Roda baleiro

cat pidgeon
Almoço de domingo

— Sustentável e ecológica de verdade era a casa de meus avós, não as porcarias de 20 andares que fazem questão de exibir o rótulo. Lá havia um quintal com couve e alface, maracujá, maçã, abiu, abacate, galinheiro, vira-lata solto, frestas para esconde-esconde e silêncio — isso tudo no miolo da Baixada Santista. Quem, hoje, é capaz de projetar e empreender algo digno de ser chamado de moradia?

— Vi Alice no País das Maravilhas. Bom, divertido, vale a pena, mas tive a sensação de que meu colesterol subiu alguns pontos depois do filme.

— Vi também Whatever Works. Eu provavelmente teria apreciado mais o livro, embora eu e minha amada lembremos sempre que um Woody Allen razoável é sempre melhor do que qualquer blockbuster acima da média. E o diretor continua genial para construir loiras burras — v. Mighty Aphrodite, Small Time Crooks e, claro, Match Point.

Melhor artigo deste ano até o momento. Note como muitas coisas derivam do estado de coisas descrito pelo filósofo. O problema, de verdade, é que as pessoas acham que tradição é um velho moribundo resmungando memórias que deve ser ouvido justamente porque se trata de um velho moribundo resmungando memórias.

“Caso hajam trabalhadores alojados, é obrigatório ter lavanderia e área de lazer”. Só existe uma coisa pior do que ser reprovado numa prova: ser reprovado numa prova em que você encontra erros de português.

— Sempre quis um Moleskine, mas sempre achei que o preço era desproporcional à qualidade do produto. Semana passada encarei alguns tutoriais e fiz um pra mim. Não ficou excelente, mas ficou bom e funcional — aliás, bem melhor do que os cadernos que eu usava antes, com espiral, também feitos à mão. Tutoriais, aqui e aqui. Imagem do caderno que fiz, aqui e aqui. Tomando de empréstimo o nome usado no tutorial brasileiro, minha amada batizou meu caderno de molespobre.

— A Academia é isto aqui.

— A felicidade suprema é ter a liberdade para ser rabugento sem o risco de ser levado a sério.

Coisas de cidade pequena.

Chute na canela dos relativistas.

E chega porque está tarde, é domingo e vocês têm mais o que fazer.

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Adesismo e desobediência

Conseqüência, idéia, pólo, enjôo, tranqüilo, auto-estrada.

Estas e outras palavras continuarão a ser grafadas neste blog como sempre foram: com português correto, brasileiro, não-unificado e distante das mãos polutas de políticos que mal conseguem escrever “assessor” sem consultar o próprio.

O que impressiona na reforma ortográfica é o adesismo. Tão logo aprovada a reforma, ela foi prontamente adotada pelos meios de comunicação — todos eles. Desconheço exceções. Por que a pressa? Por que a pronta adesão a tudo que vem de cima?

(Não sei a quantas anda a população — a maioria também não sabe como escrever “assessor”, flerta com o miguxês e certamente ficou aliviada por poder dispensar o trema.)

De minha parte o que posso fazer é desobedecer e sugerir que mais e mais pessoas façam o mesmo. Por quê? Alguns motivos muito simples:

1) Políticos não têm autoridade para instituir o que quer que seja no que diz respeito ao idioma que usamos. Pode-se argumentar que foi formada uma equipe de lingüistas e que os estudos e opiniões deles é que determinaram a reforma ortográfica. Tanto pior, pois demonstra que políticos simplesmente não conseguem pensar sozinhos e não entendem dos assuntos que discutem, aprovam e desaprovam.

2) Um dos objetivos da reforma ortográfica foi unificar o português utilizado em países tão diferentes como Angola, Portugal e Brasil. Numa escala nacional, isto equivaleria a querer que os baianos parassem de falar “ó xente” e que os gaúchos parassem de falar “bah tchê”. Experimente dizer a um inglês que o idioma que ele fala é igual àquele falado pelos norte-americanos.

3) No que diz respeito ao idioma, existe algo muito mais importante e preocupante do que um punhado de acentos: a novilíngua que é o que proíbe que uma abortista seja chamada de abortista.

4) No que diz respeito às ações políticas (e a reforma ortográfica foi uma ação política), deve-se perguntar sempre duas coisas. Primeiro, quem está propondo; geralmente a simples identificação das pessoas, grupos ou instituições responsáveis pela proposta elimina qualquer dúvida sobre suas motivações reais (isto é, não divulgadas). Segundo, quem se beneficia com a proposta; não se surpreenda se houver um abismo separando as evidências e as intenções declaradas. A reforma ortográfica não sobrevive a estas duas questões.

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Aproveite esta oportunidade

faixa ortografia
Faixa colocada à frente de escola estadual na Zona Oeste de São Paulo. É a novícima ortrografia em assaum.

Sei que perto disto, a faixa aí é fichinha. Mas valem o registro e 30 segundos de reflexão sobre a ironia subjacente.

Internet, pré-história

old google
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Eu sou do tempo em que as pessoas escreviam em blogs para falar como foi o último fim de semana, com quem ficaram, qual o mico do dia, como estava o humor e o que viram na TV. Se isso soava pretensioso e desagradável — porque é pretensioso e desagradável supor que seu cotidiano pode interessar a alguém além de você e seus amigos –, compare com o que se faz hoje nos blogs e sites por aí.

Eu sou do tempo em que Ajax era desinfetante. Tenho saudades do HTML; meu primeiro site era feito no Word. Conteúdo era o que se pretendia transmitir, contar, vender, não apenas mostrar. Hoje mostram-se coisas demais. O limite do mau gosto foi ultrapassado em algum momento muito antes do Google engatinhar.

Eu sou do tempo em que só havia ICQ — e ele era usado para conversar, não para trocar emoticons ou fazer a janela do bate-papo tremer. Ok, também havia mIRC (ainda existe, mas você conhece alguém que ainda usa?). ICQ e mIRC eram de um tempo em que se escrevia mais ou menos corretamente e o erro não era motivo de orgulho, tampouco uma bandeira do próprio governo.