Alquimia da revolução

Algumas considerações sobre a lei antifumo, recentemente aprovada pela Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo:

Maconha pode.

— Se o que interessava era a saúde da população, por que não começaram por algo realmente sério e que afeta todos?

— A proibição das áreas exclusivas para fumantes (fumódromos) demonstra a truculência do Estado, que só descansa quando as liberdades individuais forem terminantemente suspensas. Não se surpreenda se a criatividade dos legisladores propuser meios de proibir que você fume em sua própria casa.

— O argumento da inconstitucionalidade da lei antifumo — razoável, diga-se — pode sair pela culatra: não se surpreenda se a criatividade dos legisladores propuser a criminalização do tabaco.

Eis o início da sociedade da desconfiança e uma boa amostra do «solve et coagula» revolucionário — em que todo mundo cuida da vida alheia, mesmo que não seja capaz de cuidar da própria. O mais irônico é que o dedo-duro age em nome de um Estado que não descansará enquanto não suprimir todas as liberdades individuais, inclusive a do dedo-duro.

— Grande ajuda seria mostrar as ligações entre os hábitos individuais e a saúde — e exigir responsabilidade e ponderação no consumo de qualquer substância. É necessário proibir o consumo de veneno de rato? Não. É necessário proibir o sujeito de beber só manteiga de garrafa em vez de água (argh)? Não. Pode-se argumentar que veneno de rato e manteiga de garrafa não causam dependência, mas nestes casos, como no caso do cigarro, é universal a informação de que aquela substância não é boa para a saúde e de que é possível viver melhor sem ela. Cada pessoa é livre para fazer o que quiser com essa informação, inclusive ignorá-la. O Estado deve tratar os cidadãos como adultos normais e cobrar responsabilidade no exercício da liberdade individual, não suprimir essas liberdades para forçar as responsabilidades, tratando os cidadãos como retardados.

— É interessante notar que o argumento acima é usado com freqüência em benefício da causa maconhista (não me ocorreu expressão melhor). Mas o assunto em questão é o tabaco, uma droga lícita; trata-se do cerceamento e da criminalização crescente do consumo de uma droga lícita, não da descriminalização ou da legalização de uma droga ilícita. As diferenças entre uma coisa e outra, as conseqüências sociais e os principais interessados em cada questão são evidentes. Por isso, a maconha fica para outro momento e eu espero que ninguém apele para o item anterior para desviar a discussão.

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Fotos, votos e quimeras

smoking

— As coisas andam lentas por aqui porque eu estou numa fase mais visual. Não costumo misturar imagens com pensamentos — é como misturar fermentado com destilado –, mas talvez eu me arrisque em breve e tente transmitir aqui parte do que me veio à mente quando saí de bicicleta para fotografar.

— Minha avó fez 80 anos neste 8 de abril. Ariana, monossilábica e digna da vida longa que tem. Ela já não faz mais os bolos que adoçavam os domingos meus e de meus primos, mas segue como símbolo de muitas outras coisas boas. Que Deus a abençoe.

Páscoa é renascimento. Há data mais feliz e auspiciosa do que esta? Que todos celebrem com suas famílias e sejam igualmente abençoados com a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo.

— Poucas coisas são tão importantes quanto o bom coração. É virtude rara não ver o mal ao observar as ações de outrem. Você vê um motorista dirigindo perigosamente e sabe que pode imaginar que ele tem uma boa razão para ter pressa — e deseja, com sinceridade, que ele chegue salvo e em plenas condições de se refazer da perturbação em que se encontrava. Imaginar e desejar o mal é fácil; reconhecer o bem onde quer que haja chances dele existir, por menores que sejam, é difícil e necessário. Não há receita; há prática constante. Ter bom coração filosófica, intelectual e espiritualmente falando assemelha-se a tê-lo em termos fisiológicos — cuidado, atenção, exercício e nutrição.

A revista Claudia mergulhou definitivamente no lodaçal do aborto. Entre os sofismas aos quais a extensa matéria apela está a idéia de que a legalização do aborto é sinal de progresso e de que ser contra é sinal de medievalismo — assim, simplesmente, na cara dura mesmo; há até infográficos. Defender a vida não é algo que dependa do tempo, do lugar, da cultura; não há momento inadequado para defender a vida, não há cultura em que a morte de um ser humano inocente seja moralmente defensável e desejada. Só no mundinho satânico dos abortistas é possível lutar com todas as forças pelo direito de acabar com vidas inocentes e regozijar-se com isso. É a crueldade em seu estado mais puro. Aliás, quem quiser descer o porrete na revista Claudia, use este link.

— Só eu tenho nojo do racismo do presidente? Num país decente todo racismo é repudiado. Num país indecente, depende do matiz. Alguém pede explicações, mas não processa.

Deputados paulistas aprovaram lei antifumo que proíbe até os fumódromos. O cerco aos fumantes deixou as coisas assim: o único espaço fechado em que você pode fumar é a sua casa (permite-se o fumo em tabacarias, mas onde há uma? a mais próxima da minha casa fica a uns 250km daqui). Eu não gosto de cigarros, mas gosto menos ainda de quem queira interferir na liberdade de estabelecimentos comerciais — eles que se entendam com seus clientes e os deputados que procurem algo mais importante para fazer. O crime e o trânsito matam muito mais e cadê esse pessoal pago com dinheiro público fazendo algo?

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