Verdade e moral

Confesso, já me abstive de analisar os conteúdos alheios porque o sujeito que os expunha participava de um clube que eu abominava. Àquela altura, se um Hitler me dissesse que 2+2=4 eu consideraria avaliar seriamente se 2+2=5.

Exemplos como esse são sintomas de duas características bastante humanas:

1) Para a maioria de nós, verdade e moral se equivalem: fazer o bem significa estar do lado da verdade e o exercício da verdade é necessariamente bom.

2) Como conseqüência disso, a maioria de nós não concebe que pessoas inerentemente más possam às vezes estar do lado da verdade e acertar ao descrever a realidade. Isto nos leva a dispensar os conteúdos antes de avaliá-los, o que é um passo firme para faltar com a verdade e sustentar um estado de coisas que permite que o mal atue com liberdade cada vez maior.

Um exemplo comum entre filósofos sobre a relação entre verdade e moral é aquele que nos coloca como dono de uma casa onde se escondem judeus em plena Alemanha nazista. Um soldado nos pergunta se estamos escondendo judeus. Dizer a verdade, é claro, significa condenar aqueles judeus à morte.

Dizer a verdade não é o mesmo que reconhecê-la. A expressão da verdade estabelece uma relação entre duas pessoas — emissor e receptor. O reconhecimento da verdade é ato solitário por sua própria definição.

A verdade não se altera, alteram-se seus usos. A moral começa onde o silêncio e a contemplação terminam.

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Preparando a própria forca

Esquerdistas acertam ao criticar os excessos de certos representantes do capital — que eles chamam de burgueses —, mas há algo nessa crítica que não é típico das esquerdas: a moral.

Não há nada errado em querer faturar alto, principalmente em épocas em que o dinheiro é escasso e as possibilidades de ganhá-lo são numerosas. Temporada de verão é uma dessas épocas cheias de perspectivas de alto faturamento, principalmente para quem vive do turismo (isto é, 99% da população de Ilhabela). Depois do Carnaval, como todos sabem, virá mais uma temporada de faturamentos mirrados e moscas. Obviamente, a condição para que se possam aproveitar as temporadas de verão é a existência de um mercado livre, onde monopólios, cartéis e concorrências desleais não existem ou pelo menos são evitados.

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Acima de tudo

stones

Na faculdade uma das lições mais interessantes e instigantes que tive foi aquela que falava da importância de elaborar um conceito para o projeto. Você não podia apenas desenhar uma casa. Ela poderia ser linda, interessante, diferente, mas precisava ter um conceito. Não que fosse sempre necessário justificar as opções de projeto, mas, se o professor perguntasse o porquê delas, as piores respostas seriam “não sei” e “porque eu quis”.

Ter uma justificativa razoável revelava que o estudante compreendera o exercício de projeto que lhe foi proposto e possuía um conceito norteando as escolhas e a forma como as diferentes partes do projeto podiam se conectar e se harmonizar num conjunto que, afinal, seria bem sucedido.

Lembro que alguns alunos na ocasião traduziram “conceito” como “coerência” ou “coesão”. O conjunto é coeso quando suas partes se comunicam, isto é, falam o mesmo idioma. Esse idioma comum é precisamente o conceito.

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Por uma elite moral

josé bonifácio de andrada e silva

Fala-se de elite econômica, elite intelectual, elite política, elite social (aquela ligada ao status). Não se fala de elite moral, um grupo exemplar, conjunto de pessoas que devem ser seguidas em qualquer circunstância, não porque têm dinheiro, boa posição social ou títulos eminentes, mas porque agirão corretamente em qualquer situação.

Eu acredito que essas pessoas existem, mesmo num país miseravelmente imoral como o nosso. Elas não são especialistas em nada, não dão entrevistas, vivem reclusas, estudam por conta própria e levam vidas simples, não são pobres nem ricas. Apenas vivem suas vidas e tentam dar o exemplo.

Se existe algum futuro para este país, ele está nas mãos dessas pessoas. É fundamental encontrá-las e ouvir o que elas têm a dizer. E, naturalmente, se você acha que faz parte dessa elite moral, você não tem condições de participar dela nem como aluno.

Escolhas

Daqui para onde?

Agora, neste exato momento, você tem pelo menos duas opções diante de si. Você pode continuar lendo este texto ou pode levantar-se para fazer qualquer outra coisa. Enquanto eu o escrevia, eu poderia ter levantado da cadeira para esganar a primeira pessoa que passasse na calçada — mas preferi concluir o raciocínio que sobreveio à mente (é possível que você ache que a primeira opção fosse mais frutífera, mas isso é outra história). Eu poderia ter rasgado o caderno em que anotei estas linhas ou poderia ter feito aviões de papel com suas folhas. Poderia ter saído correndo ou poderia ter deitado no chão para meditar profundamente sobre os eufemismos de que o mundo é feito.

Estes binômios podem ser resumidos da seguinte forma: subir ou descer; melhorar ou piorar; tornar-se uma pessoa de verdade ou reduzir-se àquela miséria que torna as lacraias mais dignas do que nós.

As duas opções são difíceis; as duas opções exigem coragem e energia; as duas têm custos e benefícios (por mais que vejamos a ruindade como opção fácil). O que realmente difere uma opção da outra é o que vem depois delas, que pode ser resumido com a seguinte pergunta: para onde você pode ir a partir do lugar em que você se encontra? Sinceridade ajuda nestas horas. Trata-se de uma pergunta que ninguém vai lhe fazer — a não ser você mesmo. Você não tem por que mentir.

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Sobre isto, Olavo de Carvalho diz, numa transcrição de um trecho de um de seus podcasts recentes:

“Conte para você mesmo a sua própria história honestamente. Este é o exame de consciência cristã, Você tem que fazer isto todos os dias, se você não faz. Pois, se você quer viver e crescer sem se revisar o tempo todo, você está se candidatando a uma neurose, pois você perdeu o fio da sinceridade, pois muitas coisas perto de nós nos impelem a mentir, a trapacear, a representar papéis às vezes por uma necessidade, para se mostrar o que não é. Daí vai se impregnando falsidade, um pouquinho aqui, um pouquinho ali, daí a pouco você não sabe mais quem é você. Por isso todo dia você tem que examinar e ver o que você fez e por que fez, e você tem que recuperar no meio dos vários papéis que você desempenhou a sua própria voz, para com a sua própria voz você poder falar com Deus.

“Segundo Santo Agostinho, a verdadeira sinceridade só é possível se você souber que você está perante um observador onisciente a quem você não pode enganar, porque se for apenas sinceridade para um, você acaba mentindo, pois você não pode falar a verdade para todos, afinal você usa uma linguagem diferente para falar com cada um. Logo, a gente não diz a verdade completa para nenhum deles, a gente só pode dizer a verdade completa em nosso próprio coração e para o próprio Deus. Afinal, Ele sabe a verdade. E este exercício deve ser diário.

“O que a Bíblia quer dizer com ‘caminhar diante de Deus’ é a pessoa estar o tempo todo dando para si mesmo o feedback do que ele fez, diante de um observador onisciente ao qual ele não pode enganar. Esta disciplina tem que ser algo de ferro, a gente não pode ceder nisto aí, é isto que mantém a sanidade humana. Não adianta você mentir para si mesmo, se você mente três vezes para si mesmo, seu Q.I. de 250 cai para 12,5. A inteligência é fruto da verdade.”