O brasileiro não desiste nunca

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Individual ou coletivamente, o que arruina a vida de todo brasileiro é a obrigação de vencer na vida — já descontada a elasticidade do significado dessa expressão. Ele já nasce com essa obrigação. Se nasce pobre, tem a obrigação de sobreviver e de se destacar dos demais de sua classe. Se nasce classe média, tem a missão de se tornar rico. Se nasce rico, tem o dever de trazer o país para cima. Haja saco.

No Japão, como em outros países, isso é diferente. O japonês já nasceu num país que deu certo. Ele não tem obrigação de vencer na vida, o que já o dispensa de uma guerra de proporções épicas. Ele tem a chance de ser ele mesmo, sem entrar em conflito com outros miseráveis que lutam para vencer na vida, sem precisar arrastar o país nas costas, sem precisar tornar-se um exemplo para as próximas gerações. O japonês (e o suíço, o norueguês, o austríaco) só precisa viver. Nada mais. O brasileiro não. O brasileiro precisa disputar o topo com outras pessoas feridas a bala. O brasileiro precisa provar que é batuta, que é digno de ser novo-rico. E enquanto a vida do brasileiro for uma luta, mais e mais brasileiros se juntarão para fazer mais e mais brasileirinhos que se digladiarão com outros brasileirinhos na hora do recreio. E a vida continua, sanguinolenta e deprimente, as usual. O brasileiro não desiste nunca porque não tem outro jeito.

Não adianta. Tente juntar Brasil, decência e humanidade na mesma frase e necessariamente a palavra aeroporto aparecerá.

Brasil, um país de tolos

Ontem vi uma propaganda do Governo Federal que mostrava um rapaz que saltitava mais do que uma gazela. Ele estava feliz por ter conseguido uma vaga numa universidade. Depois de muita locução bem-feitinha aparece a mensagem no rodapé: Democratização do Ensino Universitário.

Democratizar é o mesmo que popularizar, facilitar o acesso à universidade através do afrouxamento dos pré-requisitos. O mais lógico seria oferecer ensino fundamental e médio de qualidade e deixar que o estudante se vire depois disso. As universidades não precisam de democratização, elas precisam de elitização. Um dos objetivos da universidade é justamente esse: “garantir a conservação e o progresso nos diversos ramos do conhecimento, pelo ensino e pela pesquisa” (Aurélio). Universidade é, por definição e desde seus primórdios, o lugar da elite intelectual e científica de um país. No Brasil, o Governo Federal pretende transformá-lo em centro de reciclagem para fracassados.

Através da Democratização do Ensino Universitário o Governo Federal conseguirá três coisas: criar uma legião de desempregados com diploma, pois o mercado já não dá conta de absorver os profissionais que se formam todos os anos; minguar a qualidade do corpo discente das universidades; e empurrar para os cursos de mestrado e doutorado a tarefa ingrata de produzir profissionais qualificados.

A proposta de democratização do ensino universitário parece ainda mais estúpida quando lembramos que as pessoas mais bem-sucedidas deste país (pense em três ou quatro, aleatoriamente) não têm diploma e nem pensam em ter um.