Político não vai à praia

dante hell
Câmara Municipal de Jiripoca do Norte em dia de sessão.

Uns dirão que político não vai à praia porque não tem tempo, o que é verdade. O trabalho político costuma ser bem exigente e raramente deixa algum tempo para o lazer. Além disso, alguns eleitores considerariam uma tarde na praia um luxo descabido, um desperdício do tempo precioso do homem público — tempo este que custa caro aos cofres públicos. Eu não penso assim; em muitos casos, uma tarde na praia pode ser uma excelente oportunidade de confrontar-se com certas realidades que ultrapassam os limites de um gabinete.

Uma coisa é ouvir as queixas dos moradores do (fictício) Jardim Sassafrás num gabinete ou nos corredores de uma repartição pública. Outra coisa bem diferente é ir até lá e sentir a catinga do esgoto a céu aberto ou arrebentar o próprio carro em um dos buracos que transformaram as ruas do bairro em trincheiras da Primeira Guerra. Uma coisa é reunir-se com técnicos para discutir soluções para o trânsito. Outra coisa é dar o exemplo, ir ao trabalho de bicicleta todos os dias, com chuva ou sol, e encarar uma ciclovia claudicante, cachorros que se alimentam de canelas, hordas de moleques irresponsáveis apostando corrida e ameaças homicidas de caminhões enferrujados.

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Reflexão tardia…

politicos
(link da imagem)

…que talvez seja útil para as próximas eleições, em 2010:

No Brasil, o que leva uma pessoa a filiar-se a este ou àquele partido?

Não há aqui, como há em outros países, diferenças importantes entre as diferentes legendas políticas. Você vê alguma diferença entre PMDB e DEM? Entre PSDB e PPS? PTB e PR? Entre os partidos menores as diferenças são ainda menores. As exceções são poucas e, no fim das contas, acabam confirmando a regra.

O PT, por exemplo, pode ser considerado uma dessas exceções — tanto que existe o petismo, mas não existe o peemedebismo ou o petebismo. No entanto, depois de algumas conquistas políticas, o PT revelou seu principal objetivo: ser como qualquer outro partido, submetendo a ideologia à necessidade de conquistar e manter o poder.

O PCO e sua versão menos hilariante, o PSTU, são exemplos que reforçam a tese anterior a respeito do PT: só são o que são porque não têm poder.

O PRONA morreu com seu fundador, o Dr. Enéas — e neste caso não havia diferenças entre o partido, a ideologia, o estilo e o saudoso barbudo. Mas também neste caso não havia razões para imaginar que o PRONA manteria sua firmeza ideológica caso chegasse ao poder.

*
Há, além disso, um outro aspecto: pelo fato dos partidos não terem ideologias e diferenças bem definidas, o eleitor acostumou-se a votar em pessoas. Mesmo os petistas acostumaram-se com isso (embora hoje sejam recusados justamente por culpa de seu petismo). Elegemos pessoas, não partidos. É claro que os políticos sabem disso; mesmo assim eles escolhem um partido, filiam-se e candidatam-se e atuam de modo a manter esse vínculo. Por que? Como nasce essa escolha? Como e por que ela se mantém? E mais importante: como ela se justifica?

O troço preto

Se eu tivesse que explicar a um estrangeiro como funcionam as leis brasileiras, eu daria apenas um exemplo.

Recentemente o Senado aprovou o projeto que libera o uso de insulfilm mais escuros nos vidros dos carros. O uso desse tipo de película torna impossível ver o interior do carro e, portanto, inúteis as leis que proíbem usar o celular ao volante e dirigir com uma mão só.

Caso o motorista opte por usar o troço preto, ele estará automaticamente dispensado de cumprir outras duas leis do Código Nacional de Trânsito.

Aparentemente nem os legisladores conhecem as leis. Eu me arriscaria a dizer que a eles falta senso de organicidade — aquela visão que permite situar uma parte ou um objeto dentro de um conjunto ou sistema, maior e mais complexo, mais ou menos como explicava Aristóteles —, mas talvez falte algo mais simples e fundamental: saber lidar com os objetos e ferramentas do dia-a-dia.

Se fossem marceneiros ou alfaiates, passariam fome. Como são legisladores e vivem no Brasil, gozam gordo pasto.

Salinger & cia.

Mais do mesmo — para achar Marcio Thomaz Bastos a última coca-cola do deserto, basta ver quem é o novo ministro da Justiça. Daí eu lembro daquela frase “Nada é tão ruim que não possa piorar”.

Filmes — estive no cinema para ver Borat. A companhia era maravilhosa. O filme era muito fraco. Fez rir em alguns momentos e chegou a divertir, mas perdeu para reprises de Spiderman e de Nikita (a de Besson) que vi na TV dias depois. Não que eu esperasse que fosse diferente, mas o que se espera de um filme inédito é que seu ineditismo seja uma vantagem sobre qualquer reprise. Não foi este o caso.

Internet Explorer x Opera — ontem, acessando meu site num computador antigo (thanks, bro), percebi que ele fica com uma aparência estranha no Internet Explorer 6. Como sei que muitas pessoas ainda usam este navegador, sugiro a atualização para o Internet Explorer 7 ou, melhor ainda, troquem-no pelo Opera — de longe o mais rápido, mais completo e mais seguro navegador que existe.

Moribundo — fiquei de cama durante aproximadamente 36 horas no começo desta semana. É bastante curioso observar o mundo desde a horizontal obrigatória do repouso absoluto. Tudo muda quando você não tem forças sequer para manter-se em pé. Ainda que algumas leituras sejam prazerosas nessas condições, a cabeça não funciona adequadamente. Você pode até querer registrar a leitura, elaborar algum pensamento interessante a respeito disso, mas a impressão que vem é a de que uma energia preciosa (vital, naquela circunstância) será desperdiçada. E esta, entre tantas outras, é a lição que fica: pensar cansa. Não é algo ruim, tampouco deve ser evitado, mas é algo que cansa, que efetivamente consome energias, inclusive físicas.

Salinger — chego à metade de The Catcher in the Rye podendo dizer que este foi o primeiro livro em inglês que li inteiro e com interesse até o fim. (decerto é uma vergonha admitir isso; ter uma cultura limitada a textos publicados em português brasileiro é um desvio mortal em dias de hoje — leia-se “nos últimos 20 anos”). É um bom livro. A escrita é fluida e imbricada, fácil e psicológica ao mesmo tempo. A história pode não interessar a tantas pessoas — não ao ponto de justificar a fama que o livro adquiriu desde seu lançamento, em 1951 –, mas quem tiver interesse, pode baixar o e-book aqui.

Obrigações — eu não poderia ter ficado tantos dias longe de casa sem ter revisto uma lição que considero fundamental: a facilidade com que cada um de nós crê que o universo gira ao seu redor. Não é um egoísmo simples. É um egoísmo somado a doses consideráveis de arrogância e de preguiça. O problema não é espernear exigindo das pessoas aquela atenção que naturalmente nunca virá. O problema é que isso conduz a uma falha mais grave: esquecer das próprias obrigações e das próprias responsabilidades. O sujeito não se limita a cobrar de outrem algo cujo direito não lhe pertence, ele precisa ir além e virar o mundo de cabeça para baixo usando a suposta falta alheia como desculpa para cometer faltas muito mais graves e elementares. Mais ou menos como se o fato de o padre mastigar de boca aberta desse ao coroinha o direito de arrombar a caixinha da igreja e gastar tudo em tóchico a ser consumido durante a missa.

Vida pública

Eu admiro as pessoas que têm estômago para acompanhar a política nacional — sinal de que nunca sofrerão com comida baiana. Mas não as invejo.

Eu não vou mais escrever sobre política. Vou escrever sobre os políticos. Não quero saber de emendas, de projetos de lei, de discursos. Quero saber de xampus, de piscinas, de quadros na parede, do trato com empregadas domésticas, de leituras no banheiro. Ultimamente, o que um político faz na intimidade do lar é muito mais importante e decisivo para o país do que aquilo que ele faz publicamente ou diz diante das câmeras, sob os holofotes da TV Senado ou da TV Câmara ou para o Jornal Nacional. Nestas situações, tudo é permitido.

Se o sujeito desvia verba nos porões do Congresso, o pior que acontece a ele é engordar de tanto comer pizza. Quero ver esse sujeito desviar verba na casa dele, deixar a mulher e os empregados sem dinheiro, limar o cofrinho dos filhos, dar pão duro para os cães.

*

“Não faça na vida pública o que se faz na privada”. A frase de pára-choque de caminhão esconde a vantagem de se fazer exatamente o contrário do que ela aconselha: sentado e relaxando entre quatro paredes azulejadas, ninguém consegue ser desonesto.

O noticiário político seria muito melhor se as câmeras fossem instaladas nos banheiros do Congresso Nacional.

Fight!

Parlamento de Taiwan:

Taiwan
PIB per capita: US$25.300
IDH: 0,91 (27º)
Analfabetismo: 3,9%
Desemprego: 4,5%
Mortalidade infantil: 6,4/1000 nascimentos

Parlamento do Brasil (Senado):

deputados1.jpg

Brasil
PIB per capita: US$8.584
IDH: 0,792 (69º)
Analfabetismo: 13,6%
Desemprego: 11,5%
Mortalidade infantil: 29,61/1000 nascimentos

(Fonte: Answers.com)