Pogréço

As coisas vêm até você e você acha que deve aceitá-las, você acha que depende delas para viver e você acha que elas são o mundo. Mas o mundo está dado desde que você nasceu. A internet, os 400 canais na TV a cabo e as câmeras digitais, a rigor, não são nada.

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Perceba que não houve, desde que você nasceu, nenhuma grande inovação ou invenção da qual sua existência dependesse irremediavelmente. Quero dizer, se o mundo permanecesse exatamente como era quando você nasceu, talvez você até estivesse melhor hoje.

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Publicidade é para retardados; é triste verificar sua onipresença. Nada contra quem a faz, que geralmente são pessoas bem inteligentes, mas um dos pressupostos da publicidade é a idéia de que a imagem de um objeto é capaz de agitar a alma do consumidor ao ponto de tornar-lhe irresistível a idéia de que ele precisa comprar aquilo. Pior é que agita.

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O lenitivo mais alto que se pode encontrar hoje em dia é recusar as coisas que o mundo oferece. Desconfie de um mundo que exige roupas novas (v. Thoreau). Submeta as oferendas desse mundo à mais breve análise e verá a falsidade e a picaretagem de cada uma delas. Não existe almoço grátis. Hoje, tudo é Photoshop.

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Não basta ter nascido neste século para ter acesso a tantos gadgets por um preço que no passado não pagaria um livro sequer. O preço das coisas foi pulverizado em décadas de trabalho e pesquisa. O que a etiqueta mostra é uma parcela irrisória do custo real; ela esconde — para satisfação dos seus autores — todos os custos indiretos, até mesmo o trabalho que você teve para obter o dinheiro necessário para adquirir aquele produto. Você se deslocou até seu trabalho, desempenhou sua função, consumiu alimentos, roupas, combustível e tudo que você produziu genuinamente foi esgoto e lixo. Se o mundo tornou-se melhor pelas suas mãos, isto não é regra, mas exceção — no máximo você torna seu estabelecimento melhor, mas isto é diferente de priorizar o bem para depois conquistá-lo dentro do perímetro restrito de suas atribuições.

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A idéia que as pessoas fazem do progresso é equivocada. A Nona Sinfonia foi feita com tinta e papel. A modernidade subseqüente não foi capaz de produzir um novo Beethoven.

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Blogosfera, 2008

Eu não sei por quê — posso imaginar –, mas tenho tido a sensação de que muitos blogs estão passando por um processo semelhante ao de alguns canais de TV pagos: no início, o grande diferencial era ter uma programação interessante e especializada (só programas de bichinhos ou só sitcoms ou só filmes) sem intervalos comerciais. Com o tempo, a programação tornou-se menos interessante e especializada — mas continuou minimamente interessante e especializada — e vieram os intervalos comerciais. Depois, a programação tornou-se repetitiva e ainda menos interessante e especializada e o tempo dedicado a intervalos comerciais igualou o tempo dedicado à programação propriamente dita — ao ponto de não sabermos mais se o canal era de filmes, de sitcoms ou de anúncios.

É isto que alguns blogueiros e webmasters chamam de monetização?

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Não tem preço

não tem preço

Fala-se com certo orgulho da publicidade brasileira. Campanhas publicitárias são comparadas com obras-primas cinematográficas, como se a publicidade fosse a oitava arte e como se criar essa imagem não fizesse parte do trabalho das próprias agências. Propagandas geniais não são regra. Para cada 30 segundos de mensagem profunda e sincera há horas e mais horas de gritaria, ofertas explosivas, patrões loucos, degradês e letras garrafais. Aqueles 30 segundos geniais criaram um território de tolerância. Enquanto espera os próximos 30 segundos geniais, você tolera propagandas de cerveja, as letras miúdas dos comerciais de automóveis, a poluição sonora dos comerciais das Casas Bahia, até aqueles comerciais descaradamente mentirosos de produtos milagrosos de que você nunca precisou.

O que não tem preço, de verdade, é o respeito. O problema é que em breve muitas pessoas pagarão somas generosas para não serem tratadas o tempo todo como clientes ou consumidoras — e, é claro, não verão qualquer contradição nisso.

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Rebanho, a gente vê por aqui II

são jorge cerveja
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O que mais me chateia nas propagandas de cerveja é a idéia de que uma bebida gelada e amarga possa servir para ocasiões tão distintas como a de uma cantada bem-sucedida e a do nascimento de trigêmeos. Quem acabou de ter trigêmeos deverá se ocupar com os cuidados aos recém-nascidos. Quem teve êxito ao cantar uma moça deverá se ocupar com os passos seguintes. Imaginar que beber cerveja seja a melhor coisa a fazer nestes dois momentos e em muitos outros, todos uns diferentes dos outros, é uma estupidez descomunal. Continuar lendo