O petismo II

absurd gun

Pior do que eleição é ter que discutir com quem entrou no debate sem qualquer condição de debater.

Oras, para ser candidato o sujeito só precisa provar que é alfabetizado e, se o tal Ficha Limpa é a sério, que não está sendo processado por alguma merda que fez recentemente. Ou seja, se o sujeito for analfabeto funcional e tiver feito merda mas não estiver sendo processado, sinal verde para sua candidatura a qualquer cargo político.

Então, reprise: pagodeiros, ex-guerrilheiras, atores e atrizes pornô, palhaços, sindicalistas profissionais, professores grevistas, jogadores de futebol, corruptos e mentirosos assumidos — todos estão aptos a se candidatar e alguns se elegem e se reelegem.

E não é apenas com eles que você precisa discutir caso queira manter vivas as esperanças de que a política adquira alguma decência: você precisa discutir também com os eleitores deles.

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Exemplo colhido a esmo:

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Sólida instituição ilhabelense

fofoca
(link da imagem)

Não é a Prefeitura, não é a Câmara ou o Fórum. Também não são as rarefeitas tradições caiçaras ou a família ou o casamento ou o veranismo. A mais sólida instituição ilhabelense é o boato — também conhecido como fofoca, mexerico, fuxico, babado, tramóia, intriga ou, no jurídico, difamação.

Você certamente já ouviu um. Talvez já tenha ajudado a passá-lo adiante. Talvez até tenha feito isso sem perceber que se tratava de boato, apostando na veracidade do que ouviu e na possibilidade daquilo ser útil e bom. Só que tem um problema. Um não, vários. Continuar lendo

Politicamente atrofiados

urna eletrônica
(link da imagem)

Apesar da massa comum que disputa as eleições a cada dois anos — gente como eu ou você, ou um pouco menos —, é comum também a idéia de que o sistema político é complexo, insondável e incompreensível. Até hoje eu não sei de quê são feitas as leis, de onde elas vêm, do que se alimentam, e raramente encontro quem possa me explicar todas essas coisas. Eu vejo o noticiário político e imediatamente me vêm à cabeça todas as profecias sobre o surgimento do Anticristo, que, afinal, não é uma pessoa, mas um sistema, uma massa ou um labirinto. O nome desse labirinto é política. Candidaturas são a expressão do desejo de encontrar a saída desse labirinto e depois cobrar ingressos para que outras pessoas possam refazer o caminho dentro dele. O voto é uma espécie de aposta que se faz na capacidade daquele sujeito encontrar a saída do labirinto, mesmo quando ele está visivelmente mais perdido do que todos nós.

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Coligações e outras sujeiras

coligação

Não fossem cômicas, seriam um pouco trágicas para o município as coligações e parcerias que têm sido formadas para as eleições deste ano. Não digo com isso que certas inimizades políticas devam ser mantidas eternamente ou que não possa haver convergência de interesses. As pessoas mudam, os objetivos mudam e a conjuntura muda e indica direções diferentes daquelas observadas nas eleições anteriores.

O que impressiona é perceber que não houve mudanças conjunturais significativas. As pessoas continuam as mesmas e os objetivos são iguais aos da eleição passada. A despeito disso, os dois sujeitos que ontem não se bicavam, hoje aparecem nas fotos como melhores amigos — unidos para conquistar o poder público municipal. Aqueles outros dois sujeitos, que já trocaram ofensas pessoalmente ou através da imprensa, hoje trocam alianças e seguem de mãos dadas para o pleito de outubro.

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Política, mal necessário

Nunca apostei demais na política e nos políticos, mesmo no auge da adolescência. Tive amigos que panfletaram durante a campanha pelas eleições diretas. Alguns fizeram campanha para Collor. Outros, ainda mais visionários, apostaram em Lula. O rumo que o país tomou através da política, o próprio tempo e a atenção dispensada às peculiaridades da política local tornaram-me cético. Hoje eu acredito naquilo que um político diz na exata proporção em que ele é capaz de se manifestar e viver como pessoa em vez de se manifestar e viver como político — as diferenças são evidentes.

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Estado Robin Hood

Eu rio consternado quando vejo pessoas inteligentes contando com soluções políticas para problemas políticos. A cidade em que vivo foi tomada de assalto pela construção civil, pela migração e pela desordem que surge quando estas duas coisas são feitas sem qualquer respeito às conseqüências. A solução: candidatar-se nas eleições de 2008, fazer justiça com as próprias mãos.

Eu não pretendo fazer eu mesmo aquilo que essa patota não fez e não fará. Por que?

Primeiro porque eu prezo minha integridade mental. Eu acredito que há algo em cargos políticos que torna as coisas doentias demais. Eu não me refiro à corrupção, nem pretendo buscar explicações para esse desvio. Eu me refiro a coisas mais simples, como o desejo de escolher nomes de ruas, a busca de verbas para o desfile do Bloco do Quiririm, as moções de repúdio e de louvor e de sei-lá-mais-o-quê. Um pouco de inteligência e de senso do ridículo economizariam saliva e dinheiro e talvez criassem espaço para que questões elementares como saneamento e segurança fossem de fato resolvidas.


O dia em que me envolvi seriamente com política

Segundo porque eu prezo minha integridade física. Estado bom é o Estado mínimo, qualquer que seja a escala — municipal, estadual ou federal. Enxugar a máquina administrativa é a parte fácil. Difícil é ensinar à população que a prefeitura não é empresa e, portanto, ela não tem a menor obrigação de fornecer emprego a quem quer que seja. Para esse pessoal, o máximo da justiça social é o Estado Robin Hood.

Eu estou fora.