Walden, Henry David Thoreau

    Por simples ignorância e equívoco, muita gente, mesmo neste país relativamente livre, se deixa absorver de tal modo por preocupações artificiais e tarefas superfluamente ásperas, que não pode colher os frutos mais saborosos da vida. A excessiva lida torna-lhe os dedos demasiado trêmulos e desajeitados para isso. Na realidade, o trabalhador não dispõe de lazer para uma genuína integridade dia a dia, nem se pode permitir a manutenção de relações mais humanas com outros homens, pois seu trabalho seria depreciado no mercado. Não há condições para que seja outra coisa senão uma máquina. Como pode ele ter em mente a sua ignorância — atitude indispensável ao crescimento interior — quando tem de usar seus conhecimentos com tanta freqüência? Às vezes, antes de julgá-lo, deveríamos dar-lhe roupa e comida, além de chamá-lo para beber conosco. As qualidades mais requintadas de nossa natureza, feito a pelúcia de certos frutos, só podem ser preservadas pelo manuseio delicado. E contudo, não nos tratamos assim ternamente, nem a nós mesmos, nem aos outros.

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O anticristo

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Lembra da Segunda Guerra Mundial? Naquela época todo o mal do mundo era personificado por Adolf Hitler. Se você era a favor do bem, bastava apontar seus rifles para a Alemanha nazista, mais precisamente para a testa do führer. Não é coincidência que Hitler tenha acabado junto com a Guerra, ou vice-versa.

Do parágrafo anterior, peço especial atenção à frase “o mal do mundo era personificado”. Analise-a com cuidado por alguns instantes e, à luz dessa análise, pense em outros fatos históricos. Note que na maioria dos eventos importantes da história do mundo o mal esteve personificado em uma pessoa ou em um grupo. Isto é, historicamente o mal sempre teve uma cara definida o suficiente para que não errássemos a mira. Bastava mirar o rifle e atirar.

(Até onde pude entender, a teoria de René Girard sobre o bode expiatório explica essa personificação em detalhes. Por enquanto, me interessa menos explicar a teoria do pensador francês — que, aliás, estou longe de dominar — do que compartilhar uma percepção apenas.)

Talvez não seja mais assim. Logicamente ainda existe um esforço ingênuo, quase romântico, no sentido de dar uma cara para o mal. Por exemplo, a esquerda associa o mal ao capitalismo — corporações e empresários mormente — de uma forma semelhante a que os moralistas usavam para associar o mal às moças impuras e às músicas demoníacas. Mas noto que essa associação torna-se cada vez mais difícil, dissoluta, obscura, ao ponto de tornar risíveis as pessoas que insistem nela. São românticos, caricatos e tolos, enfim.

É evidente que essa associação, isto é, a concentração de um significado em uma única pessoa, grupo ou instituição faz cada vez menos sentido. O mal não está nisto ou naquilo. O mal está em toda parte, pulverizado, diluído no ar, nos hábitos, nas idéias, nas informações. O mal está em mim, em você, ao nosso redor.

Talvez isso tenha começado precisamente com o fim da Segunda Guerra Mundial. A concentração de forças poderosas nas mãos de um único homem realmente não tinha como acabar bem (para esse homem). Sorte de quem combateu esse mal: eliminado o homem que o personificava, eliminava-se todo o mal, ao menos temporariamente. A lição parece ter sido absorvida pelas pessoas dispostas a continuar projetos de poder tão ambiciosos quanto os dos nazistas: hoje não há dúvidas de que o mal está tão presente quanto estava durante a Segunda Guerra e no entanto não há uma pessoa, grupo ou instituição a quem se possa atribuir a responsabilidade por todo esse mal.

Da forma como compreendo o assunto, esse mal pode não estar personificado e pode não ser facilmente identificado, mas pode-se atribuir-lhe um nome: Nova Ordem Mundial. Continuar lendo

Banalidades

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Deve-se partir do pressuposto de que até mesmo a mais banal das histórias poderá interessar a alguém. Com nomes corretos e o tempero de adjetivos adequados, você pode contar a história de uma cicatriz ou de um pão-de-ló ou de um tomateiro e ainda assim poderá ser admirado por sua habilidade para a escrita. Não tem nada a ver com mediocridade, seja ela fingida ou honesta, afetada ou espontânea. Também não tem nada a ver com naturalismo ou regionalismo, ainda que só possamos perceber as escolas literárias quando é tarde demais. Tem a ver com escrever e dosar a humanidade da própria escrita: em excesso, o texto torna-se mediocridade poética ou powerpoint; em doses insuficientes, torna-se filosofia ou artigo de jornal.

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Thoreau encontrou um lugar como grande escritor quando teve a idéia de fazer algo que em seu tempo já havia se tornado exótico: viver no mato (ou, em inglês, bosque). Conseguiu terra emprestada, construiu sua cabana às margens de um lago e viveu por lá durante dois anos caçando, observando pássaros, escrevendo e conversando com agricultores e lenhadores. Para quem vivia numa cidade, foi uma vida muito boa. Não consta que lhe tenha faltado pão quente.

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Sempre julguei que a vida ideal mesclava o isolamento do campo com os confortos das cidades. A distância ideal da cidade mais próxima é aquela que o desanima caso tenha que ir a pé, mas que pode ser facilmente coberta de riquixá movido a pedal — sem pressa.

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A gritaria dos cachorros mescla-se com o violão das caixinhas de som deste PC e com o papo insosso dos vizinhos — é a falta de discrição que os faz assim. Se falassem baixinho, poderiam conversar sobre a série C do Brasileirão que o papo soaria cavalheiresco e elegante, poderiam enfiar o dedo no nariz e comer de boca aberta que ninguém notaria.

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Original da imagem aqui.

Estado e autoconsciência

Quase toda lei é feita para forçá-lo a fazer a contra-gosto aquilo que, antes da lei, você podia fazer do seu jeito e com satisfação.

A diferença entre fazer uma coisa porque a lei manda e fazer a mesma coisa porque você escolheu é que a interferência do poder público quase sempre significa menos dinheiro nos cofres públicos e no seu bolso e menor qualidade na realização dessa coisa. O que o poder público faz para todos raramente é melhor do que aquilo que você mesmo faria por você.

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Interior da cabana de Thoreau, alguém que realmente sabia pairar sobre as leis e sobre o Estado.

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Original da imagem aqui.

Thoreau

“As nações estão tomadas por uma ambição insana em querer perpetuar sua memória pela quantidade de pedra esculpida que deixam. Que tal se desejo semelhante os fizessem polir e abrandar seus hábitos? Uma pequena parcela de bom senso seria mais memorável que um monumento tão alto quanto a lua.”

Trecho de “Walden”, de Henry David Thoreau (1817-1862), pensador e escritor americano.