Verdade e moral

Confesso, já me abstive de analisar os conteúdos alheios porque o sujeito que os expunha participava de um clube que eu abominava. Àquela altura, se um Hitler me dissesse que 2+2=4 eu consideraria avaliar seriamente se 2+2=5.

Exemplos como esse são sintomas de duas características bastante humanas:

1) Para a maioria de nós, verdade e moral se equivalem: fazer o bem significa estar do lado da verdade e o exercício da verdade é necessariamente bom.

2) Como conseqüência disso, a maioria de nós não concebe que pessoas inerentemente más possam às vezes estar do lado da verdade e acertar ao descrever a realidade. Isto nos leva a dispensar os conteúdos antes de avaliá-los, o que é um passo firme para faltar com a verdade e sustentar um estado de coisas que permite que o mal atue com liberdade cada vez maior.

Um exemplo comum entre filósofos sobre a relação entre verdade e moral é aquele que nos coloca como dono de uma casa onde se escondem judeus em plena Alemanha nazista. Um soldado nos pergunta se estamos escondendo judeus. Dizer a verdade, é claro, significa condenar aqueles judeus à morte.

Dizer a verdade não é o mesmo que reconhecê-la. A expressão da verdade estabelece uma relação entre duas pessoas — emissor e receptor. O reconhecimento da verdade é ato solitário por sua própria definição.

A verdade não se altera, alteram-se seus usos. A moral começa onde o silêncio e a contemplação terminam.

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Do silêncio

Talvez um dos dramas interiores mais peculiares pelos quais uma pessoa pode passar seja o de perceber certas verdades e não conseguir explicá-las às outras pessoas. Embora as palavras às vezes possam amenizar o problema, isto tem pouco a ver com a oratória ou a habilidade literária (ou a falta destas coisas), porque há também momentos (não raros) em que as palavras agravam o problema e mais confundem do que esclarecem.

Há um frase célebre de Wittgenstein que diz «onde não se pode falar, aí é preciso calar». Seria um conselho supimpa se o diálogo interior não fizesse parte da natureza mesma da mente: tão logo a percepção da realidade se conclui, a mente começa a se desdobrar num jogo dialético interminável, em busca de frases, fórmulas, julgamentos, slogans. Querer falar, mesmo quando não se pode, é algo genuinamente humano.

Onde não se pode falar, oras, buscam-se palavras adequadas (conforme ensina Olavo de Carvalho).

Místicos, mesmo os que não conhecem Wittgenstein, dirão que o silêncio a que o filósofo austríaco se refere é contemplativo. Ok. Mas eis que em algum momento você precisará olhar nos olhos de outra pessoa e dizer coisas sérias — suponhamos, coisas que não aconteceram, mas que você sentiu e que, portanto, não são menos verdadeiras apenas porque não se manifestaram como sons de sininhos ou como uma fome devastadora ou como uma topada num móvel num quarto escuro.

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Quando Pôncio Pilatos perguntou a Jesus «quid est veritas?», o Nazareno silenciou. A verdade estava ali, encarnada, inteira e plena diante de Pilatos, que, ao invés de reconhecê-la, me vem com um «posso ver o cardápio?».

Eu também peço o cardápio. A maioria das pessoas pede. Mas no fundo todos queremos ver a verdade encarnada diante de nós, mesmo que isso signifique ajoelhar, silenciar e chorar.

Neti neti

msn comic

Não discuto nunca. Regra de civilidade. Isto não significa abdicar da verdade e de sua defesa. Isto significa apenas não discutir. Na maioria dos casos em que a discussão parece tornar-se necessária, ela não vale a pena e, mesmo que seja iniciada e vencida, fica sempre a sensação de que a Verdade não veio à tona, não foi observada, tampouco absorvida. Simplesmente não valeu a pena e nunca valerá. Não há nada que se possa fazer para alterar a velocidade da passagem do tempo — ou “A Verdade é filha do…”.

Mesmo que se trate de mentiras ou de verdades muito simples — “você não disse que entregaria o projeto hoje?”, “você tem falado com aquela vagabunda?” ou “nunca antes na história destepaiz” — a discussão não trará nenhum benefício genuíno, a verdade permanecerá esquecida e toda a interação girará em torno daquilo que foi dito, passando a léguas de distância dos fatos, daquilo que as pessoas realmente sabem que a verdade é e se sustentará na capacidade demoníaca que elas têm de mentir para si mesmas. É preocupante notar a incapacidade crescente de fazer confissões para si mesmo.

Eu sou a única pessoa com quem me permito discutir. É uma triste exceção para uma regra que não deveria permitir nenhuma, porque no fundo não há diferença entre discutir comigo ou com outra pessoa. A discussão não traz a Verdade à tona, seja quem for seu interlocutor. Discussões são jogos de palavras. Como tais, sua utilidade máxima é cansar a mente e levá-la a um ponto em que não seja mais capaz de protagonizar o que quer que seja. É um processo semelhante ao de algumas artes marciais: o esgotamento físico total leva o corpo a manifestar energias ocultas e a mostrar que, afinal, a verdadeira força não está nos músculos, assim como a Verdade, afinal, não está nas palavras.

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Update: “neti neti” é expressão que vem do sânscrito e que significa algo como “não isto, não aquilo”. Seu objetivo é mostrar ao indivíduo que a Verdade não é aquilo que ele vê, ouve, sente ou pensa. Naturalmente, todas as coisas palpáveis, assim como todo o mundo material, correspondem em alguma medida a uma categoria específica de realidade — aquela que inclui contas para pagar, salada para o almoço e o descanso no fim do dia. Mas a Verdade não é isto e não é aquilo. Neti neti.

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Summum bonum

buddha cards

O que é bom e o que não é bom — será que é tão difícil distinguir essas coisas, tão difícil que o indivíduo sente-se à vontade para declarar confusão em defesa própria?

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A perspectiva da própria insignificância, da morte e da extinção absoluta — todas as coisas que reduzem a condição humana àquilo que ela é ou àquilo que é seu destino podem ser superadas com ações que melhorem o mundo substancialmente, que tornem pessoas, ambientes, processos e coisas melhores.

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A presunção da qualidade não dispensa o indivíduo do exame constante da universalidade dessa presunção. Obviamente, esse exame começa dentro de si, não lá fora, no quintal alheio.

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Stricto sensu, a inexistência da maioria das pessoas poderia tornar o mundo melhor — ambientalistas, principalmente, têm argumentos bem elaborados a respeito disso e a noção de utilidade não abençoa todos igualmente. Mas não existe mundo em sentido estrito — aliás, existe algo em sentido estrito? Idéias revolucionárias erram com freqüência, e erram não apenas nas conclusões, mas nos pressupostos e sobretudo na facilidade com que tomam o mundo de uma forma rasa, como se os frutos da razão antecedessem a realidade.

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O mundo só pode ser encarado seriamente da forma como ele é — em sentido amplo, subjetivo, pessoal. Entendê-lo exige intimidade e isso não é possível a quem alimenta nojos e idéias como quem trata de gatinhos recém-nascidos.

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Em teoria, nada existe, nada basta, nada é suficientemente bom. Você pode ficar o resto da vida discutindo, se quiser, mesmo que esteja sozinho, e isso não lhe dará nenhuma garantia de que ao final você estará dois centímetros mais próximo da Verdade do que estava quando se tornou ranheta.

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A buddhist walks up to a hot dog stand and says to the guy: “Make me one with everything”.


A anedota prossegue, mas só faz sentido em inglês mesmo:

The guy makes the hot dog, and gives it to the buddhist. The buddhist pays with a twenty. The guy turns away, starts to leave.

Buddhist: “Where’s my change?”
Hot dog guy: “Change must come within.”

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