Do silêncio

Talvez um dos dramas interiores mais peculiares pelos quais uma pessoa pode passar seja o de perceber certas verdades e não conseguir explicá-las às outras pessoas. Embora as palavras às vezes possam amenizar o problema, isto tem pouco a ver com a oratória ou a habilidade literária (ou a falta destas coisas), porque há também momentos (não raros) em que as palavras agravam o problema e mais confundem do que esclarecem.

Há um frase célebre de Wittgenstein que diz «onde não se pode falar, aí é preciso calar». Seria um conselho supimpa se o diálogo interior não fizesse parte da natureza mesma da mente: tão logo a percepção da realidade se conclui, a mente começa a se desdobrar num jogo dialético interminável, em busca de frases, fórmulas, julgamentos, slogans. Querer falar, mesmo quando não se pode, é algo genuinamente humano.

Onde não se pode falar, oras, buscam-se palavras adequadas (conforme ensina Olavo de Carvalho).

Místicos, mesmo os que não conhecem Wittgenstein, dirão que o silêncio a que o filósofo austríaco se refere é contemplativo. Ok. Mas eis que em algum momento você precisará olhar nos olhos de outra pessoa e dizer coisas sérias — suponhamos, coisas que não aconteceram, mas que você sentiu e que, portanto, não são menos verdadeiras apenas porque não se manifestaram como sons de sininhos ou como uma fome devastadora ou como uma topada num móvel num quarto escuro.

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Quando Pôncio Pilatos perguntou a Jesus «quid est veritas?», o Nazareno silenciou. A verdade estava ali, encarnada, inteira e plena diante de Pilatos, que, ao invés de reconhecê-la, me vem com um «posso ver o cardápio?».

Eu também peço o cardápio. A maioria das pessoas pede. Mas no fundo todos queremos ver a verdade encarnada diante de nós, mesmo que isso signifique ajoelhar, silenciar e chorar.

Spiegel im Spiegel

lonely

Minha culpa, minha máxima culpa. Confesso que não tenho tido a serenidade de recusar as vozes exteriores com a mesma força que costumo recusar as vozes interiores. Mas depois de yogar, respirar diversas vezes e recuperar o que restou de minha sanidade, vejo que não há diferenças importantes entre as vozes que vêm de fora e as que vêm de dentro. São gritaria sem sentido e como tais devem ser tratadas — como armadilhas, como obstáculos, como ameaças. Com freqüência essas vozes se travestem de conselhos sinceros, de desejos legítimos, de medos incontornáveis, mas são o que são: gritaria sem sentido. Raramente elas têm alguma conexão com o silêncio interior, raramente elas ecoam a voz de Deus.

Não se trata de permanecer em meditação, mas de perceber a importância do silêncio interior na realização das tarefas realmente necessárias — e agir em silêncio e buscando silêncio. Não se trata de eliminar as vozes, mas de eliminar aquilo que lhes dá origem e que as alimenta — talvez assim a legião se dissolva em indivíduos realmente conscientes da gritaria em que estão mergulhados e capazes de sair dela.

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Voz divina

monk praying

As pessoas têm medo de si mesmas. O consumo, o barulho, a sociabilidade excessiva — todas estas coisas são formas de dissolver a atenção e de desviá-la da única coisa realmente importante: você mesmo. Nem mesmo as religiões mais antropocêntricas são capazes de ampliar a compreensão que o indivíduo tem sobre si mesmo. O diálogo entre Deus e o homem fica reduzido a uma gritaria sem sentido, em que se assume que os dois são plenamente conhecidos.

Oras, se parece razoável perguntar quem ou o que é Deus, é ainda mais razoável e necessário perguntar-se quem você é e se a voz que se dirige a Deus é a sua própria. Deus não se importa com a sua desonestidade. Ele sabe quando você mente ou diz a verdade. A sua mentira não faz a menor diferença para Deus, mas faz alguma para você. Não existe código moral que o obrigue a dizer a verdade, mas não há dúvidas da importância de saber intimamente se o que você diz é verdade ou mentira. Saber o que se sabe e saber o que não se sabe — a sabedoria constitui-se, em grande parte, da consciência sobre a extensão do próprio conhecimento. Seja o sim sim e o não não.

Em outras palavras, a pior forma de dirigir-se a Deus é aquela em que não reconhecemos nossa própria voz. O primeiro passo é, portanto, reconhecê-la. Não é algo simples.

Se faz frio e você pensa “estou com frio”, é relativamente fácil saber até que ponto trata-se de uma reação autêntica. Pode-se admitir que seu corpo é algo que você pode controlar razoavelmente bem (a rigor, as coisas não são bem assim, mas isto fica para outra ocasião). Problemas começam a surgir quando começamos a falar de emoções, desejos e aversões. Pensar “estou com frio” é algo bem diferente de pensar “vou comprar um paletó” ou “não gosto desta blusa”. Sentir frio e pensar em como está frio são reações bastante naturais e espontâneas. Atenuar a sensação de frio com uma blusa de lã ou uma xícara de chá são ações decorrentes de várias outras coisas além do frio e do efeito do frio em seu corpo. Seu corpo sente frio, mas não é só seu corpo ou só sua mente que decidem vestir uma blusa quente ou beber chá. O que quero dizer é que a autenticidade de um gesto é diretamente proporcional à “distância” percorrida desde o objeto ou fenômeno observado até o gesto propriamente dito — e não é difícil perceber que quando a voz é a nossa própria, essa distância costuma ser bem pequena.

Se você consegue distinguir a própria voz, terá mais condições de distinguir cada voz do mundo e, conseqüentemente, saberá reconhecer a voz de Deus quando Ele se dirigir a você.

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SAP

yoda

Aperto a tecla SAP do mundo. Eis:

— Bla bla bla bla bla?
— Bla?
— Bla bla bla bla bla?
— Bla, bla…
— Bla, bla?!?
— Bla, bla!
— BLA BLA BLA BLA BLA!!!
— BLA BLA BLA BLA BLA!!!
— Bla, bla…
— Bla, bla…
— Bla.

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Sem pretensões

esqueleto

Sinto-me como se tivesse envelhecido 15 anos em uma semana e ainda não vejo a perspectiva de que certas texturas e cores retornem aos seus lugares de origem. As mãos estão lentas, o teclado parece um corpo estranho sobre a mesa, o que entra pela janela é vento frio e a luz é cinza.

Mas aos poucos a sensação de deslocamento se desfaz. Até mesmo Deus retorna ao lugar de onde jamais deveria ter sido tirado. A respiração retorna. O paladar já não é tão estranho e a água perde o sabor aos poucos. O apetite se normaliza e é possível caminhar daqui até ali sem desejar desfalecer. Suspiro por coisas que não vivi, não por aquelas que vivo todos os dias. Busco acréscimo, não repetição. Quero realizar, não insistir.

Tudo é muito estranho.

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Pior do que a constatação de ter passado três dias deitado sob febre branda e respiração ruim é a sensação de que deixar a juventude para trás é exatamente isso, perda de tempo. Nada mais, nada menos. Não há nada de genial nessa descoberta, apenas obstáculos e um apreço todo especial por um bom pijama, pelos cuidados maternos e por uma visita doce e inesperada.

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Nossa cachorra morreu, depois de 15 anos conosco — 15 anos de alegrias. Eu continuo preferindo gatos aos cachorros e cachorros vira-latas aos de raça. Mas Wendy, que não era gato e tinha traços de alguma raça que eu nunca me preocupei em saber qual era, deixou saudades.

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Eu não pretendo mais discutir. Isto é conseqüência inevitável da ausência de jornais, mas também é conseqüência inevitável de algum realismo. Eu não discuto porque eu não sei. Eu não discuto porque eu não quero. Eu não sei porque não quero saber. O que sei é que fiquei tempo demais na cama, que preciso me curar, que já me curei e que preciso me alimentar direito, que preciso dar aulas à noite, proteger-me do vento frio, por melhor que ele pareça ser no rosto, enquanto pedalo. Sei que preciso dormir e ter bom descanso. Todo esse conhecimento é simples e deveria bastar a qualquer pessoa. Esse conhecimento dispensa discussões. Eu não discuto com vírus, com termômetros, com o pratos de comida quente e com camas macias. Eu não discuto com pernas fracas e com a chuva lá fora. Eu discuto com coisas e pessoas de que não preciso e isso me faz pensar que não existe maior ofensa do que discutir: toda discussão traz em si a idéia de que você prescinde de muitas coisas e de muitas pessoas. Você sabe que não precisa das pessoas quando é capaz de discutir com elas ao menor sinal de contrariedade. E isso é um troço bem ruim, porque discordar falando baixo e escrevendo pouco é bom, humano, amistoso e, melhor do que tudo isso, respeitável.

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Uma das músicas mais adoráveis e despretensiosas já feitas chama-se «Jesus is a dying bedmaker», de John Fahey, um cara que apenas tocava um violão.

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Num de meus delírios febris, desejei que a explosão de ofertas das Casas Bahia fosse um fenômeno literal. Eu já não agüento mais o sobressalto dos decibéis toda vez que a TV anuncia mais uma «nova» explosão de ofertas. O mesmo vale para aquelas propagandas muito demoradas de máquinas de tortura exercícios milagrosas e para aqueles arrombados da Tecnomania que anunciam câmeras digitais vagabundas como quem anuncia a cura do câncer.

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É provável que eu me torne uma pessoa cada vez mais apagada pela necessidade de cumprir obrigações acadêmicas urgentes e pelo fato de só encontrar tempero ao lado dela. Mas eu aceito quem me escreva demonstrando a importância de discutir assuntos pertinentes como os crimes hediondos no Brasil e a ligação entre eles e a indústria do luxo e dos sistemas de segurança; o aquecimento global e o frenesi crescente por SUVs; o fetiche de jogadores de futebol pelo mau gosto puro e simples etc. etc. Prometo não morrer de tédio, mas adianto que ultimamente tenho encontrado mais valor e prazer numa xícara de chá do que nestes temas. Se você não pode me oferecer algo melhor do que uma xícara de chá, cale a maldita boca.

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Original da imagem aqui.

Apanhou pouco


Os japoneses são discretos por causa dos terremotos.

Por muitos séculos as paredes das construções tiveram que ser feitas de materiais muito leves — como o papel –, para que, no caso de um terremoto, os danos aos ocupantes fossem mínimos. Paredes leves têm performance acústica ruim, isto é, não impedem que sons passem de um cômodo a outro de uma construção, diferentemente do que ocorre com paredes de tijolos, de pedra ou concreto.

Diante da necessidade de preservar a própria integridade física no caso de um terremoto e de, ao mesmo tempo, conversar nos cômodos de uma construção à prova de terremotos, os japoneses não viram outra saída senão falar baixinho. E isso foi assim por muitos séculos, até que a mudernidade trouxesse paredes grossas, pesadas e à prova de terremotos. Mas já era tarde, porque os japoneses continuam falando baixinho, mesmo nas casas de Tadao Ando.

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É curioso perceber que essa tese diz mais a respeito do brasileiro do que do japonês.

O japonês apanhou muito. Guerras, terremotos, tufões. Aprende-se desta forma a usar a criatividade em coisas realmente úteis e boas — como fazer construções leves e falar baixinho.

O brasileiro, ao contrário, apanhou pouco. E é por isso que ele não sabe falar baixinho (mas não só por isso, é claro). E por não saber falar baixinho ele se acostumou a dar muita, excessiva atenção à própria voz e ao que supostamente é dito, sem perceber que o que é dito raramente ultrapassa a categoria dos grunhidos, dos rosnados e dos zurros.

Falta ao brasileiro o silêncio do falar baixinho. Falta ao braileiro apanhar um pouco mais.