Do silêncio

Talvez um dos dramas interiores mais peculiares pelos quais uma pessoa pode passar seja o de perceber certas verdades e não conseguir explicá-las às outras pessoas. Embora as palavras às vezes possam amenizar o problema, isto tem pouco a ver com a oratória ou a habilidade literária (ou a falta destas coisas), porque há também momentos (não raros) em que as palavras agravam o problema e mais confundem do que esclarecem.

Há um frase célebre de Wittgenstein que diz «onde não se pode falar, aí é preciso calar». Seria um conselho supimpa se o diálogo interior não fizesse parte da natureza mesma da mente: tão logo a percepção da realidade se conclui, a mente começa a se desdobrar num jogo dialético interminável, em busca de frases, fórmulas, julgamentos, slogans. Querer falar, mesmo quando não se pode, é algo genuinamente humano.

Onde não se pode falar, oras, buscam-se palavras adequadas (conforme ensina Olavo de Carvalho).

Místicos, mesmo os que não conhecem Wittgenstein, dirão que o silêncio a que o filósofo austríaco se refere é contemplativo. Ok. Mas eis que em algum momento você precisará olhar nos olhos de outra pessoa e dizer coisas sérias — suponhamos, coisas que não aconteceram, mas que você sentiu e que, portanto, não são menos verdadeiras apenas porque não se manifestaram como sons de sininhos ou como uma fome devastadora ou como uma topada num móvel num quarto escuro.

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Quando Pôncio Pilatos perguntou a Jesus «quid est veritas?», o Nazareno silenciou. A verdade estava ali, encarnada, inteira e plena diante de Pilatos, que, ao invés de reconhecê-la, me vem com um «posso ver o cardápio?».

Eu também peço o cardápio. A maioria das pessoas pede. Mas no fundo todos queremos ver a verdade encarnada diante de nós, mesmo que isso signifique ajoelhar, silenciar e chorar.

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Roda baleiro

cat pidgeon
Almoço de domingo

— Sustentável e ecológica de verdade era a casa de meus avós, não as porcarias de 20 andares que fazem questão de exibir o rótulo. Lá havia um quintal com couve e alface, maracujá, maçã, abiu, abacate, galinheiro, vira-lata solto, frestas para esconde-esconde e silêncio — isso tudo no miolo da Baixada Santista. Quem, hoje, é capaz de projetar e empreender algo digno de ser chamado de moradia?

— Vi Alice no País das Maravilhas. Bom, divertido, vale a pena, mas tive a sensação de que meu colesterol subiu alguns pontos depois do filme.

— Vi também Whatever Works. Eu provavelmente teria apreciado mais o livro, embora eu e minha amada lembremos sempre que um Woody Allen razoável é sempre melhor do que qualquer blockbuster acima da média. E o diretor continua genial para construir loiras burras — v. Mighty Aphrodite, Small Time Crooks e, claro, Match Point.

Melhor artigo deste ano até o momento. Note como muitas coisas derivam do estado de coisas descrito pelo filósofo. O problema, de verdade, é que as pessoas acham que tradição é um velho moribundo resmungando memórias que deve ser ouvido justamente porque se trata de um velho moribundo resmungando memórias.

“Caso hajam trabalhadores alojados, é obrigatório ter lavanderia e área de lazer”. Só existe uma coisa pior do que ser reprovado numa prova: ser reprovado numa prova em que você encontra erros de português.

— Sempre quis um Moleskine, mas sempre achei que o preço era desproporcional à qualidade do produto. Semana passada encarei alguns tutoriais e fiz um pra mim. Não ficou excelente, mas ficou bom e funcional — aliás, bem melhor do que os cadernos que eu usava antes, com espiral, também feitos à mão. Tutoriais, aqui e aqui. Imagem do caderno que fiz, aqui e aqui. Tomando de empréstimo o nome usado no tutorial brasileiro, minha amada batizou meu caderno de molespobre.

— A Academia é isto aqui.

— A felicidade suprema é ter a liberdade para ser rabugento sem o risco de ser levado a sério.

Coisas de cidade pequena.

Chute na canela dos relativistas.

E chega porque está tarde, é domingo e vocês têm mais o que fazer.

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Quatro em um


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Não morri, não fui preso (meu avô sempre perguntava se eu havia sido preso quando ficava muito tempo sem visitá-lo), não estou morando num mosteiro. Apenas mudei de cidade. Estou passando um tempo — semanas, meses, anos ou a vida toda, ainda não sei — longe de minha cidade, praticando e estudando yoga.

Uma das conseqüências do estudo de uma disciplina espiritual é o distanciamento da rotina anterior, supostamente não-espiritual. Isto explica minha ausência. E também explica meu crescente desinteresse por todas as coisas que não tenham relação com a disciplina em que me coloquei. Não se trata de empáfia, como ocorre com freqüência com os iniciados, mas de comedimento, moderação ou, como se costuma dizer, de freio na língua. Trata-se de não abrir a boca sobre assuntos desconhecidos, porque o estudo mostra nosso desconhecimento e os riscos de apostar na própria erudição. Você vê adiante a longa trilha que tem a percorrer e sabe que falar é perda de tempo, é desvio, é estupidez. E por isso se cala e volta-se para sua disciplina.

Por isso a ausência e o silêncio.

Entretanto, como é sensato não deixar este site desvanecer, eis alguns tópicos que têm me acompanhado estes últimos dias.

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Yoga

Aquilo que usualmente se chama yoga é na verdade um ramo do yoga: o hatha yoga, que em grande parte limita-se à prática de asanas (lê-se «áçanas») e à preparação do corpo para a meditação. Uma das descobertas mais interessantes nestes meus primeiros dias como estudante de yoga está relacionada à insuficiência da prática física — ou à sua natureza transcendental. Contorcer-se é bom, mas não é o bastante. A prática de asanas melhora a saúde, reforça os músculos, previne problemas articulares, torna a postura mais bonita e equilibrada, beneficia a respiração, a circulação e a condição física geral do indivíduo. Mas lapidar o espírito é outra coisa. O praticante pode tornar-se um paspalho narcisista ao perceber os primeiros resultados da prática dos asanas e permanecer assim indefinidamente.

Outro problema, não menos sério, é que o praticante também pode tornar-se um paspalho narcisista ao perceber os primeiros resultados do yoga sobre o espírito. A ascese genuína não dá espaço para efeitos colaterais desse tipo; saber identificá-la e distingui-la é parte do treinamento do yogi.

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Leituras

    O modo como a cultura torna os seus filhos sociáveis é lhes ensinando a confiar primeiramente nos julgamentos que estão fora deles mesmos. Para socializar uma criança você precisa inspirar nela somente três princípios: aceitar a informação vinda de fora, buscar as recompensas exteriores e ignorar a voz interior, caso ela conflite com o que vem de uma autoridade externa. Essa é a maneira de treinar uma criança para que ela seja membro de uma sociedade. Por isso, quando a mãe diz «faça isso», você faz, mesmo que sinta em seu coração que não é o certo. Se você se sair bem agindo dessa forma, será bem-sucedido na sociedade; caso contrário, será um proscrito.

    Quando dizemos «confie na sua intuição», quando passamos a encorajar isso, estamos revertendo o processo. Quando despertamos, começamos a agir de dentro para fora, e não de fora para dentro — e essa é a transformação que realmente buscamos. Ela conduz a um comportamento baseado não no auto-interesse esclarecido, mas nos mecanismos de um coração desperto.

Trecho de Caminhos para Deus — Ensinamentos do Bhagavad Gita, de Ram Dass.

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Opera 10

O melhor navegador da atualidade ainda está em fase beta, mas traz inovações que podem tirá-lo do injusto ostracismo em que se encontra (não à toa, o Opera é injustamente conhecido como «o melhor navegador que ninguém usa»). Além da tradicional velocidade e grande quantidade de recursos, a atual versão do Opera traz o serviço Opera Unite, um novo conceito de compartilhamento de dados.

Com o Opera Unite o PC se torna um servidor com a capacidade de compartilhar arquivos, imagens, músicas. Sem novidades, você dirá, porque diversos programas fazem isso — como os programas de torrent e de compartilhamento P2P. A diferença é estes programas fazem todas essas coisas separadamente. O Opera Unite reúne todas as funções de compartilhamento de arquivos (e várias outras funções) no navegador, tornando-as mais fáceis e rápidas de utilizar, sem necessidade de uploads, sem necessidade de add-ons ou plugins.

Saiba mais aqui.

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O triunfo do indivíduo

Acho que encontrei resposta para uma dúvida antiga e freqüente (freqüente, sim, eu estou me lichando para a súcia ortográfica): num mundo cada vez mais desorganizado e sobrecarregado com informações contraditórias ou falsas, como encontrar equilíbrio, paz de espírito e, mais importante, como encontrar a Verdade?

A resposta está no indivíduo. Sua consciência é naturalmente capaz de testemunhar a realidade e interpretá-la e distinguir o real do irreal, a verdade da mentira, a ordem do caos. O filósofo Olavo de Carvalho expressa essa idéia de forma brilhante na frase que apresenta seu site: «Somente a consciência individual do agente dá testemunho dos atos sem testemunha, e não há ato mais desprovido de testemunha externa do que o ato de conhecer.»

Perco-me com freqüência no excesso de notícias, de escritos, de idéias, de discussões. Encontro-me quando deixo estas coisas de lado e busco o indivíduo (ou os indivíduos) por trás de tudo — minha própria consciência e a consciência de quem transmite a informação. Ocorre então uma identificação semelhante àquela cumplicidade que ocorre entre autor e leitor (nos bons livros). Vejo a pessoa que se manifesta, que escreve, que diz algo, que realiza estas ou aquelas ações. E a confusão se desfaz: a pessoa manifesta claramente tudo aquilo que supostamente permanece invisível ou intocável, ela completa as lacunas eventualmente esquecidas.

Não são idéias, não são notícias, não são discussões — são indivíduos. Boa parte dos problemas deste mundo está na facilidade de ignorar as pessoas e tomá-las por aquilo que nunca serão — qualquer coisa, menos gente.

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O abandono dos ideais

luz tunel
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“(…) Numa sociedade empobrecida, fortemente empenhada em reduzir à proletarização a totalidade dos seus membros e na qual, ademais, todos os instrumentos de defesa espiritual e religiosa foram substituídos pelas multinacionais da pseudomística e todos os instrumentos de defesa cultural pelo vozerio onipresente e obsedante das comunicações de massa, nesta sociedade, o drama acima descrito atinge um máximo de intensidade que deixa entrever nada menos que um desenlace trágico, com a desumanização brutal da população e a redução da vida social a um jogo cego de interesses mesquinhos em disputa, ocultamente orquestrado e dirigido, desde o topo, por um sinistro grupo de planejadores sociais.

“Por todos os meios, esta sociedade espremerá como entre os dois dentes de um alicate todos os talentos e ideais nascentes, até esmagá-los e subjugá-los à bestialidade dominante.

“No entanto, apesar das pressões maciças e de todos os atrativos corruptores, a inteligência humana, por sua natureza mesma, continua essencialmente livre e capaz de objetividade e universalidade. E se é fato que ‘chegará o momento em que cada um, sozinho, privado de todo contato material que possa ajudá-lo em sua resistência interior, terá de encontrar em si mesmo, e só nele mesmo, o meio de aderir firmemente, pelo centro de sua existência, ao Senhor de toda Verdade’ (Guénon), não é menos verdade que está somente nas mãos de cada qual dizer a este mundo sedutor e ameaçador: Latrare potest, mordere non potest, nisi volentem: ‘Podes latir, mas não podes morder, a não ser que eu o deseje’. Mesmo as pressões mais formidáveis que o universo concentracionário impõe à alma humana, na mais temível das tiranias já conhecidas, não eximem o homem de sua responsabilidade individual.

“Todos aqueles em quem ainda reste um grão de consciência das metas reais e superiores da existência humana têm o dever imediato e indeclinável de estudar, conhecer e desmascarar os mecanismos do processo corruptor aqui descrito, para escapar aos falsos conflitos em que ele nos joga e às falsas alternativas que ele nos oferece.”

Trecho de O Abandono dos Ideais, de Olavo de Carvalho.

Adagio molto

Se uma imagem vale por mil palavras, fiquem com esta:

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Se a imagem acima não for suficiente, espero que ela possa ser somada aos itens abaixo para compor o meu top 5 da semana passada.

O melhor texto que li (insistir em um único autor pode render excelentes frutos).

A melhor canção que ouvi (o idioma é hebraico, não entendo lhufas mas achei lindo).

A melhor descoberta (lembrando que respirações yogues devem ser feitas com o devido cuidado e preparo; Iyengar nos lembra que máquinas pneumáticas podem quebrar pedras).

A melhor risada (ok, Friends é um humor forçadinho, mas isso me fez lembrar de quando eu dava aulas de inglês).

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Poucas atualizações nos próximos dias. Peço a paciência de vocês enquanto concluo algumas obrigações acadêmicas inadiáveis.

A todos, muito obrigado.

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(Infelizmente perdi o link da imagem acima; clica nela para ampliar)

Lição de casa

Ler esta entrevista com o filósofo, jornalista e escritor Olavo de Carvalho no JB de hoje.

Você tem que primeiro formar uma elite intelectual capaz de educar o restante do país. O governo vem com essa história de educar todo mundo, mas isso não funciona. Não é possível. (…) Se você não cria uma tradição de educação, a educação não pega. Se você não tem essa tradição, não tem o amor à cultura, ao conhecimento. A educação deve ser muito séria e começar por uma elite, que vai irradiando esse valor. Quem vai dar a educação para todos? A educação que se dá ao povo hoje não deveria ser dada a ninguém. Oferecer essa educação para meia dúzia de pessoas é um insulto. Para milhares, é um crime.