Fragmentos de um diálogo existencial

Eu nunca acreditei em fazer uma coisa chata e rentável por muitos anos, juntar dinheiro e depois — só depois — investir naquilo que se gosta. Não vejo bons exemplos ao meu redor e o que ocorre na maioria dos casos é que essa coisa chata e rentável acaba escravizando e degradando a pessoa ao ponto de estragar nela aquela paixão que ela possuía por várias outras atividades que poderiam ter feito dela uma pessoa muito melhor e mais realizada. E, claro, ela nunca mais volta a fazer essas coisas ou as faz no máximo como hobby, como diversão de horas vagas.

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O mais importante é você de fato ser uma pessoa digna, um mestre hábil, competente, amoroso, sábio e iluminado. Se você é isso, as pessoas vão até você e lhe pagam bem. E talvez eu não mereça ganhar dinheiro e ter uma vida boa se eu não puder ser uma pessoa com essas qualidades.

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Eu não me sinto em condições de trabalhar para me aposentar um dia. Eu me sinto em condições de começar algo ou dar seqüência (como no caso das coisas que acho que sei fazer) a algo que eu sei que eu vou fazer pelo resto da vida — não porque será necessário, mas porque eu realmente vou querer fazer isso pelo resto da vida, até o fim da vida.

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Trata-se de um assunto indigesto. Conversar sobre ele é uma forma de reafirmar ou confirmar minha incompetência para levar adiante as coisas que idealizo e desejo pra mim. Como não consigo levar adiante, eu falo ou escrevo ou resmungo. Ser pago para falar, escrever ou resmungar e transformar estas coisas numa carreira respeitável dependem de muita sorte.

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Eu aprenderia a gostar do que faço — sem me preocupar se se trata de algo que me fisgou a alma ou não — se já não gostasse tanto de fazer algumas coisas e se não soubesse que elas podem funcionar como uma carreira para vida toda — algo que eu nunca tive.

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Talvez as coisas sejam mais fáceis quando não se tem escolha.

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Imagem obtida aqui.

Egoísmo

egoismo

O problema de ser egoísta é que todo o esforço de altruísmo confunde-se com o desejo de parecer bacaninha para as outras pessoas. Ajudá-las com sinceridade não é tão interessante quanto colher os frutos e os aplausos de uma ajuda bem sucedida. E quando a ajuda não funciona, o egoísmo dá lugar a um tipo de camuflagem que preservará algo da imagem de altruísta e de pessoa bacaninha.

E mesmo aqui, falando de coisas desse tipo, não consigo distinguir se faço isso por autocrítica honesta ou pelo desejo de parecer um mestre de lucidez e autoconsciência, ao ponto de poder ver a própria picaretagem, assumi-la e impor-se as devidas penas sem a ajuda de um espelho ou de um juiz.

É tudo egoísmo, afinal.

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8 e 80

teatro máscaras

Num dia você medita por duas horas, jejua, estuda as Escrituras e caminha longa e lentamente. Noutro dia você vai dormir tarde e entorpecido, conversa sobre a mais recente rodada do Paulistão, compra a prazo num shopping center e pede um combo triplo, com bacon extra e sundae de sobremesa.

Eu não consigo imaginar uma vida melhor do que isso.

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Original da imagem aqui.

A vida


Fonte original da imagem, aqui.

A vida é um daqueles jogos de tabuleiro com dados em que você é um peão e a cada quatro ou cinco casas você cai em uma onde se lê “recue oito casas”.

O sábio

“Como pode o homem ser sábio se ele não sabe viver melhor do que os outros homens? — se ele é apenas mais esperto e mais sutil intelectualmente? A Sabedoria falha? ou ela, por seu exemplo, ensina o modo de ser bem sucedido? Porventura é ela apenas o moleiro que mói uma lógica mais sutil? Platão ganhava sua vida melhor ou com mais sucesso do que seus contemporâneos? Sucumbia ele, como os demais homens, às dificuldades da vida? Predominava sobre os demais apenas pela indiferença, por se dar grandes ares? ou vivia com mais facilidade porque sua tia lembrou-se dele no testamento?”

Henry Thoreau (1817-1862)

Por que fazemos o que fazemos?

Como você sabe que este mundo é exatamente isso que ele demonstra ser? Você vai à cozinha, abre o armário, pega um copo, enche-o de água para matar a sede. Os gestos automáticos não permitem compreender como isso é possível. Não sabemos como desenvolvemos as certezas, como chegamos ao comportamento automático que nos permite saber que temos sede e que ela pode ser resolvida com a tríade cozinha-copo-água, além dos movimentos correspondentes.

É claro que não faz muita diferença ter certeza sobre todos os processos interiores (físicos e mentais) envolvidos na simples tarefa de matar a sede, mas quando as tarefas ficam mais complexas as certezas e os gestos automáticos passam a ter outra importância — um pouco maior, eu diria. É sempre bom saber por que fazemos aquilo que fazemos, nem que seja para dizer à vida quem é que manda neste chiqueiro.