A verdade não está lá fora

Tem como melhorar isto?

Para minha surpresa, mais de uma pessoa já me pediu conselho sobre como tornar Ilhabela um lugar melhorzinho. Aqui vão algumas linhas sobre isso.

Em primeiro lugar, eu não acredito que seja possível tornar Ilhabela um lugar melhorzinho. O lugar já é bom, as pessoas é que o estragam. Isto é bem óbvio, não? E se é óbvio, fica patente que pedidos como aquele e a idéia de que Ilhabela pode se tornar um melhorzinho são, para dizer o mínimo, sintomas de miopia grave. Em outras palavras, se o que interessa é fazer algo bom pelo lugar, comece não sendo totalmente cego para os fatores que trouxeram decadência para o arquipélago e perceba que eles não estão lá fora.

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O que o turista quer?

Sol, areia clara e água limpa -- falta algo?


Quando um turista decide vir para Ilhabela, o que ele espera encontrar aqui? São apenas duas coisas: boas praias e belas paisagens. O leitor pode ter pensado em bons restaurantes, bons hotéis, baladas, um centro turístico com boas opções de compras e lazer, preços justos e várias outras coisas que costumam fazer parte de um turismo interessante, organizado e eficiente. Mas se pensarmos por um instante nesses itens todos e ordená-los numa lista conforme sua hierarquia na cabeça de um turista, logo veremos o óbvio: o que um turista realmente quer é aquilo que é típico do lugar que ele visita. E veremos, em seguida, que quem vem para o arquipélago não busca bons hotéis e restaurantes, busca mesmo boas praias e belas paisagens.

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Preparando a própria forca

Esquerdistas acertam ao criticar os excessos de certos representantes do capital — que eles chamam de burgueses —, mas há algo nessa crítica que não é típico das esquerdas: a moral.

Não há nada errado em querer faturar alto, principalmente em épocas em que o dinheiro é escasso e as possibilidades de ganhá-lo são numerosas. Temporada de verão é uma dessas épocas cheias de perspectivas de alto faturamento, principalmente para quem vive do turismo (isto é, 99% da população de Ilhabela). Depois do Carnaval, como todos sabem, virá mais uma temporada de faturamentos mirrados e moscas. Obviamente, a condição para que se possam aproveitar as temporadas de verão é a existência de um mercado livre, onde monopólios, cartéis e concorrências desleais não existem ou pelo menos são evitados.

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O espírito da coisa

itaguassu
Se essa imagem pudesse ser cheirada…

A verdade é que esta cidade não produz nada. As pessoas vêm para cá, divertem-se, consomem, produzem lixo e esgoto e vão embora — ou permanecem, para continuar fazendo essas coisas pelo tempo que seu apreço por este lugar perdurar. Tudo se resume a isso. Quase todas as pessoas que aqui vivem dedicam-se a tornar esse processo cada vez mais fácil: quanto mais pessoas vierem, maior será o faturamento, maior será a prosperidade superficial que nada devolve de positivo para o arquipélago. A verdade é que este lugar estaria melhor sem nós, sem o turismo, sem ruas rasgando-lhe o tecido, sem construções que demandam desmatamento, sem o esgoto que polui o solo e as águas, sem ocupações ordenadas ou desordenadas, sem a pressão sobre os limites de áreas preservadas e frágeis.

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O quintal do mundo


Se a cultura brasileira não é capaz da filosofia dos gregos, da arquitetura dos italianos, da música dos alemães, da empresa dos americanos, da disciplina dos japoneses, talvez seja capaz de criar mato e de mantê-lo para os gregos, italianos, alemães, americanos e japoneses. A vocação do Brasil é tornar-se quintal do resto do mundo. A vocação do brasileiro é ser índio, daqueles que dão ouro e madeira nobre em troca de espelhos e roupas velhas.

Isso, em outras palavras, pode significar tornar-se uma superpotência do turismo — porque quem vive de turismo se contenta com ninharias e em ver o seu quintal sendo admirado e fotografado — e um grande produtor de cartões postais, desde que a chegada maciça de turistas não nos faça desenvolver cacoetes higienistas, como aconteceu com os franceses.

O problema é que o brasileiro — como as gentes de um modo geral — se leva tão a sério que não consegue imaginar uma vida digna que se resuma a servir e proteger.