Manifesto horizontalista

edificio
Um apartamento ou a cabine de um dirigível?

Santos acabou. Desconheço os detalhes políticos e burocráticos que causaram isso. O que sei é que há alguns anos políticos aprovaram a ampliação do gabarito dos edifícios nesta cidade e que antes havia prédios de no máximo 8 ou 9 andares e hoje há vários edifícios com mais de 20 andares surgindo como perebas no rosto de um adolescente.

(A imprecisão dos números deve-se ao fato de que a vertigem não me permite terminar a contagem: quando passo do décimo andar, o olhar se afasta definitivamente do chão e vem o desequilíbrio. Desisto de contar e de alimentar qualquer tipo de revolta diante de algo que é infinitamente mais sólido do que eu — sim, os arranha-céus continuarão ali quando eu já tiver ido.)

As obras são vistas como progresso. Os prédios são considerados mais bonitos porque são esguios. Sério.

Eu me pergunto como essa gente consegue viver sem sol. O bolor logo os expulsará de seus apartamentos, pouco importa a quantidade de lazer que haja ao redor, pouco importa o preço por metro quadrado. Se o bolor não o fizer, os carros os impedirão de chegar aos imóveis. Simplesmente não há como imaginar uma boa cidade que subitamente abre as comportas para a duplicação da população sem considerar a impossibilidade de ampliar sua malha viária — para citar apenas um item óbvio. É a coprofagia como lema urbanístico, só pode ser.

Quem se atreve a falar sobre isso como eu me atrevo acaba tendo três destinos diferentes em função de seu status social.

Continuar lendo

Arquitetura e mau humor

casa costeira
*

— O bom arquiteto é aquele que ao menos vislumbra a possibilidade de não construir. Ainda que ele sempre conclua que é melhor construir — por razões que não vêm ao caso discutir agora —, ajuda muito se ele considerar a opção contrária. Explicações a seguir.

— O provérbio alemão diz: “Cala-te ou diz qualquer coisa melhor que o silêncio”. Analogamente, em arquitetura é interessante que haja sempre a chance de não construir se a obra ou projeto não se mostram melhores do que a área que se pretende modificar. Se sua arquitetura não é capaz de tornar o lugar melhor, por que construir?

— A qualidade da arquitetura deve ser avaliada com base não apenas naquilo que ela é — porque um quarto sempre será melhor do que o relento para quem o habita —, mas também naquilo que ela propõe, modifica e ocupa. Um lugar nunca será o mesmo depois que recebeu uma nova casa; ela o modifica tanto quando é influenciada por ele.

— Com base no que foi dito até agora, não é heresia alguma dizer que a Casa Kaufmann (vulga Casa da Cascata) é uma obra de gosto duvidoso, beirando o cafona. É preciso ser muito cafona para olhar uma cachoeira e concluir que ela ficará melhor com algumas lajes de concreto e umas colunas de pedra. Alguém aí tem uma foto da cascata sem a Casa da Cascata?

— Uma casa deve tornar o entorno melhor e não apenas tornar-se melhor por causa dele. Apesar disso, o umbiguismo de arquitetos e engenheiros não leva em consideração o impacto de suas obras na paisagem; via de regra, toda casa com vista para o mar exige que o mar tenha vista para ela, na expressão muito precisa de um amigo atento aos micos construídos na cidade em que vivo.

— Séculos se passaram e boa parte da arquitetura continua se resumindo em fincar bandeiras e marcar territórios. Pode não ser um problema se pensarmos em lugares tenebrosos, como certos recantos da Grande São Paulo (à parte a discussão sobre os fatores que os tornaram tenebrosos), mas vendo isto começo a pensar que nem todos lugares precisam de bandeiras, construções ou gente.

Árvore

beforethestorm
Clica na imagem para ampliar. Para usar a imagem ampliada como papel de parede, clica com o botão direito e escolhe “definir como papel de parede” ou algum item que pareça com isso.

A paisagem transformada

Christian Rocha
Jornal da Ilha
Setembro de 2006

O espetáculo não diz nada além de “o que aparece é bom, o que é bom aparece”. A atitude que por princípio ele exige é a da aceitação passiva que, de fato, ele já obteve. — Guy Debord

O início da segunda fase da reforma da Praça da Bandeira causou muita confusão. Muitas pessoas criticaram os cortes de árvores. O lugar que existia não existe mais. E até o final das obras as mudanças continuarão — para melhor, eu espero. Mas por que arrancar tantas árvores?

Há três argumentos. O primeiro diz que as árvores eram exóticas. De fato, eram exemplares antigos da falsa-seringueira (Ficus elastica), originária da Índia, portanto, sem grande valor para o ecossistema da Mata Atlântica. Mas o critério ecológico é apenas um entre tantos outros. A aceroleira, a bananeira, o hibisco, o chapéu-de-sol e a mangueira são espécies exóticas. É difícil imaginar o litoral paulista sem estas árvores e arbustos. Na primeira fase da reforma da Praça da Bandeira, uma antiga mangueira e um grande chapéu-de-sol foram preservados. Continuar lendo