem medo. Na arte da escrita a excelência é incômoda; ninguém gosta muito de textos que refletem vivamente aquilo que o escritor é. A escrita superficial pode ser interessante e bem-sucedida, mas a escrita “visceral” (não gosto da palavra, mas talvez ela seja mais precisa para o que eu quero dizer) é à prova de críticas infundadas à medida que de fato ela mostre ser visceral, entranhada na personalidade do autor.

O medo a que me refiro é o medo de se expor. Há também o medo de receber críticas elaboradas e de lhes reconhecer o valor e a autenticidade.

O medo de escrever coisas excelentes é, neste sentido, uma desonestidade ou uma espécie de sociopatia: eu evito falar daquilo que eu verdadeiramente sinto e penso; vou preferir, assim, falar de assuntos superficiais (isto é, assuntos que têm pouca ou nenhuma relação com aquilo que trago dentro de mim); essa superficialidade é benquista, o leitor sente-se aliviado por não ser cúmplice da intimidade alheia e à vontade para falar mal ou bem do que leu. Naturalmente, isso renderá discussões superficiais e fornecerá mais material superficial para escritos superficiais.

Eis o círculo vicioso de mediocridade.

Eu entendo a obrigação social de não dizer que o rei está nu. Apenas não entendo que isso aconteça também em ambientes não-sociais, onde, pressupõe-se, a liberdade daria a tônica dos discursos e dos escritos.

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A propósito, isto é uma autocrítica.

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Siga o mestre

morihei ueshiba koichi tohei

Pesquisas demonstram — eu odeio começar um texto assim, mas vamos lá — que a memória retém apenas 30% daquilo que ouviu falar e cerca de 70% daquilo que viu. Estas porcentagens passam para algo em torno de 80% ou 90% para explicações que envolvem demonstrações, para a observação de ações e procedimentos.

Portanto: ensina-se pela palavra, mas aprende-se realmente pelo exemplo. Os grupos, famílias, escolas, universidades e países que perceberam isso se deram bem — constituíram-se, solidificaram-se e cresceram. Continuar lendo

Rebanho, a gente vê por aqui

legião

Ligo a TV. O noticiário esportivo é só Formula 1. O âncora diz, eufórico:

Todo mundo quer saber quem vai ser o campeão da Fórmula 1 deste ano!

Todo mundo quem, cara pálida?

Quando qualquer pessoa diz, na TV, “todo mundo quer” qualquer coisa, deve-se entender “este canal espera que todo mundo queira esta coisa, de modo que todos liguem a TV ao mesmo tempo e, assim, elevem os índices de audiência deste canal, ampliando nosso faturamento com publicidade”. E tenha a certeza de que o que menos importa nestes casos é a coisa que está sendo oferecida.

Ignorância x Imaginação

O modo como você encara aquilo que você não conhece determina o tipo de pessoa que você é.

O gênio tenta compensar o seu vazio interior com a imaginação, estuda e se esforça para que aquilo que ele imagina se aproxime das coisas como elas são — ou vice-versa, para que as coisas se aproximem daquilo que ele imagina.

O medíocre coloca seu vazio interior numa gaveta onde se lê ignorância; ele tranca a gaveta, joga a chave fora e ainda xinga aqueles que supostamente o forçaram a isso — mas ninguém o forçou a isso.