Insular

insularAlguns leitores deste site não sabem que eu costuma publicar escritos num blog chamado Insular. Há cerca de dois anos eu percebi que os assuntos particulares de minha cidade poderiam não interessar aos leitores deste site, e vice-versa. Daí criei o Insular e o Gropius tomou a forma que tem hoje. Se aqui os assuntos são diversos, lá limito-me aos assuntos que têm relação com a cidade em que vivo — o que naturalmente nunca implicou limites severos.

Com freqüência convido os três leitores do Insular a visitar este site. Hoje inverto o convite.

Os textos do Insular continuam pertencendo a uma realidade muito específica, mas este post, que é um apelo, não. Não pretendo que os leitores do Gropius atendam ao apelo — como gostaria que os leitores do Insular fizessem —; convido-os a ir até lá e ler o que escrevi como uma sugestão de que vocês façam o mesmo em seus respectivos bairros ou cidades.

Tive a idéia há algumas semanas. A certeza de que seria adequado propagá-la veio com a seguinte frase:

“O futuro deste país depende de que o número de observadores atentos cresça antes que a transmutação se complete invisivelmente.”

Sugiro fortemente a leitura atenta e repetida da entrevista de Bruno Tolentino à revista Veja — como sugeri recentemente. Se houver alguma dúvida quanto ao teor do que escrevi no Insular, talvez elas se dissipem com essa leitura.

A todos, muito obrigado.

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Escolhas

Daqui para onde?

Agora, neste exato momento, você tem pelo menos duas opções diante de si. Você pode continuar lendo este texto ou pode levantar-se para fazer qualquer outra coisa. Enquanto eu o escrevia, eu poderia ter levantado da cadeira para esganar a primeira pessoa que passasse na calçada — mas preferi concluir o raciocínio que sobreveio à mente (é possível que você ache que a primeira opção fosse mais frutífera, mas isso é outra história). Eu poderia ter rasgado o caderno em que anotei estas linhas ou poderia ter feito aviões de papel com suas folhas. Poderia ter saído correndo ou poderia ter deitado no chão para meditar profundamente sobre os eufemismos de que o mundo é feito.

Estes binômios podem ser resumidos da seguinte forma: subir ou descer; melhorar ou piorar; tornar-se uma pessoa de verdade ou reduzir-se àquela miséria que torna as lacraias mais dignas do que nós.

As duas opções são difíceis; as duas opções exigem coragem e energia; as duas têm custos e benefícios (por mais que vejamos a ruindade como opção fácil). O que realmente difere uma opção da outra é o que vem depois delas, que pode ser resumido com a seguinte pergunta: para onde você pode ir a partir do lugar em que você se encontra? Sinceridade ajuda nestas horas. Trata-se de uma pergunta que ninguém vai lhe fazer — a não ser você mesmo. Você não tem por que mentir.

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Sobre isto, Olavo de Carvalho diz, numa transcrição de um trecho de um de seus podcasts recentes:

“Conte para você mesmo a sua própria história honestamente. Este é o exame de consciência cristã, Você tem que fazer isto todos os dias, se você não faz. Pois, se você quer viver e crescer sem se revisar o tempo todo, você está se candidatando a uma neurose, pois você perdeu o fio da sinceridade, pois muitas coisas perto de nós nos impelem a mentir, a trapacear, a representar papéis às vezes por uma necessidade, para se mostrar o que não é. Daí vai se impregnando falsidade, um pouquinho aqui, um pouquinho ali, daí a pouco você não sabe mais quem é você. Por isso todo dia você tem que examinar e ver o que você fez e por que fez, e você tem que recuperar no meio dos vários papéis que você desempenhou a sua própria voz, para com a sua própria voz você poder falar com Deus.

“Segundo Santo Agostinho, a verdadeira sinceridade só é possível se você souber que você está perante um observador onisciente a quem você não pode enganar, porque se for apenas sinceridade para um, você acaba mentindo, pois você não pode falar a verdade para todos, afinal você usa uma linguagem diferente para falar com cada um. Logo, a gente não diz a verdade completa para nenhum deles, a gente só pode dizer a verdade completa em nosso próprio coração e para o próprio Deus. Afinal, Ele sabe a verdade. E este exercício deve ser diário.

“O que a Bíblia quer dizer com ‘caminhar diante de Deus’ é a pessoa estar o tempo todo dando para si mesmo o feedback do que ele fez, diante de um observador onisciente ao qual ele não pode enganar. Esta disciplina tem que ser algo de ferro, a gente não pode ceder nisto aí, é isto que mantém a sanidade humana. Não adianta você mentir para si mesmo, se você mente três vezes para si mesmo, seu Q.I. de 250 cai para 12,5. A inteligência é fruto da verdade.”

Violência e criminalidade

Trecho de uma discussão sobre um tema que considero fundamental. Acréscimos e comentários serão muito bem-vindos.

A violência cresce porque há dois processo graves em andamento: de um lado a organização do crime, de outro lado a desorganização da sociedade.

O poder da sociedade — se um dia ela o teve — estava em sua capacidade de se organizar, ainda que apenas para combater males comuns. Há inúmeros relatos de que esse é o principal valor dos países que “deram certo”. Nos EUA, o senso de comunidade, a despeito de qualquer individualismo que possa ser usado como acusação àquele país. No Japão, é emblemática a união das pessoas durante tragédias naturais, como tempestades e terremotos; a despeito da forte influência do ocidente, a tradição ainda é algo fortí­ssimo por lá, a vontade de preservar isso também é um fator de união e organização.

Criminosos adquiriram poder quando começaram a se organizar. Complementarmente, o Estado tem sido cada vez menos eficiente ao garantir os direitos mí­nimos e a sociedade se tornou cada vez mais desorganizada.

Apenas um exemplo banal, mas que explica algumas coisas.

Uma das conseqüências do aumento da violência nas cidades foi a fortificação das residências. Muitas casas hoje têm muros altos. Uns meses atrás uma reportagem mostrou que bandidos preferem justamente estas àquelas que têm apenas gradis ou muros baixos, justamente porque no primeiro caso a visão desde a rua é totalmente impedida. Decerto os muros altos dificultam um tipo especí­fico de invasão de domicí­lio (vencer barreiras verticais), mas apenas um. E, uma vez lá dentro, o bandido terá toda liberdade para agir sem ser incomodado.

Uma leitura fundamental para entender esse processo é Bandidos e Letrados, de Olavo de Carvalho.