Silêncio, por favor

Madrugada, fim-de-semana. Por volta das 2 horas fui acordado pelo barulho de fogos de artifício. Lembrei do evento que estava acontecendo perto de onde eu moro. Sono perdido, lembrei também que mais uma temporada de navios se aproxima e que o barulho dos fogos voltará à rotina de quem mora na Vila e arredores. Lembrei, por fim, de todos os eventos que tornam a vida de quem dorme cedo um martírio, em diversos bairros de Ilhabela.

Eu gosto de celebrações e sei que certos rituais são importantes. São eles que configuram as crenças — não o contrário, como se costuma pensar. Estourar fogos de artifício dá à pessoa a sensação de que algo realmente importante está em curso e que ela, ao estourar fogos ou ao se admirar com eles, faz parte daquilo. Logo, ela também é importante.

A lógica termina aí. Ela serve para diagnosticar uma situação que tem se tornado cada vez mais comum em Ilhabela: a cultura do barulho. A importância que o sujeito dá para si é proporcional ao nível de decibéis que o som de seu carro é capaz de alcançar. O sucesso daquela festa é medido pela participação compulsória dos vizinhos, mesmo que estejam dormindo. O assunto discutido num bar ou restaurante só tem importância se puder ser ouvido num raio de cinqüenta metros. Os turistas só se sentirão bem se forem homenageados com o espocar de quilos de pólvora ($) quando o navio deles estiver deixando o Canal de São Sebastião. É mesmo?

Numa palestra oferecida recentemente aqui em Ilhabela, o professor Luiz Trigo, do curso de turismo da USP, disse que nós dispúnhamos de bens preciosos. Recursos naturais? Sim, mas não apenas isso. Temos também a tranqüilidade, a lentidão e o silêncio. Para muitas pessoas esses bens não têm importância. Para o turista, nada mais interessante do que chegar num lugar e encontrar condições para viver de uma forma diferente, mesmo que seja só por alguns dias — viver em silêncio, caminhar devagar, observar. Fotos, cartões postais e souvenires são bons, mas são as memórias que realmente o farão voltar. E as memórias não são feitas de barulho, de desordem e de pressa.

Preocupamo-nos excessivamente com a proteção dos recursos naturais. Esquecemos das virtudes que permitem que esses recursos sejam realmente valorizados e protegidos. Se o sujeito vai à praia para ligar o som do carro no último volume e se seu lazer resume-se às baladas, não tente lhe falar sobre a importância de não deixar lixo na areia, do modo de vida caiçara, da integração entre homem e natureza e de como é bom caminhar em silêncio nas trilhas de Ilhabela.

A cultura que se instalou em Ilhabela não é diferente daquela presente em qualquer outra cidade do Brasil, mas aqui as soluções podem ser simples. Se você é dono de hotel, bar ou restaurante, peça silêncio. Se você é promotor de eventos, seja criativo e bole algo que seja realmente bom para a cidade. Se você é turista, tenha em mente que aqui o melhor é deixar o carro em casa, pois o lugar ainda é bonito e convida a caminhar e a pedalar; saiba que ter pressa e falar alto não têm valor ou utilidade aqui. Se você é veranista, faça o mesmo — e saiba que um fim-de-semana em Ilhabela não precisa ser uma catarse. Se você é morador, seja um cidadão exemplar, cumpra e exija o cumprimento das leis. Se você administra a cidade ou faz as leis, esforce-se para que Ilhabela seja um lugar seguro, tranqüilo e silencioso, não queime pólvora ($) e, por caridade, conclua a ciclovia.

A todos, um pedido único: silêncio, por favor. As melhores qualidades de Ilhabela só se revelam àqueles que são capazes de contemplar este lugar em silêncio.

(Publicado no jornal Canal Aberto em 16 de novembro de 2007)

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Um comentário sobre “Silêncio, por favor

  1. E aqui em Poloni que todo ano, em dia de santo antonio, há uma queima de fotos sabe quando?

    5 horas da manhã? tem ano que a data é num domingo, recém chegado da balada, ressaqueado.. imagine você sendo acordado por essas bombas! mandei uma carta para o padre da paróquia!

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