O Mito da Gentrificação

É extremamente raro e não tão mau para os pobres como você pensa.
por John Buntin

Artigo publicado no site Slate, em Janeiro de 2015. Link original do artigo aqui.
Traduzido por Christian Rocha, mestre em Arquitetura e Urbanismo pela FAUUSP, docente do curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário do Sul de Minas.

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Começou no Soho, em seguida estendeu-se a Chelsea e depois a East Village. Alguns tumultos em Tompkins Square em 1988 renderam-lhe algumas manchetes, mas não interromperam seu assustador avanço. Estendeu-se para o Baixo Harlem e depois atravessou o rio até Park Slope. Williamsburg e Fort Greene vieram em seguida; atualmente, ameaça até mesmo Bedford-Stuyvesant. Nova York não é a única cidade em que ela ocorre. São Francisco, Washington e Boston têm sido indiscutivelmente afetadas por ela. Seattle, Atlanta e Chicago também a vivenciam em larga escala.

«Ela», como você pode imaginar, é a gentrificação. Se você vive em uma dessas cidades, você provavelmente acha que sabe como ela funciona. Artistas, boêmios e casais gays vêm primeiro. Eles se mudam para edifícios decrépitos – mas charmosos e históricos – próximos do centro da cidade. Casas são restauradas. Cafés descolados aparecem. A segurança pública é melhorada. Então os preços dos aluguéis e dos imóveis começam a subir. Os tipos liberais, criativos e amantes da diversidade que compuseram a primeira onda de gentrificadores dão lugar a advogados, homens de negócios e profissionais da área de tecnologia. À medida que os preços dos aluguéis e dos imóveis continuam a subir, os primeiros moradores – com freqüência pessoas negras de baixa renda – são forçadas a se mudar desses lugares.

Essa é a história, pelo menos. Leia o City Lab da revista The Atlantic e você encontrará com freqüência artigos como «Por que a gentrificação é tão difícil de parar» e «Basicamente não há nenhum jeito de não ser um gentrificador». Esquerdistas e conservadores concordam que se trata de algo ruim (embora esquerdistas culpem os empreendedores e os conservadores culpem as legislações que limitam o desenvolvimento). Até a Jezebel [revista online sobre celebridades e cultura pop] entrou nessa. Recentemente o site criticou Taylor Swift (que no início deste ano trocou seu relativamente acessível apartamento de US$ 2 milhões em Nashville por uma cobertura de US$ 20 milhões em Tribeca) por incluir um «obtuso» «hino à gentrificação» em seu último disco.

Que a gentrificação consiste na mudança de pessoas negras e pobres causada por pessoas brancas ricas, trata-se de uma afirmação tão comum que a maioria das pessoas aceita como um fato amplamente difundido da vida urbana. Não é. A gentrificação desse tipo é na verdade muito rara. O status sócio-econômico da maioria dos bairros é surpreendentemente estável ao longo do tempo. Quando a composição étnica de bairros onde predominam pessoas negras de baixo poder aquisitivo muda, isto ocorre geralmente porque latinos e outros imigrantes mudam-se para estes bairros – e tal imigração provavelmente é mais benéfica do que danosa. Sobre o deslocamento de pessoas desses bairros – a característica mais questionada da gentrificação – na verdade há pouquíssima evidência de que isso ocorra. De fato, nos assim chamados bairros gentrificados parece haver menos pessoas saindo para outros bairros do que em bairros não-gentrificados.

Está na hora de aposentar o termo gentrificação de uma vez por todas. Catorze anos atrás, Maureen Kennedy e Paul Leonard, do Brookings Institute, escreveram que a gentrificação «é um conceito politicamente carregado que em geral não tem sido útil nos debates sobre o crescimento e sobre a mudança das comunidades porque seu significado não é claro». Isto é ainda mais verdadeiro hoje em dia. Algumas cidades norte-americanas têm sérios problemas econômicos, mas eles não são do tipo que os críticos da gentrificação pensam que eles são. Pior, o foco da mídia sobre a gentrificação tem obscurecido os problemas realmente sérios: o isolamento crescente de bairros pobres, constituídos por minorias, e a surpreendente expansão da pobreza extrema.

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A gentrificação, como é comumente compreendida, consiste em muito mais do que aumento de preços das moradias. Trata-se de bairros com populações de baixa renda, predominantemente negros e latinos, que passam a ser ocupados por populações de alta renda, geralmente brancos. Demógrafos e sociólogos identificaram bairros em que esse tipo de mudança têm ocorrido. Wicker Park em Chicago, Harlem e Chelsea em Manhattam, Williamsburg no Brooklyn – estes lugares realmente foram gentrificados. Sociólogos e demógrafos observaram estas mudanças em estudos de caso e etnografias. Mas uma década atrás economistas começaram a fazer perguntas mais abrangentes sobre essas mudanças do que outras ciências sociais vinham fazendo. Eles observaram que o simples registro de que pessoas de baixa renda estavam sendo forçadas a se mudar de bairros cujos preços das moradias estavam subindo não significava em si mesmo que a gentrificação estava causando essas mudanças. Pessoas pobres com freqüência também se mudam de bairros não-gentrificados. Com efeito, pessoas com baixo poder aquisitivo mudam-se freqüentemente por diversas razões. A verdadeira questão é se moradores de baixo poder aquisitivo mudam-se de bairros gentrificados a uma taxa maior do que ocorre em bairros não-gentrificados.

Uma das primeiras pessoas a analisar essa questão de um modo mais aprofundado foi Jacob Vigdor, da Universidade de Washington. Em 2002, Vigdor analisou o que aconteceu em Boston entre 1974 e 1997, um período que se supôs de intensa gentrificação. Mas Vigdor não encontrou qualquer evidência de que pessoas pobres tenham se mudado de bairros gentrificados a uma taxa acima do normal. Ao contrário, as taxas de mudança [saída] de bairros gentrificados foram na verdade menores.

Isto não ocorreu apenas em Boston. Em 2004, os economistas Lance Freeman e Frank Braconi, da Columbia University, coordenaram um estudo similar sobre gentrificação em Nova York nos anos 90. Eles também descobriram que os moradores de baixo poder aquisitivo de bairros gentrificados eram menos propensos a se mudar do que moradores de baixo poder aquisitivo de bairros desprovidos dos sinais típicos da gentrificação.

É claro que a mudança não é o único meio pelo qual a gentrificação pode prejudicar os mais pobres. Moradores de bairros em processo de gentrificação podem permanecer nestes bairros, mas sofrer com aluguéis cada vez mais caros. Freeman e Braconi descobriu que os preços aluguéis realmente sobem em bairros gentrificados. Mas esse aumento teve um efeito inesperado: à medida que os valores dos aluguéis subiam, os moradores mudavam-se menos.

«A interpretação mais plausível», os autores concluíram, «pode ser a mais simples: à medida que os bairros são gentrificados, eles também melhoram de várias formas que são apreciadas tanto pelos moradores menos privilegiados como pelos mais privilegiados.»

Em 2010, a economista Terra McKinnish, da Universidade do Colorado, em Boulder, em parceria com Randall Walsh e Kirk White, analisaram a gentrificação em várias partes do país ao longo da década de 1990. McKinnish e seus colegas descobriram que a gentrificação criou bairros que eram atraentes para grupos familiares minoritários, particularmente aqueles com crianças e proprietários idosos. Eles não descobriram quaisquer evidências de mudanças ou prejuízos. Ainda que a maior parte do aumento de renda nesses bairros fosse para homens brancos com menos de 40 anos de idade e com formação superior completa (os gentrificadores arquetípicos), homens negros sem formação superior também viram sua renda aumentar. Eles também eram mais propensos a permanecer onde estavam. Em suma, famílias negras cujos membros não tinham formação superior também se beneficiavam da gentrificação.

McKinnish, White e Walsh não são os únicos pesquisadores cujos trabalhos sugerem que negros com freqüência se beneficiam da gentrificação. Em seu livro «Stuck in Place: Urban Neighborhoods and the End of Progress Toward Racial Equality» [não traduzido no Brasil], o sociólogo Patrick Sharkey analisou com profundidade os bairros negros que tiveram sua constituição étnica significativamente alterada entre 1970 e 1990. Ele descobriu que quando a composição de bairros negros mudou, não foi por causa da chegada de brancos nesses bairros. Isso raramente acontece. Em comunidades negras, as mudanças nos bairros ocorrem quando os latinos começam a chegar. Às vezes estas mudanças podem ser difíceis, como quando ocorrem mudanças nas lideranças políticas ou quando há mudanças nas principais características da comunidade. Mas a pesquisa de Sharkey sugere que essas mudanças também trazem benefícios reais. Moradores negros, particularmente os mais jovens, vivendo em bairros com maior diversidade encontram empregos significativamente melhores do que jovens negros com as mesmas habilidades, mas que vivem em bairros com menor diversidade. Em suma, diz Sharkey: «há fortes evidências de que, quando se reduzem os problemas de um bairro, a renda de jovens negros aumenta, e aumenta substancialmente.»

Em outras palavras, o problema não é tanto que a gentrificação prejudica os bairros negros; o problema é que a gentrificação com freqüência os ignora. Robert Sampson e Jackelyn Hwang, de Harvard, mostraram que o bairros com mais de 40% de negros são gentrificados muito mais lentamente do que outros bairros. A aparente falta de interesse de outros grupos étnicos em se mudar para esses bairros predominantemente negros e de investir neles é um fator de perpetuação da segregação e da desigualdade na sociedade norte-americana.

Enquanto os críticos da gentrificação censuram um processo que é sobretudo imaginário, eles têm ignorado um problema muito mais sério – a expansão da pobreza extrema. No ano passado, os economistas Joseph Cortright, de Portland, e Dillon Mahmoudi, da Universidade Estadual de Portland, analisaram as mudanças pelas quais têm passado os bairros mais pobres dos Estados Unidos nas últimas décadas. Eles começaram a partir de 1970,  analisando 1100 áreas censitárias – sub-regiões de municípios que os demógrafos usavam como unidades básicas para suas análises – localizadas num raio de até 10 milhas do centro comercial das 51 maiores cidades com altos níveis de pobreza. Então eles propuseram uma questão simples: como o padrão sócio-econômico mudou ao longo dos 40 anos seguintes nesses lugares?

A resposta: a maioria não mudou. Dois terços dos bairros mais pobres em 1970 ainda eram bairros muito pobres em 2010. Apenas cerca de 100 bairros viram seus níveis de pobreza reduzir para níveis menores do que a média nacional. Nesses casos, a área metropolitana típica tinha um ou dois bairros que poderiam ser descritos como gentrificados. Entretanto, Cortright e Mahmoudi notaram uma mudança ainda mais significativa. Se em 1970 havia 1100 áreas censitárias nas proximidades dos centros comerciais com taxas de pobreza de 30% ou maiores, em 2010 o número de áreas pobres havia subido para 3100. Em outras palavras, o número de áreas com altos níveis de pobreza nos arredores dos centros urbanos havia praticamente triplicado. Para piorar as coisas, o número de pessoas vivendo em extrema pobreza nessas áreas havia dobrado. Os moradores desses bairros eram majoritariamente negros.

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Se a gentrificação ocorre com tanta freqüência – e se ela pode mais ajudar do que prejudicar os moradores que vivem nos lugares antes da gentrificação – por que tantas pessoas se incomodam com isso? Há algumas razões para isso. A primeira tem a ver com os lugares em que a gentrificação acontece. De acordo com Cortright e Mahmoudi, apenas três cidades – Nova York, Chicago e Washington – responderam por um terço das áreas cujas taxas de pobreza caíram de mais de 30% em 1970 para menos de 15% em 2010. Metade das áreas dos EUA que passaram pelo processo de «gentrificação» (se ainda podemos chamar assim) estavam localizadas nessas três cidades. Não surpreende que os moradores de Nova York e de Washington achem que a gentrificação é um tema importante.

A outra razão pela qual nós continuamos a falar da gentrificação provavelmente tem mais a ver com os medos da classe média. Os preços das moradias nas cidades litorâneas mais caras dos EUA têm subido drasticamente desde a Grande Depressão. Expressar preocupação sobre a «gentrificação» nessas cidades podem ser simplesmente um outro modo de expressar preocupação com o aumento dos preços. Mas, de fato, diferentes tipos de cidades têm diferentes tipos de problemas econômicos. Em cidades litorâneas, o custo da moradia é com freqüência maior do que o custo da construção. Isto ocorre sobretudo porque a oferta de imóveis é limitada. Construtores em Washington não podem transformar as casas geminadas de Adams Morgan [bairro antigo da capital norte-americana] em grandes edifícios verticais – por isso o preço das casas geminadas sobe. A alta demanda também é um fator importante, é claro. Parte dessa demanda reflete uma preferência por bairros mais antigos e com moradias bem localizadas. Mas o fato de que muitas cidades globais oferecem altos salários aos melhores profissionais é certamente um fator mais importante. A gentrificação não é a causa dos altos preços das habitações nessas cidades. É um sintoma. Há inúmeras cidades com outros tipos de problemas relacionados aos preços das moradias. Há, por exemplo, cidades do Rust Belt [zona industrial no nordeste dos Estados Unidos] como Detroit, em que muitas casas são vendidas a um preço inferior ao de construção. Estas cidades têm problemas de renda. Cidades em que o preço das moradias é muito maior do que o preço da construção exigem políticas diferentes daquelas em que a situação é inversa. Cidades litorâneas podem se beneficiar de exigências de que os empreendedores reservem uma parte das novas unidades para populações de baixa renda, embora alguns economistas argumentem que tais exigências podem na verdade aumentar o problema que pretendem combater, elevando ainda mais o custo das novas moradias, e todos concordam que os efeitos dessa reserva serão mínimos. Certamente não reverterá a transformação dessas cidades em áreas exclusivas para pessoas ricas.

Em contrapartida, muitos moradores das cidades do Rust Belt se beneficiariam com subsídios para aluguéis (ou subsídios financeiros, ponto), não de reservas de imóveis. No entanto, os responsáveis pelas políticas habitacionais com freqüência não conseguem adequar os remédios às circunstâncias. Assim como as cidades do Rust Belt, São Francisco também necessita de reservas imobiliárias; enquanto isso, as instituições da Bay Area [região de São Francisco], como Stanford, concedem generosos subsídios para moradia aos novos professores, uma medida que só serve para aumentar os preços, em vez de buscar meios de aumentar a oferta de imóveis.

Excluir o termo gentrificação não terá qualquer influência na resolução desses problemas, é claro. Mas eliminará uma distração. Vamos examinar como os bairros realmente mudam e por que alguns não mudam. Vamos debater os fatores que restringem a oferta de imóveis (e, mais especificamente, aqueles que podem aumentar a oferta de imóveis a preços acessíveis) nas inúmeras «São Franciscos» nos Estados Unidos e como oferecer subsídios para aluguéis no Rust Belt. Estas coisas não serão tão divertidas quanto criticar ou defender a gentrificação, mas pelo menos esse esforço será direcionado para problemas reais.

Rei

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No final dos anos 90 passei uns meses no Japão. Antes de ir para lá eu já imaginava as diferenças culturais, mas não imaginava o que eu presenciaria por lá. Um dos eventos que mais me impressionaram foi o seguinte.

Eu e um amigo havíamos acabado de entrar numa estação de metrô de Nagoya quando vimos uma moça sentada, passando mal, amparada por uma amiga. Havia vômito no chão. A situação era obviamente preocupante. Eu e meu amigo nos aproximamos oferecendo ajuda; tudo indicava a necessidade de chamar uma ambulância.

De forma abrupta, a amiga voltou-se para nós com expressão irritada, fazendo gestos negativos com a mão. Eu e meu amigo ainda não entendíamos o idioma, mas entendemos claramente a mensagem que nos era transmitida naquele momento. Surpresos com a reação da moça, decidimos nos afastar.

No dia seguinte relatei o fato a uma amiga japonesa. Ela explicou que nós havíamos ultrapassado uma das barreiras da etiqueta japonesa: oferecemos ajuda a quem não a havia pedido, o que, para os japoneses, constitui uma enorme e inaceitável falta de respeito.

Lembro-me destas coisas quando circulo por certas partes de São Paulo. Com freqüência circulam carros que espalham sons de péssima qualidade pelo bairro — alguns fazem janelas tremer. Em duas esquinas próximas há dois bares que se alternam fazendo algo parecido. Os sons de péssima qualidade são um problema menor se comparado com a absoluta falta de respeito, que é o desvio moral que faz com que os sons cheguem aos meus ouvidos — estou numa sala, praticamente no fundo da casa. Poderia ser Mozart e mesmo assim continuaria sendo desrespeito.

Lembro-me destas coisas também quando ouço certas conversas. As pessoas dizem coisas que não são da conta alheia e perguntam coisas que não lhes dizem respeito. Às vezes se assustam quando são lembradas a respeito da existência de limites.

A forma como o vírus da criminalidade se espalhou pelo país também é um sintoma monstruoso dessa falta de respeito: se o outro não é visto como uma pessoa, se não há respeito pela existência de outras pessoas, não pode haver respeito em mais nada. Puxar ou não puxar o gatilho por causa do trocado do ônibus é questão de logística.

Todas essas coisas somadas — pequenas ou grandes, banais ou mortais — me fazem crer que o Brasil precisa ser recriado desde o começo, desde o zero. Quase tudo aqui é muito óbvio, mas há quem coloque todas as fichas em campanhas políticas e midiáticas e em ações de reeducação ao estilo «sou da paz», «jogue sua arma fora» ou «eu não mereço ser estuprada». Mas só pode haver reeducação onde já houve alguma educação.

(Na imagem, um funcionário do metrô de Tokyo realiza o ‘rei’ em respeito aos passageiros que ele atende e orienta)

À beira do abismo

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Há pelo menos duas décadas este é o problema brasileiro mais sério, mais urgente e mais importante. Mas isto não impediu que você dedicasse o seu tempo a outras coisas, tais como:

— O preço da passagem de ônibus, mesmo que você sempre vá pra balada de Audi.
— «A corrupção», assim, genericamente, sem citar nomes, porque não há nada pior do que desvios de caráter andando soltos por aí sozinhos.
— Cotas raciais e outras políticas racistas, pois não há nada mais necesssário num país essencialmente mestiço.
— Mais espaço para as bicicletas, porque é como pessoas inteligentes costumam se deslocar sob chuva, de madrugada, para levar o filho no pronto socorro.
— Marcha das Vadias, porque não existe nada mais cruel do que casar, vestir-se com sobriedade e lavar louça.
— «O gigante acordou», mas foi só pra dar uma mijada, ok?
— Os estádios da Copa, que você vai esquecer quando vir a lindeza toda que é aquela obra do Calatrava no Rio, para as Olimpíadas.
— Homofobia, porque tudo que os cristãos querem é matar gays, certeza absoluta.
— Biografias não-autorizadas de cantores, essa classe de profissionais que sempre fez muito pelo país.
— Beijaço e outras performances retardadas para perturbar pastor, porque essa sempre foi a melhor forma de dialogar com pessoas que pensam diferente de você.
— Resgate de cachorros, porque você manja muito de ciência e porque ser humano é mesmo uma raça maldita.
— Palmeiras de volta à série A, e você nem palmeirense é.
— Algum programa de TV aí, qualquer um, até mesmo os «de opinião».
— A pujança da economia brasileira, que vai garantir Bolsa Família inclusive para CEOs.

Você não apenas dedica tempo a essas coisas, você também gasta dinheiro bolando e adquirindo meios para lidar com o problema da violência, sem se importar muito com a própria ignorância a respeito desse assunto, com o fato de que há muito tempo você está vivendo sob toque de recolher, como aquele personagem de Will Smith em «I am legend», e com a sorte que é não fazer parte da estatística macabra apontada no link que abre este texto.

Eu não sei de você, gostaria de saber. De minha parte, recomendo o seguinte:

1) Reze.
Falo sério. «Use os meios mundanos como se não existissem os divinos; use os meios divinos como se não existissem os mundanos» — Baltasar Gracián. É claro que uma nação que vive sob as trevas de 50 mil homicídios todos os anos só não implode de vez porque existem forças superiores atuando e porque ainda restam pessoas sérias e com fé, mesmo que o cenário no Brasil seja de espiritualidade New Age mesclada ao ateísmo materialista.

2) Arme-se.
Primeiro, porque sua defesa e de sua família é sua responsabilidade. Segundo, porque há tempos o governo brasileiro tem se esforçado muito para desarmar a população civil e nada para desarmar criminosos, criando o pior tipo de desigualdade que existe: aquele em que pessoas de bem ficam cada vez mais vulneráveis num ambiente em que os maus estão cada vez mais armados. Terceiro, porque possuir uma arma ainda é possível (o porte é proibido, mas a posse em casa ou no trabalho é permitida).

3) Preserve o senso das proporções.
Não existe nada mais sério, urgente e importante do que o problema da violência. Se você não estiver vivo amanhã, não haverá sequer a possibilidade de perder tempo com um daqueles itens que indiquei no início.

4) Entenda o que está acontecendo.
Não seja como aquele blogueiro que acha que as pessoas escolhem o caminho do crime porque são pobres. O atual estado de coisas não pode ser explicado por diferenças sócio-econômicas. A raiz é mais profunda e ampla. Ou você acha que é simples coincidência o Brasil ser um dos países mais violentos do mundo e também apresentar os piores índices de educação básica?

5) Vote direito.
Jamais vote no PT. Repito: JAMAIS VOTE NO PT. No que diz respeito aos índices de violência, o país está à beira do abismo faz tempo; há 11 anos o PT governa o Brasil e o problema da violência piorou. O PT é histórico parceiro de ditadores e dos principais grupos de narcoterroristas do continente. Essa ligação deixa claro o desinteresse do PT em interferir seriamente no problema da violência, boa parte dele ligada ao narcotráfico. Ademais, enquanto as estatísticas de violência indicam um quadro cada vez pior, as prioridades do PT continuam sendo a dissolução dos valores familiares, o aumento da máquina governamental e a permanência no poder.

6) Conheça sua cidade e conheça seus vizinhos.
A atmosfera de medo esvazia as cidades, que assim se tornam o cenário ideal para todo tipo de crime. Mas as cidades foram feitas para pessoas que querem trabalhar e levar suas vidas adiante, normalmente, não para criminosos.

Seqüestro estatal

Uma mensagem urgente para quem tem filhos, netos ou sobrinhos menores de 6 anos

O Governo Federal acabou de aprovar lei que torna OBRIGATÓRIA a educação escolar a partir de 4 anos de idade. Isto pode ser lindo à primeira vista, mas devemos lembrar de algumas coisas:

1) O sistema educacional brasileiro tem se mostrado um dos piores do mundo.
2) Mesmo com resultados deploráveis, o Governo Federal está mais preocupado com a inserção de conteúdos cuja utilidade na melhoria desses resultados é no mínimo discutível (igualdade étnico-racial, cultura africana, islamismo) e em alguns casos abominável (sexo para crianças em idade pré-escolar, kit-gay em escolas).
3) Com freqüência as escolas são celeiros de violência ou são alvos dela.
4) A educação familiar doméstica no Brasil é proibida, o que significa a criminalização de toda iniciativa familiar a favor da educação dos próprios filhos.

Se alguém precisar de mais informações para entender a gravidade deste quadro, por favor ouça esta entrevista,

É evidente que esta ação do Governo Federal nada tem a ver com melhoria da educação, mas sim com a ampliação e a reafirmação do poder estatal sobre a família brasileira, que hoje é uma das poucas instituições capazes de fazer frente à ditadura sob a qual vivemos. A carga horária prevista para o novo período de educação infantil (4 e 5 anos de idade) é de 800 horas; isto significa que cada criança nesta idade ficará 800 horas a menos com seus pais numa idade em que as relações familiares são infinitamente mais importantes do que as atividades escolares. Quem sabe o que é uma criança de 4 anos de idade não tem nenhuma dúvida disso.

Link sobre a lei recentemente aprovada.

Sobre a educação familiar doméstica, veja este vídeo.

As questões que proponho são as seguintes:
1) O que é necessário para mudar essa situação em curto, médio e longo prazo?
2) O que se pode fazer para não se submeter aos parâmetros atuais da educação brasileira?
3) O que é necessário fazer para que todos compreendam que uma iniciativa como esta do Governo Federal é mais um de seus inúmeros crimes contra a família brasileira?

Estejam à vontade para se manifestar, sobretudo se este assunto não lhes parecer sério o suficiente.

Segovia e o chiado

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Quando eu estava na faculdade conheci um estudante de violão erudito. Eu já apreciava muito o instrumento e conversei com ele a respeito de intérpretes. Inevitavelmente a conversa chegou a Andrés Segovia.

Ele então comentou que já havia na atualidade (era a década de 90) intérpretes melhores do que Segovia. Fiquei surpreso. Para os meus ouvidos (eu nunca aprendi a tocar violão) não havia nada superior a Andrés Segovia — mestre que, inclusive, formara ou influenciara a maioria dos violonistas importantes desse fim de séc. XX, como Julian Bream, Eliot Fisk e John Williams.

Depois disso passei a ouvir com mais atenção o violão, tentando identificar diferenças nas interpretações das mesmas obras. O amigo violonista, é claro, tinha razão. Mas identifiquei também um dos motivos que tornaram Segovia único e absolutamente sensacional.

A carreira de Segovia desenvolveu-se no mesmo ritmo do desenvolvimento do vinil. A carreira de Segovia dificilmente teria acontecido sem o advento dessa tecnologia. Segovia surge para o mundo da música praticamente ao mesmo tempo que o gramofone começa a se popularizar. Sua primeira apresentação pública foi em 1909, aos 16 anos de idade. No final da década de 1910 o fonógrafo de cilindro começava a ser substituído pelo gramofone e pelos discos de vinil — uma revolução discreta se iniciava.

Mas o que a tecnologia tem a ver com a música em si? Segovia seria menos genial se tivesse surgido já na era das mídias digitais, como o CD e o MP3? Certamente não, mas Segovia tem algo que poucos têm: chiado. As gravações de Segovia estão impregnadas pelo chiado das gravações analógicas. Mesmo que você o ouça numa gravação em formato digital, com definição máxima de som altamente processado, você percebe as impurezas. Isto é o mesmo que dizer que as performances de Segovia — suas gravações — têm a marca do tempo a que pertencem. Você ouve Segovia tocando e automaticamente é transportado para alguma noite da década de 50, numa sala de móveis de mogno. Você quase pode vê-lo com seus dedos gordos e sua expressão de que aquilo é fácil demais, a tranqüilidade de um tio-avô fumando um charuto. E isso, para quem realmente aprecia música, faz toda a diferença. A boa música é precisamente aquela que traz o ouvinte para perto. O contrário também costuma ser verdadeiro.

Segovia morreu em 1987, quando o CD começava a se tornar popular. Embora a tecnologia digital de gravação de áudio já existisse antes disso, Segovia já havia entrado para a história da música com a ajuda do vinil. Inúmeros CDs foram lançados com suas interpretações depois de sua morte e hoje em dia é fácil encontrar arquivos digitais com suas performances, mas felizmente a conversão para os formatos digitais não tirou de Segovia um de seus melhores companheiros.

Ouça.

Strogonoffobia

penne02O strogonoff é meu e eu faço como eu quiser.

Uma das discussões mais divertidas que já vi na Internet foi sobre strogonoff (alguns leitores preferirão a grafia «estrogonofe», ou ainda o original russo строганов, que romanizado fica «stroganov», que por sua vez pronuncia-se «strogonoff», que é a grafia mais popular atualmente; caso busque em sites estrangeiros, a grafia no inglês é «stroganoff»). Aconteceu numa das comunidades do Orkut relacionadas a esse prato — «Amo Strogonoff», «Adoro Strogonoff» ou algo do tipo. Infelizmente não consegui localizar a discussão, mas o resumo é mais ou menos o seguinte.

O tópico tratava da receita original de strogonoff.

Uma pessoa iniciou o tópico mencionando a origem russa do prato e como ele devia ser preparado sempre com carne bovina, creme azedo (uma variação do creme de leite fresco), mostarda em pó e vinho branco seco, além de outros ingredientes pouco conhecidos das pessoas acostumadas com as inúmeras variações brasileiras desse prato (um bom ponto de partida para saber mais sobre isso é o verbete na Wikipedia).

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