As lágrimas do mestre zen

O mestre chorava bastante a morte de seu pai, e um de seus discípulos prediletos lhe disse: «Mestre, não fica bem chorar tanto. As pessoas vão pensar que você não é um iluminado, não tem consciência da dimensão espiritual, não tem consciência de que seu pai realmente não morreu».

O mestre continuou chorando sem nada responder.

Algum tempo depois, o discípulo voltou e lhe disse: «Mestre, não chore. Você sabe, seu pai foi para um espaço de luz e amor. Pare de chorar. Seus discípulos não vão mais confiar em você».

O mestre então respondeu: «Eu sei que ele foi para um espaço de luz. Mas não é esse o motivo de minhas lágrimas. Meus olhos choram de dor por saber que não verão mais sua presença bonita. Minhas mãos choram porque não vão poder mais tocar sua pele tão suave. Meus ouvidos choram porque ouvirão mais sua voz amiga. Isso não tem a menor relação com o fato de saber que ele está em um espaço melhor. Eu posso entender que não é preciso chorar, mas não consigo impedir que meus olhos derramem suas lágrimas».

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Júbilo.

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D. T. Suzuki, o intelectual «não-mental»

Por Alan Watts. Extraído do livro «Tabu».

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Jamais tive, na vida espiritual, mestre oficial (guru ou roshio) — apenas um modelo, do qual jamais verdadeiramente segui o exemplo, posto que uma pessoa sensível não gosta que se a macaqueie. Este modelo foi Suzuki Daisetsu, pessoa ao mesmo tempo mais sutil e mais simples que jamais conheci. Eu estava à vontade na ambiência intelectual e espiritual que criava em torno de si, ainda que jamais o tivesse conhecido intimamente e que eu seja de um temperamento completamente outro. Foi Suzuki que me fez conhecer o zen assim que, adolescente, li pela primeira vez seus Ensaios Acerca do Zen-Budismo. Nos anos seguintes li com prazer e admiração tudo que escreveu. Pois seus assuntos sempre surpreendiam, suas conclusões levavam sempre, em si mesmas, o começo de outra coisa. Abandonava os sulcos profundos do pensamento filosófico e religioso. Falava por subentendidos, abria parênteses, deixava entrever, abandonava a frase em meio, espantava por sua ciência (que era enorme) e encantava pela maneira leve e despretensiosa com que se servia de sua erudição. É assim que nessa encantandora desordem, nesse dédalo, que é sua obra, descobri a via para um jardim dos contrários reconciliados.

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Wabi

Eu gosto de historinhas zen. Até disponibilizei um ebook com uma boa coletânea aqui em meu site. O problema é que muitas dessas histórias não fazem sentido ou, quando não fazer sentido é o objetivo expresso da história (originando assim um koan), ela já está resolvida de tão conhecida que é. Há o problema do deslocamento, da quantidade de poeira acumulada sobre essas histórias, do preconceito, dos clichês.

Muitas dessas histórias tornaram-se exatamente aquilo que pretendiam criticar ou evitar. Cristais bonitos, mas com pouca utilidade — a não ser que o indivíduo tenha aprendido antes da leitura aquilo que a história pretende ensinar.

Eu penso com freqüência em finais alternativos para histórias conhecidas na tradição zen. E vejo, aos poucos, que esse exercício tem alguma relação com aquilo que o conjunto dessas histórias pretende ensinar. A idéia é precisamente transcender aquilo que já foi dito — não porque inovar é bacana, mas porque é interessante exercitar aquilo que achamos que aprendemos.

    Nan-In, um mestre japonês durante a era Meiji (1868-1912), recebeu um professor de universidade que veio lhe inquirir sobre Zen. Este iniciou um longo discurso intelectual sobre suas dúvidas.

    Nan-In, enquanto isso, serviu o chá. Ele encheu completamente a xícara de seu visitante, e continuou a enchê-la, derramando chá pela borda.

    O professor, vendo o excesso se derramando, não pode mais se conter e disse:
    «Está muito cheio. Não cabe mais chá!»

    «Como esta xícara,» Nan-in disse, «você está cheio de suas próprias opiniões e especulações. Como posso eu lhe…»

    Antes que o mestre pudesse terminar a frase, o professor pegou a xícara e a lançou no chão, que ficou coberto de chá e cacos de louça rústica. O mestre sorriu suavemente.


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Palavras são armadilhas

dragon zen

As coisas são mais simples do que parecem ser.

Releia.

As coisas são mais simples do que parecem ser.

A frase é propositalmente ambígua. “As coisas” pode significar pessoas, emoções, idéias, objetos; pode até significar tudo isso ao mesmo tempo. “Simples” pode referir-se àquela mesma simplicidade do copo d’água quando se tem sede ou pode referir-se à simplicidade de um minueto, que só é simples comparado com o que veio depois, na biografia de um grande compositor. “Parecem” pode referir-se à aparência propriamente dita — texturas, cores, peso etc. — ou ao seu reflexo na retina e na mente, já que ver é interpretar e, portanto, você jamais saberá a diferença entre uma coisa e a outra, a despeito da simplicidade do objeto.

Dito de outra forma, palavras são armadilhas e é tarefa do leitor não tomá-las a sério a ponto de obrigar o escritor a desdobrar-se em explicações sobre elas. Se explicações forem necessárias, toda a graça se perde. Explicar uma idéia é sempre pior do que explicar uma piada. Explicada a piada, perde-se apenas a risada. Explicada a idéia, ela própria se perde porque a explicação toma definitivamente seu lugar.

E assim as coisas deixam de ser simples. E assim você já não sabe mais se eu estava falando de simplicidade ou da arte de manipular palavras.

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Meditação – FAQ


Ele conseguia.

O que é meditação?
Meditação é a arte de ficar quieto, em silêncio e parado por tempo suficiente para você perceber que está fazendo algo diferente daquilo que costuma fazer.

Como se pratica?
A meditação pode ser assim resumida: sentar-se no chão com a coluna reta e permanecer parado nesta posição por pelo menos 30 minutos, respirando conscientemente e em silêncio. Os primeiros 10 minutos serão difíceis. Haverá dor nos joelhos e na região lombar; a respiração ficará forçada, talvez você fique ofegante. Se conseguir encontrar algum conforto nos minutos seguintes, você poderá sentir sono e o equilíbrio será compensado com mais tensão na coluna, o que novamente causará dor. Ao término dos 30 minutos você terá a certeza de que perdeu seu tempo. Continuar lendo