O design como ferramenta totalitária

Algumas palavras sobre a imagem do post anterior. Ou sobre como o design e a iconografia são usados como ferramentas totalitárias.

A imagem que tomou conta do Estado de São Paulo não é o símbolo de uma simples proibição. Não é uma iniciativa dos estabelecimentos, dos não-fumantes ou dos médicos paulistas. É uma iniciativa do Estado. Logo, era fundamental transmitir essa mensagem.

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Pense pequeno

small house

Você, morador de Ilhabela que raramente sai do arquipélago ou que, quando sai, raramente vai além de São Sebastião ou Caraguatatuba, deveria assumir o compromisso cívico de deixar a cidade uma ou duas vezes por ano com o objetivo estrito de visitar uma grande cidade, olhá-la com atenção e, pelo contraste, tentar entender o lugar em que vive, vislumbrar virtudes, problemas e perspectivas.

Para mim, as duas cidades que servem de referência para este exercício são Santos e São Paulo. Não vou perder meu tempo falando de São Paulo — os problemas da capital paulista são bem conhecidos, assim como suas poucas virtudes que ainda resistem ao caos de edifícios e automóveis. Costumo dizer que «caos» já não serve mais para definir São Paulo; esta cidade chegou a um nível em que o termo não dá conta do que acontece por lá.

A cidade de Santos merece um olhar mais atento. Continuar lendo

Ê, São Paulo…

sp congestionamento

Vejo num telejornal que o trânsito de São Paulo poderá parar — se nada for feito — em cinco anos. Lá para 2013 (não era esse o ano do fim dos tempos, segundo as profecias maias? bem, deixa pra lá…) os congestionamentos serão contínuos. O caos é feito de cidades com mais carros do que ruas.

Eu costumo pensar que «nada é tão bom que não possa melhorar, nem tão ruim que não possa piorar» e acredito que depois de 2013 muita porcaria pode acontecer no trânsito paulistano. Mas talvez o congestionamento total, ad eternum, seja o empurrãozinho que faltava para o paulistano i) mudar de cidade ou ii) desistir de usar carros diariamente.

É engraçado ver, no mesmo telejornal, pessoas se esforçando para resolver o trânsito de São Paulo. A solução é deixá-lo piorar, à própria mercê, agir como se não existisse (*), ir fazer outra coisa — metrôs, ciclovias, calçadas melhores. Dê os meios às pessoas e elas usarão carros cada vez menos. Por que? Porque não será prático, nem barato, nem bacana.

Carros, como todo objeto de consumo, continuam sendo derramados nas ruas porque ainda são um bom negócio — têm valor (financeiro e social) e cumprem o que prometem. Se isso mudar um dia, talvez São Paulo passe a ser movida por bicicletas ou pés ou cavalos ou alguma coisa que você já viu no desenho dos Jetsons.

O urbanista estava certo quando disse que a solução é fazer metrô. Foi uma forma polida de dizer que ele está se lichando para os carros.

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(*) o que, por algum motivo me faz lembrar disto: «use os meios mundanos como se não existissem os divinos; use os meios divinos como se não existissem os mundanos» — Baltasar Gracián

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Original da imagem aqui.

Odeio São Paulo

avenida são joão são paulo

A capital paulista tem sorte pelo fato de minha amada viver por lá. De outra forma, eu já teria transformado em alguma besteira a obrigação de ter de ir para lá semanalmente. A obrigação se encerrou esta semana.

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Quarta-feira passada eu tomei o ônibus mais lotado de minha vida. Foi uma viagem que durou 90 minutos, em pé, sob pressão de cotovelos e o bodum de axilas — fim de tarde, vale lembrar. Muita coisa ruim que eu ouvi sobre São Paulo fez sentido naqueles 90 minutos.

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Alguém pergunte aos grafiteiros paulistanos que valor há na transgressão que torna um lugar pior do que ele já é. Depois, bem depois, conversamos sobre a Vale.

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O sistema de transporte de São Paulo vai-se resolver com pés e bicicletas — porque não vai haver outra solução. Muito em breve.

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Falar em caos já deixou de ser lugar-comum. Tornou-se gentileza.

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São Paulo sabe ser cinza mesmo em dias de céu azul e sol.

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Ah, sim, cosmopolita: adiós / addio / auf wiedersehen / goodbye / adieu / さよなら, São Paulo.

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PS.: Eu seria injusto se não frisasse aqui a importância que minha amada e sua família tiveram e continuam tendo em meus dias paulistanos — não apenas os obrigatórios. Não fosse por ela e por eles, estar em São Paulo seria realmente insuportável. Eles me lembram que a capital tem coisas boas e que se existe um futuro para essa cidade ele está justamente nas pessoas e em sua capacidade de se reunir em torno de coisas simples, comuns e fundamentais, como divertir-se num fim-de-semana, preparar comida saborosa no fim de um dia de trabalho ou brincar com gatos. A eles — Tamara, Luiza, Celso, Danny, até mesmo Naná –, meus agradecimentos, de todo coração.

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Original da imagem aqui

Estética


Cemitério da Consolação, tarde de sexta-feira, 9 de dezembro

Se fosse necessário definir a cidade de São Paulo em uma única palavra, esta palavra seria “nojeira”. Os rostos das pessoas nos ônibus e no metrô; o trânsito que há muito já deixou para trás tudo que a palavra caótico poderia expressar; esbarrões e a total ausência de silêncio; acepipes gordurosos em lugares pestilentos; aquela dificuldade cruel para ver o céu e sentir o vento. E a pressa, todo o tempo. Tudo isso dá nojo.

Mas é também por sua nojeira que São Paulo vale a pena. No meio do lodo surgem pessoas, idéias, visões, cores e silêncios — e destas coisas as boas vidas são feitas, e elas são maravilhosas porque, afinal, surgiram onde menos eram esperadas.

Enquanto houver humanidade e senso estético, haverá vida.