O que ando fazendo

O blog em banho-maria indica que algo deve estar acontecendo longe daqui. De fato está.

Tem sido um período de transição para mim. Encontro-me em processo de mudança de cidade, mudança de trabalho e mudança de mentalidade. Nem eu acredito ter idade para crises e para a necessidade de mudar a mentalidade. Não tenho mesa própria para virá-la. Não tenho sequer um trabalho normal que torne uma mudança profissional realmente significativa. Não tenho nada. Tenho a mim mesmo, conto com a ajuda preciosa de umas poucas pessoas que amo e sigo somente porque ficar deitado não vai garantir minha tigela diária de açaí e ainda por cima eliminará qualquer possibilidade de ter um gato para cuidar um dia. Como se vê, tenho pretensões miúdas e há pessoas ao redor que dizem que isso é que me destrói as chances de realmente ser alguém um dia.

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Vida profissional, doença moderna

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Dizem os mais sábios que a filosofia acabou quando alguns filósofos começaram a se reunir em instituições de ensino e organizaram a trapizonga de forma a perpetuá-la indefinidamente — e, junto com ela, consolidar o status destacado desses perpetuadores. Em outras palavras, a filosofia acabou — ou, pelo menos, sua qualidade despencou assustadoramente — quando se tornou uma profissão comum, com começo (estudo formal, como aquilo que dizem que é feito numa universidade), meio (exercício formal, ao ponto de ‘prestar serviços’, como um encanador ou um arquiteto) e fim (aposentadoria formal, que geralmente se expressa na obtenção de uma cátedra qualquer e artigos para jornais que só reconhecem seu nome, não suas idéias).

Daí para a constituição de sindicatos, conselhos de classe, daí para o estabelecimento oficial (i.e. chancelado pelo Governo Federal) da profissão de filósofo, foi um pulo. Continuar lendo

Fragmentos de um diálogo existencial

Eu nunca acreditei em fazer uma coisa chata e rentável por muitos anos, juntar dinheiro e depois — só depois — investir naquilo que se gosta. Não vejo bons exemplos ao meu redor e o que ocorre na maioria dos casos é que essa coisa chata e rentável acaba escravizando e degradando a pessoa ao ponto de estragar nela aquela paixão que ela possuía por várias outras atividades que poderiam ter feito dela uma pessoa muito melhor e mais realizada. E, claro, ela nunca mais volta a fazer essas coisas ou as faz no máximo como hobby, como diversão de horas vagas.

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O mais importante é você de fato ser uma pessoa digna, um mestre hábil, competente, amoroso, sábio e iluminado. Se você é isso, as pessoas vão até você e lhe pagam bem. E talvez eu não mereça ganhar dinheiro e ter uma vida boa se eu não puder ser uma pessoa com essas qualidades.

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Eu não me sinto em condições de trabalhar para me aposentar um dia. Eu me sinto em condições de começar algo ou dar seqüência (como no caso das coisas que acho que sei fazer) a algo que eu sei que eu vou fazer pelo resto da vida — não porque será necessário, mas porque eu realmente vou querer fazer isso pelo resto da vida, até o fim da vida.

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Trata-se de um assunto indigesto. Conversar sobre ele é uma forma de reafirmar ou confirmar minha incompetência para levar adiante as coisas que idealizo e desejo pra mim. Como não consigo levar adiante, eu falo ou escrevo ou resmungo. Ser pago para falar, escrever ou resmungar e transformar estas coisas numa carreira respeitável dependem de muita sorte.

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Eu aprenderia a gostar do que faço — sem me preocupar se se trata de algo que me fisgou a alma ou não — se já não gostasse tanto de fazer algumas coisas e se não soubesse que elas podem funcionar como uma carreira para vida toda — algo que eu nunca tive.

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Talvez as coisas sejam mais fáceis quando não se tem escolha.

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Imagem obtida aqui.

Referenciais

Para melhorar de vida é necessário saber o que é uma vida melhor. Um amigo meu crê que uma vida melhor é ter mais dinheiro no bolso. Para ele, melhorar de vida tem um significado estritamente numérico — dois ou três zeros a mais no lugar certo de seu saldo bancário tornariam sua vida melhor. Pergunto-lhe o que é sucesso e ele me fala de dinheiro e menciona algumas pessoas sobre as quais eu já ouvi falar, mas que não conheci, isto é, pessoas famosas. Sucesso, inveja…

Por falar nisso, é adequado ter referenciais perenes, notadamente bons e completos.

Não, o Ronaldinho não serve. Ele pegou a Cicarelli, tem (ou teve, não faz muita diferença) uma Ferrari e recebe um salário milionário, mas continua sendo um jogador de futebol, alguém que, afinal, só sabe chutar uma bola.

“O ‘fazer algo’ é necessário, mas somente o ‘ser alguém’ é suficiente. Isto é dos sábios, aquilo é dos virtuosos.” — Huberto Rohden

Vida profissional

Certos tipos de profissionais ganhariam muito mais destaque e renda se se abstivessem de exercer suas profissões da forma tradicional. Eu, por exemplo, embora formado em arquitetura, vejo que, por razões que não vem ao caso expor, sou muito mais útil à Arquitetura se eu me mantiver longe dela. Digo isso não por uma incompetência inata para algo a que me dediquei por cinco anos universitários, mas por reconhecer nela — Arquitetura — e em mim mais diferenças do que semelhanças. À distância essas diferenças serão úteis, por exemplo, ao exercício do ensino e da pesquisa, mas são nocivas, é fácil perceber, ao projeto e à construção de obras.

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