Testemunho

Há na vida momentos privilegiados em que parece que o Universo se ilumina, que a nossa vida nos revela sua significação, que queremos o destino mesmo que nos coube como se nós mesmos o tivéssemos escolhido; depois o Universo volta a fechar-se, tornamo-nos novamente solitários e miseráveis, já não caminhamos senão tateando num caminho obscuro onde tudo se torna obstáculo aos nossos passos. A sabedoria consiste em salvaguardar a lembrança desses momentos fugidios, em saber fazê-los reviver e fazer deles a trama da nossa existência cotidiana e, por assim dizer, a morada habitual do nosso espírito.

Não há homem que não tenha conhecido tais momentos, mas ele os esquece depressa como um sonho frágil, pois ele se deixa captar quase imediatamente por preocupações materiais ou egoístas que ele não consegue atravessar ou ultrapassar, porque ele pensa reencontrar nelas o solo duro e resistente da realidade. Mas aquilo que é próprio de uma grande filosofia é reter e reunir esses momentos privilegiados, mostrar como são janelas abertas para um mundo de luz cujo horizonte é infinito, do qual todas as partes são solidárias e que está sempre oferecido ao nosso pensamento e que, sem jamais dissipar as sombras da caverna, nos ensina a reconhecer em cada uma delas o corpo luminoso do qual ela é a sombra.

«Témoignage» (Testemunho), apêndice do livro De l’Intimité Spirituelle (Da Intimidade Espiritual), de Louis Lavelle (1883-1951).

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Um aviso e duas perguntas

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Retornarei depois do feriado, período em que dedicarei meu tempo à minha menina e à conclusão de meu mestrado — sobre isto, falarei no momento certo.

Por hora, tentem responder as questões abaixo, cujo cerne talvez seja objeto de posts futuros.

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A fome ou a sede predispõem o indivíduo à eliminação da fome e da sede. Não existem indivíduos mais dispostos a receber água e comida do que o faminto e o sedento.

A ignorância, no entanto, não torna o indivíduo mais permeável à sabedoria; ela nem ao menos o leva a querer saber aquilo que ele não sabe. De um modo geral as pessoas se satisfazem com o pouco que sabem e o muito que ignoram; algumas chegam ao cúmulo de sentir orgulho dessa estreiteza. Em outras palavras: as pessoas que mais precisam de sabedoria, de inteligência e de conhecimento são aquelas que mais facilmente dispensam estas coisas. Estas pessoas não sabem que não sabem, não sabem que precisam saber e acreditam que já sabem tudo.

Vêm daí duas perguntas:

— Por que as pessoas são assim?

— É possível compartilhar conhecimento sem ser vítima do orgulho que as pessoas têm da própria ignorância?

(É claro que sei que parte dessas ponderações inclui a presunção de que o conhecimento é necessário para outrem, o que é algo bem parecido com ir à TV e dizer que você precisa de um novo secador de cabelos. Seja como for, eu aceito ser chamado de presunçoso desde que o leitor se disponha a demonstrar que o conhecimento pode não ser um bem necessário)

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Lemas

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sabedoria

— Encontrar algo que lhe faça bem e que lhe proporcione prazer, que faça bem às outras pessoas e que você possa e queira fazer por toda a vida.

— Pensar em qualquer coisa, desde que a mente saiba quem manda em quem. Falar apenas coisas boas. Pensar é filosofia, meditação e autoconhecimento. Falar é sociabilizar-se, interagir, conquistar, compartilhar e oferecer.

— Não é necessário começar pelo corpo, desde que se reconheça sempre e em tudo que se faz a dimensão física presente em todas as coisas. “De dentro vem o que por fora se revela” (Lao Tzu).

— Prazer é um indicador, não a base de um código moral. Quando uma pessoa defende as benesses do hedonismo, tente descobrir nela as seqüelas de uma vida de excessos — invariavelmente você as encontrará.

— Não há problemas em não estudar. Nem todos precisam entender de filosofia ou geopolítica. O problema está em não evoluir. O problema está em não conhecer um pouco mais a própria natureza a cada dia e não se reconhecer hoje como alguém menos burro do que ontem. Para isso honestidade e a consciência das vantagens de evoluir — isto é, a certeza de que ser bom é bom e de que você está longe de ser suficientemente bom.

— A sabedoria se expressa de diversas formas. Mas há muito mais formas pelas quais ela se cala.